Há dias, encontrei um amigo de longa data – alguém com quem partilhei juventude, ideais, debates sobre justiça e liberdade. Sentámo-nos num café como algumas vezes antes, mas desta vez o clima era outro. Quando mencionei o meu desconforto com o crescimento de certos discursos na política portuguesa, ele olhou-me com firmeza e disse: “Estou na lista do Chega. Não por ódio, mas por amor. É pelo futuro da minha filha.” Fiquei em silêncio. Não pela surpresa, mas pela dor de ver alguém que amo atravessar uma linha invisível que, uma vez ultrapassada, transforma o amor em exclusão, a proteção em hostilidade. Porque é exatamente assim que o autoritarismo avança: não com botas, mas com ternura; não com ameaças, mas com promessas de segurança para os nossos filhos. E é nesse ponto, precisamente, que devemos parar e perguntar: que futuro estamos a construir quando o preço da proteção é o desprezo pelo outro? Quando dizemos que queremos um país melhor para os nossos filhos, mas só para os nossos filhos – e não para todos os filhos?
Este gesto – o de um pai que, movido por um amor legítimo, adere a um projeto político que nega dignidade a outros – é um sintoma de uma falha mais profunda. Não se trata apenas de uma escolha partidária. É o sinal de que a democracia falhou em oferecer respostas que reconciliem a esperança com a justiça. E é nesse vazio que o populismo de extrema-direita cresce: não nas certezas, mas nas angústias; não na razão, mas no medo disfarçado de sentido.
Ernesto Laclau, professor argentino, defende que o populismo nasce quando um conjunto heterogéneo de insatisfações – económicas, simbólicas, existenciais – se une a um discurso que nomeia um “inimigo” comum. Esse inimigo não precisa de existir de forma concreta; basta que seja sentido como ameaça. No caso do Chega, esse inimigo é múltiplo: o político corrupto, o juiz “ativista”, o imigrante “ilegal”, o sistema que “não funciona para o povo”. O que une estas figuras não é uma análise estrutural, mas uma emoção coletiva: a sensação de que se foi traído, esquecido, desrespeitado.
É um sentimento real, verdadeiro. Muitos portugueses vivem na precariedade, com reformas de miséria, com serviços públicos degradados. A corrupção existe. A insegurança urbana é uma dor concreta em certas comunidades. Mas em vez de se apontar às estruturas – ao falhanço do Estado social, à desigualdade económica, à concentração de poder –, o discurso populista desloca a responsabilidade, a culpa. Aponta para quem é mais fraco, mais visível, mais fácil de estigmatizar. E nesse processo, transforma a justa indignação numa violência simbólica, como bem descreveu Pierre Bourdieu.
Quem fica de fora?
Porque o que está em jogo não é apenas o voto, mas a forma como vemos o outro. Quando se diz que “Portugal é para os portugueses”, não se está a defender a nação – está-se a definir quem nela tem direito a pertencer. E quem fica de fora? Os que não se encaixam na imagem purificada de “português de verdade”, na “gente de bem”. É um mecanismo antigo, já estudado por Theodor Adorno no pós-guerra: a “personalidade autoritária” não nasce do nada. Nasce da humilhação social, da insegurança económica, do sentimento de perda de estatuto. E quando o sistema não oferece esperança, oferece-se, em troca, superioridade simbólica: a ilusão de que, mesmo sem dinheiro nem poder, se é “mais legítimo” do que o outro.
É aqui que o discurso do Chega se torna perigoso: não por falar de problemas reais, mas por responder a problemas reais com soluções irracionais. Quer mais segurança? Então expulsemos os imigrantes. Quer menos corrupção? Então descredibilizemos todos os juízes. Quer proteção para os nossos filhos? Então fechemos as portas aos filhos dos outros. É uma lógica de cerco, de pureza, de ordem restaurada – que, como bem alertou Chantal Mouffe, pode facilmente deslizar para o antipluralismo, onde o adversário político deixa de ser um interlocutor e passa a ser um inimigo a eliminar.
E é por isso que o testemunho do meu amigo me assombra. Porque ele não é um homem mau. É um amigo. É um pai que tem medo. Medo de que a filha cresça num país em crise, sem oportunidades, sem segurança. Mas o que ele não vê – ou não quer ver – é que o futuro da filha está ligado ao futuro de todas as crianças. Que a verdadeira proteção não se constrói com muros, mas com escolas, hospitais, políticas de inclusão. Que um país que exclui parte dos seus cidadãos não é mais seguro – é mais frágil, mais dividido, mais próximo do colapso civil.
A democracia não é um regime de consenso fácil. É, como Mouffe insistiu, um campo de “agonismo” – onde os conflitos existem, mas são contidos pela regra comum do respeito mútuo. O seu colapso começa quando se deixa de ver o outro como adversário legítimo e se passa a vê-lo como ameaça à ordem natural das coisas. É nesse momento que se abre caminho para a ilegitimidade, para a violência, para o fim do debate.
Escolher a luz
A resposta ao populismo não pode ser o escárnio. Como Boaventura de Sousa Santos alertou, o desprezo é o oposto da justiça. A resposta tem de ser a reafirmação de uma democracia radical, que não se limite a eleger governos, mas a transformar as condições de vida de quem foi esquecido. Tem de ser uma política que escute os medos, mas não os instrumentalize. Que reconheça a raiva, mas não a converta em ódio.
Porque o futuro da nossa filha – de todas as nossas filhas, porque também eu tenho – não se constrói com listas de exclusão. Constrói-se com direitos, com igualdade, com a coragem de dizer que ninguém é descartável. Que ninguém é “menos português” por nascer noutro continente, por falar outra língua, por crer noutra fé.
O amor não deve ser a justificação para o encarceramento. Deve ser a razão para a abertura.
E a política, se for verdadeiramente democrática, não pode ser o lugar onde o medo vence.
Tem de ser o lugar onde, mesmo em tempos sombrios, escolhemos a luz da solidariedade.
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