Há coisas que só se percebem bem quando faltam. Ao fim de mais de 30 verões, os últimos quatro não me levaram à Costa Vicentina. A vida em família, os filhos recém-nascidos, o calendário que deixou de ser só nosso, tudo isso foi decretando, sem que ninguém o dissesse em voz alta, que as férias tomassem outros rumos. Este ano, finalmente, regressei. Uma semana, no início do mês, entre Aljezur e Vila do Bispo, onde a costa se recolhe sobre si mesma e as praias parecem ainda hoje um segredo mal guardado.
Encontrei-a igual a sempre. Mas melhor.
E os filhos, agora, a descobrirem pela primeira vez o que eu descobri há décadas, como se o tempo se dobrasse sobre si mesmo por um instante.
É esse o milagre estranho dos lugares intocados: o tempo passa sobre eles sem os gastar. Há qualquer coisa ali que me lembra o Douro. Não pela paisagem, que nada tem em comum, mas pela lógica: a de um território que resiste porque a sua própria natureza o protege. Um Douro do sul, do verão, feito de falésias que não se negoceiam e de acessos que continuam a exigir alguma teimosia a quem quer percorrê-los.
E é essa dificuldade, precisamente, que interessa preservar.
Vivemos tempos em que se tornou moda apontar a imigração como a grande força descaracterizadora dos lugares e das identidades. É um discurso fácil, feito de medo disfarçado de nostalgia. Mas quem percorre a Costa Vicentina percebe rapidamente que essa equação está errada. Não é a imigração que desfigura um território. É e sempre foi o turismo de massas. Esse, sim, capaz de esvaziar uma terra da sua alma em poucos anos, substituindo o que era autêntico por aquilo que se vende bem em fotografia.
Toda a envolvência de Vila do Bispo e Aljezur recebe, ano após ano, mais gente. E, no entanto, mantém-se fiel ao que tem de mais essencial e belo, como se tivesse ficado parada num ponto qualquer há 30, 40 ou 60 anos. Não por acaso: as suas praias mais recônditas não convidam ao excesso. Exigem caminhada, tempo e quase um pacto de silêncio entre quem as conhece. É esse conjunto de pequenos obstáculos, geográficos, quase filosóficos, que as tem protegido daquilo que devastou tanta coisa por aí.
Não há ali os artificialismos que se veem em tantas cidades e ilhas europeias, refeitas à medida do turista antes de qualquer outra coisa. Não está ali o “plástico” que se instalou nalgumas localidades do País, nem o desgaste de um Algarve que hoje tenta, tarde e a espaços, recuperar aquilo que deixou perder-se.
A Costa Vicentina é um tesouro nacional porque continua difícil. E se há uma lição a tirar deste regresso adiado, é que talvez a melhor política de conservação, para tantos lugares, seja simplesmente resistir à tentação de os tornar fáceis demais.
Que não se alcatroem mais caminhos de terra. Que as praias continuem a exigir-nos um pouco de esforço antes de nos entregarem a recompensa. Daqui a 30 verões, quero voltar a caminhar até lá.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.