Brad Pitt chegou ao quinto dia de San Sebastián — quer dizer, já tinha chegado dois dias antes e provocado a previsível romaria de fãs à entrada do Kursaal, com fotografias, telemóveis, autógrafos e braços estendidos como se estivesse em causa a última aparição de uma espécie protegida — com Heart of the Beast — Heróis Inseparáveis, filme fora de competição em que divide o protagonismo com um pastor-alemão chamado Odin e confirma uma velha certeza industrial: ponham-lhe uma câmara à frente e ainda há muita gente disposta a comprar bilhete, tirar fotografias e oferecer-lhe o braço, a camisa ou provavelmente a certidão de nascimento para um autógrafo. Porém, David Ayer troca aqui os tanques de Fúria pelas montanhas do Alasca, mas conserva o essencial: homens feridos, códigos de lealdade, trauma militar e a ideia muito americana de que, quando tudo falha, resta avançar ou, em bom português, dar o peito às balas. Só que desta vez há poucas balas e mais ursos, lobos, rios gelados com corredeiras e precipícios. E o melhor camarada de Pitt não dispara. Ladra. Pior para ele: o ator percebe perfeitamente que a grande vedeta talvez nem seja Brad Pitt, mas, desta vez, Odin.

Um homem, um cão e uma montanha de problemas
James Belmont (Brad Pitt) é um antigo oficial das Forças Especiais dos EUA, já retirado, que vive com Odin, também ele veterano de guerra, porque até o cão tem currículo militar e traumas suficientes para justificar terapia. Um ataque cardíaco de Belmont em pleno voo acaba num acidente e deixa os dois perdidos na natureza selvagem do Alasca. A partir daqui, o argumentista Cameron Alexander escreve um filme que não tem vergonha da sua simplicidade: sobreviver ao frio, aos rios, aos animais, às quedas, ao medo e, sobretudo, aos fantasmas que ambos trouxeram da guerra. Não existe qualquer pretensão de reinventar o cinema de sobrevivência. Existe apenas a vontade de o fazer funcionar. E quase sempre funciona.
Ayer sabe perfeitamente onde está. O realizador de Fim de Turno, Fúria, Esquadrão Suicida, Beekeeper — O Protetor e Um Trabalhador Implacável conhece estes homens duros que afinal sangram, sofrem, têm pesadelos e precisam desesperadamente de alguém ao lado. A diferença é que aqui baixa vários pontos no volume da testosterona e aumenta os da ternura e da redenção. O filme avança depressa e encontra a sua melhor matéria não no urso, no lobo ou no rio gelado, mas nos silêncios entre James e Odin. É aí que Ayer acerta realmente no tom e deixa respirar uma relação que, felizmente, não precisa sempre de música a explicar-nos quando devemos comover-nos.
Claro que as boas intenções não resolvem tudo. Há momentos em que o filme ameaça transformar-se num manual ilustrado de “homem traumatizado aprende novamente a sentir através do cão”, alguns efeitos digitais convencem menos do que Brad Pitt a fingir que não sabe que é Brad Pitt e a previsibilidade instala-se bastante cedo. Sabemos o género, conhecemos os múltiplos obstáculos e quase conseguimos calcular em que minuto vai entrar a emoção. Mas Ayer não tenta enganar ninguém. Quer fazer uma aventura clássica, emocional e popular, com coração suficiente para levar os donos de cães ao cinema e fazê-los regressar a casa sentindo uma culpa absolutamente desnecessária; pelo menos até ao passeio seguinte, quando tiverem de apanhar o cocó do seu melhor amigo com um saco de plástico. O amor também é isto. Hollywood costuma omitir esta parte.
O cão é, de facto, a estrela
Pitt diz isso sem rodeios numa entrevista que acompanhou o lançamento do filme: “Para mim, ele é a estrela.” O ator fala da ligação ao animal em termos de lealdade, afeto e dor, recorda os cães abandonados que adotou durante a rodagem de Sete Anos no Tibete e insiste que a relação construída com o animal no plateau não foi apenas mais um truque de representação. Há nisso promoção — estamos em Hollywood, não numa assembleia da Sociedade Protetora dos Animais —, mas, convenhamos, também parece existir bastante convicção.
Pitt explica ainda que o argumento de Cameron Alexander o conquistou pela ideia de amizade e coragem sem limites e que quis regressar ao universo de David Ayer depois de Fúria porque admira a sua abordagem crua, a procura da autenticidade e a atenção aos rostos. A reunião faz sentido. Ayer precisa de uma estrela capaz de carregar longos minutos praticamente sozinho; Pitt precisa de um realizador que não lhe peça para “fazer de Brad Pitt” em cada plano. E Odin precisa apenas de existir, de olhar para ele, para a câmara ou para ambos e demonstrar que quatro patas também chegam para dominar um grande plano.
Nos créditos, Pitt não é apenas protagonista: surge igualmente como produtor p.g.a., ao lado de Olivia Hamilton e David Ayer, enquanto Damien Chazelle — o realizador de Whiplash — Nos Limites, La La Land: Melodia de Amor e Babylon — está entre os produtores executivos. Ou seja, há bastante cinema escondido atrás desta aparentemente simples história de um homem e de um cão. Pitt, que fundou a Plan B em 2001, diz que passou a produzir para apoiar histórias em que acreditava. Heart of the Beast — Heróis Inseparáveis não é propriamente uma operação suicida do cinema independente nem alguém hipotecou a casa para o fazer, mas percebe-se a lógica: pegar numa narrativa elementar e confiar no carisma, no ritmo e na emoção.
Brad Pitt não precisa de falar. Nem de um banco
Há, entretanto, um paralelo irresistível com o anúncio que Pitt faz agora para a Trade Republic. O conceito da campanha europeia é de uma simplicidade quase ofensiva: sala preta, cadeira, Brad Pitt entra, senta-se, olha para a câmara e não diz uma palavra. Uma voz explica as vantagens da plataforma financeira. A tese é transparente: já que temos a sua atenção por causa dele, aproveitamos para lhe vender uma conta. Publicidade minimalista ou demonstração prática de capitalismo aplicado ao rosto humano.
Heart of the Beast — Heróis Inseparáveis trabalha, no fundo, sobre um princípio parecido. Temos Brad Pitt. Agora que temos a sua atenção, acrescentamos um cão, uma montanha, um avião desfeito e 101 minutos de sobrevivência. Só que aqui Pitt tem de fazer mais do que permanecer sentado a olhar para a câmara. Tem de nos convencer de que aquele homem cansado, assustado e avariado existe para lá da estrela que vimos em Thelma & Louise, Entrevista com o Vampiro, Clube de Combate, Sacanas sem Lei ou Era Uma Vez em… Hollywood, entre muitos outros. E consegue, talvez porque envelhecer lhe retirou alguma da necessidade de demonstrar permanentemente que é Brad Pitt. Está cada vez melhor precisamente quando parece menos interessado em mostrar que está a representar.
E, já agora, ficamos à espera, com alguma ansiedade, de The Further Mis-Adventures of Cliff Booth, de David Fincher, escrito por Quentin Tarantino, onde Pitt regressa ao papel de Cliff Booth e, portanto, ao universo de Era Uma Vez em… Hollywood. Se há personagens que merecem uma segunda vida, Cliff Booth é uma delas. Sobretudo se continuar acompanhado daquele ar de quem pode resolver um problema, matar um mau da fita ou simplesmente abrir uma cerveja sem alterar a expressão facial.
Brad Pitt continua, naturalmente, a ser uma das grandes armas comerciais de Heart of the Beast —Heróis Inseparáveis. Odin pode roubar-lhe cenas, mas Pitt ainda leva muita gente ao cinema. San Sebastián soube-o e a Paramount também. Depois desta passagem fora de competição, Heart of the Beast — Heróis Inseparáveis começa já esta semana a chegar às salas europeias e estreia em Portugal na quinta-feira, 24 de setembro. Não há grande intervalo a perder: este é cinema feito para salas, espectadores, pipocas e, no caso dos mais sensíveis, alguns lenços de papel estrategicamente guardados no bolso.
No fim, Heart of the Beast — Amigos Inseparáveis não é o filme mais inesperado de David Ayer nem o papel mais complexo de Brad Pitt. É coisa talvez hoje mais rara no cinema industrial: um filme que sabe exatamente o que quer ser e não sente qualquer vergonha disso. Um thriller de sobrevivência competente, sentimental, musculado sem se tornar idiota e suficientemente esperto para perceber que um grande plano de um cão pode valer mais do que três páginas de diálogo. Brad Pitt pode continuar a vender contas bancárias em silêncio. Aqui, felizmente, ainda tem Odin para conversar. O problema é que Odin não precisa sequer de falar para lhe roubar o filme. E nós compramos a conversa.