Na minha aldeia, a emigração não foi uma palavra abstrata, nem um tema de estatística. Foi uma ausência que se instalou nas casas, nas mesas e nas ruas. Nos anos sessenta, primeiro partiram os homens. Saíam com pouco mais do que uma mala, alguns contactos incertos e a promessa de que, do outro lado da fronteira, haveria trabalho e futuro. Depois foram as mulheres, muitas vezes para se juntarem aos maridos, para trabalhar, para cuidar dos filhos dos outros deixando para trás, muitas vezes, os seus. Só depois chegaram as crianças, arrancadas à aldeia, aos avós, à escola e à língua que conheciam.
Muitos partiram sem documentos, por caminhos que hoje talvez chamássemos “irregulares”, mas que, então, eram sobretudo caminhos de sobrevivência. Não tinham estudos, não dominavam a língua do país de destino e não possuíam redes de proteção. Tinham, isso sim, coragem, necessidade e uma espécie de esperança teimosa que os obrigava a avançar.
Paris foi, para muitos, o nome desse futuro. Mas antes das avenidas, das obras, dos restaurantes e das pequenas empresas, houve os bidonvilles: barracas de chapa, lama, frio, sobrelotação e precariedade. Lugares onde se vivia à margem da cidade, embora se trabalhasse todos os dias para a construir. Homens portugueses ajudaram a levantar prédios, estradas e infraestruturas; mulheres limparam casas, trabalharam em fábricas, em hotéis, em cozinhas e em cuidados. A França recebeu o seu trabalho, mas nem sempre lhes deu, de imediato, dignidade, reconhecimento ou pertença.
Ainda hoje, todos os anos, agosto é o mês do regresso. As aldeias voltam a encher-se de carros com matrícula francesa, de vozes misturadas, de casas que permanecem fechadas durante onze meses e que, por algumas semanas, recuperam vida. Há almoços de família, festas populares, visitas ao cemitério, reencontros que trazem alegria e, por vezes, uma melancolia difícil de explicar.
Porque muitos dos que regressam carregam uma sensação persistente: já não pertencem inteiramente a França, mas também já não pertencem inteiramente a Portugal. Lá são “os portugueses”; cá são “os franceses”. Vivem entre duas línguas, duas memórias, duas formas de estar. E esta condição não desaparece necessariamente com o tempo. Passa para os filhos e, em certos casos, para os netos.
A segunda e a terceira gerações herdaram mais do que uma nacionalidade ou um apelido. Herdaram histórias de clandestinidade, sacrifício e silêncio. Herdaram pais e avós que trabalharam muito, mas que nem sempre tiveram instrumentos para acompanhar a escola, compreender instituições ou transmitir-lhes a segurança de quem nasceu num país sem ter de provar, continuamente, que merece estar nele.
É aqui que surge uma das contradições mais dolorosas do nosso tempo.
Parte destas comunidades, feitas de emigrantes e descendentes de emigrantes, tem dado expressão eleitoral ao Chega — um partido que alimenta a hostilidade contra quem imigra, que transforma pessoas em ameaças e que explora politicamente o medo de quem chega.
Não digo isto para condenar uma comunidade inteira, muito menos para apagar a diversidade de vidas, opiniões e percursos que nela existem. Mas é impossível não reparar nesta ironia amarga: pessoas que conhecem, por experiência própria ou pela história dos seus pais, a clandestinidade, o preconceito, a dificuldade de falar a língua, o trabalho mal pago e a sensação de não pertencer podem acabar por apoiar um discurso que nega humanidade aos migrantes de hoje.
Talvez porque a memória da pobreza se transforma, tantas vezes, em vergonha. Talvez porque quem conseguiu subir um degrau teme que alguém lhe retire o lugar. Talvez porque a extrema-direita oferece respostas fáceis para problemas complexos: culpa os mais frágeis, promete ordem através da exclusão e substitui políticas públicas por ressentimento.
Mas não há nada de inevitável nisso. A memória da emigração portuguesa devia tornar-nos mais exigentes com a forma como Portugal acolhe quem chega. Devia levar-nos a compreender que a migração não é uma falha moral, nem uma invasão, nem um crime. É, muitas vezes, a mesma procura de segurança, trabalho e futuro que levou tantos portugueses a atravessar fronteiras com medo e sem garantias.
Falta apoio para os emigrantes daquela geração, hoje envelhecidos, muitas vezes isolados entre dois países e confrontados com dificuldades de acesso a direitos, saúde, pensões e acompanhamento social.
Falta também uma atenção mais séria às segundas e terceiras gerações, que continuam a enfrentar barreiras escolares, profissionais, culturais e identitárias.
A história da minha aldeia ensina-nos uma coisa simples: quem emigra não deixa apenas um lugar; leva-o consigo. E, muitas vezes, regressa sem nunca regressar totalmente. Os bidonvillespodem ter desaparecido da paisagem de Paris, mas permanecem na memória de muitas famílias portuguesas.
Antes de apontarmos o dedo a quem chega sem documentos, talvez devêssemos recordar quantos dos nossos também partiram assim: com medo, sem estudos, sem papéis e apenas com a esperança de que alguém, do outro lado, lhes desse uma oportunidade.
Essa memória devia vacinar-nos contra o ódio — não ensinar-nos a reproduzi-lo.
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