A Europa começa sempre pelo mesmo erro: acreditar que o tempo é infinito. Foi assim em 1914, foi assim em 1939, e é assim agora, quando, pela primeira vez em décadas, se admite sem disfarce que “a Europa está em guerra”. A frase, dita por Ursula von der Leyen no seu discurso sobre o Estado da União, não é apenas um alerta: é uma confissão. A confissão de um continente que perdeu o controlo da sua própria narrativa.
De tanto delegar a sua defesa, a Europa tornou-se refém daquilo que não construiu. Antes fazia outsourcing da segurança aos Estados Unidos através da NATO; agora fá-lo através da Ucrânia. E paga por isso, paga com milhões, com a inflação, com a lentidão do crescimento e com a erosão da confiança política. Desde 2022, a União Europeia já canalizou mais de 170 mil milhões de euros em ajuda à Ucrânia. É o maior esforço financeiro da sua história fora das suas fronteiras, sem que isso lhe traga qualquer retorno estratégico claro, a não ser a promessa de uma segurança que continua dependente dos outros.
Ao mesmo tempo, cresce dentro da própria União o coro da desconfiança. O grupo de Visegrado – Orbán, Fico e o governo checo – questiona o rumo comum, ora por afinidades com Moscovo, ora por mero oportunismo político. Em Espanha, a diferença de tom face à NATO e à guerra de
Gaza revela outro tipo de fratura: a de quem quer pertencer à Europa, mas não à mesma Europa. Há ainda o mal-estar de muitos partidos que, à direita e à esquerda, exploram a fadiga dos cidadãos e o medo de um futuro sem norte.
É neste contexto que a frase de Von der Leyen ganha peso: se a Europa está em guerra, com que exército, com que comando e com que propósito? O continente que inventou o conceito de soberania partilhada é hoje incapaz de a exercer. Falta-lhe capacidade industrial, falta-lhe defesa integrada, falta-lhe um horizonte económico. Falta-lhe, sobretudo, uma geração de líderes que saiba dizer para que serve a Europa, não como ideia, mas como destino.
Enquanto o mundo se reorganiza – com a Ásia a crescer, o Sul Global a industrializar-se e os EUA a reconstruírem a sua economia com o dinheiro europeu, a Europa hesita. Isto já para não falar do gigante chamado China. O tempo que dedica à gestão das crises internas é o tempo que perde na corrida tecnológica, energética e industrial. A guerra híbrida dos drones e da desinformação é travada com arsenais de 1990. A ambição digital de Bruxelas fica na gaveta quando Berlim e Paris divergem. E o artigo 7º, suposto instrumento para proteger a democracia dentro da União, não passa de uma ameaça sem dentes: exige unanimidade entre os mesmos que dela abusam. Mas o maior perigo é outro – é a erosão da crença. A geração que cresceu com Erasmus, viagens sem fronteiras e a moeda única já não vê na Europa o mesmo farol. Falta-lhe épica, falta-lhe voz. Nenhum líder europeu, neste momento, tem o magnetismo político capaz de reencantar os jovens com o projeto europeu. A Europa não se perderá por um veto de Orbán ou por um orçamento falhado. Perder-se-á no dia em que os europeus deixarem de acreditar que vale a pena defendê-la.A adesão da Ucrânia à União Europeia pode, nesse sentido, ser mais do que um gesto simbólico: pode ser o início de uma refundação. Uma Europa que volta a acreditar em si mesma, que entende a defesa como parte da sua soberania, que percebe que financiar Kiev é, afinal, investir em si própria. Uma Europa que não é apenas um banco nem um espectador de guerra, mas um ator político com vontade, estratégia e memória. Se não o fizer, ficará condenada à irrelevância. E a História será escrita, mais uma vez, por quem não acreditou na Europa, mas soube prever o seu silêncio.