Quando em 2009 conheci os Capitão Fausto mal sabia o que aí vinha. Acontece-me com frequência. Havia quem soubesse. Como o Diego Armés, dos Feromona. Já os tínhamos visto nas Dispersões Coloidais, essa coisa meio clandestina, meio milagre, que o João Pedro Vala organizava, ali para os lados do Lavra. Para o Diego, era evidente. Para mim, não.
Se eu tivesse tido, na altura, as certezas dos meus pares, tê-los-ia recebido na Amor Fúria, a editora independente que tinha na altura. Era o gesto natural. Mas não foi assim.
Corre a lenda — confirmada pelos próprios, o que a torna ainda mais suspeita — que, num ensaio, ainda na Travessa do Monte do Carmo, eu lhes terei dito qualquer coisa imperdoável. Não nego. Também não confirmo. Posso ter sido pouco esperto. Fui, aliás. Padecia daquela bazófia pueril dos que julgam que Nosso Senhor lhes passou uma procuração temporária para administrar o mundo.. É um estado de espírito comum. Acontece aos piores. E aconteceu a mim.
Mas uma coisa sei e aqui não há ironia possível: nunca achei que eles fossem maus. Nunca na vida. Eram cinco miúdos habilidosos, cheios de música, com ouvido, com mundo interior. Rapaziada capaz de pegar no que gostava e fazer nascer outra coisa, só deles, daquela maneira. Isso é valiosíssimo, e deve guardar-se bem guardado. O que eu não acreditava — e aí não vacilo — é que fossem uma banda.
E foi por isso, percebo agora, que não os convidei para a editora. Havia, nessa altura, os primeiros discos de longa duração dos Capitães da Areia e dos Velhos em pleno andamento. Esses, sim, bandas. Uns porque ainda não o eram e tinham de aprender à força. Os outros porque já o eram demasiado. Os Capitão Fausto não cabiam aí. E era preciso fazer escolhas.
Quer dizer, eles tinham tudo. Tinham os instrumentos, que sabiam tocar bem, tinham a música, tinham até a tragédia dos manuais, encarnada na vertigem autodestrutiva do seu vocalista. Mas faltava-lhes uma coisa: atrito. Talvez pelo excesso de qualidades. Não com a música, que sempre fluiu, mas com o mundo. Não tinham inimigos naturais, nem urgência — apesar de serem rápidos.
Talvez ajudasse o facto de não estarem propriamente a começar. Antes já tinham sido os IC19 — nome genial, diga-se — e tocavam juntos desde crianças. Com a chegada do Tomás não começaram nada: revelaram-se. Há quem comece. Há quem se revele. É diferente. Eles já sabiam. Tinham tido tempo. E, como se veio a provar, viriam a ficar com ele só para si.
Diz o Jorge Cruz — e diz bem — que toda a banda precisa de conflito. Seja ele qual for. Enquanto o conflito vive, a banda vive. Quando acaba, a banda acaba com ele — mesmo que continue a tocar e a dar entrevistas. Por isso as bandas duram pouco. As que duram muito, normalmente já morreram e ainda não receberam o papelinho a avisar.
Daí que, daquele período entre 2009 e 2016, em que por cada pedra em que se tropeçava aparecia uma banda, só tenha sobrado uma. Os Fausto. Não porque tenha resistido heroicamente. Mas porque nunca foi uma banda — essa organização humana incapaz de sobreviver sem confronto. Foram sempre outra coisa. Um bando. O que é completamente diferente.
Comecei a compreendê-lo em 2014. Estava com o Tomás e o Salvador, no Intendente, e conversávamos sobre as dificuldades da Amor Fúria. Foi então que me contaram que iam criar uma editora. — “Como se vai chamar?”, — “Cuca Monga!”, respondeu o Tomás a rir. O que me parecia um gesto fora de tempo era, antes, o desabrochar consequente de uma vocação aglutinadora. Estavam a alargar o bando.
Um bando é, por natureza, receptivo: define-se por contágio. Pode incluir mais gente, mais vidas, mais idades, sem perder identidade. Não precisa de trincheiras, nem sequer de fronteiras muito nítidas. Um bando não precisa de inimigos, nem de alerta permanente. Precisa apenas de um tempo, um lugar, e uma música capaz de o acompanhar. Pode amadurecer sem se ressentir, alargar-se sem se espapaçar, envelhecer em público sem se tornar numa caricatura.
Mais ou menos pela mesma altura, os Fausto sentiram a necessidade de formar projectos paralelos. Porém, quando o Tomás, o Manel e o Salvador fizeram os Modernos, ou quando Francisco, o Domingos, e outra vez o Manel, avançaram com os Bispo, não estavam a fragmentar os Capitão Fausto: estavam a resolver outro problema. Estavam, finalmente, a formar bandas. Com atrito, com um dentro e um fora mais claros. No caso dos Modernos a energia da garagem; no caso dos Bispo, um certo tecno-absurdo de algibeira. Como se o que os Capitão Fausto não permitiam — por excesso de proximidade e entendimento — tivesse de inventar outro lugar para acontecer.
Essa proximidade, esse entendimento, quero dizer: essa amizade, é o que define verdadeiramente um bando. E isso — os amigos como figura narrativa central — foi começando a impor-se nas letras do Tomás. Mais ou menos a partir de “A Invenção do Dia Claro”. Como se o sujeito narrativo tivesse deixado de falar a partir do quarto da sua adolescência, para passar a falar a partir do covil da malta.
Nisto, o caso da saída do Francisco é exemplar. Sai da banda, mas não sai do bando. E confirma a tese. Não se trata de um Vítor Rua a sair dos GNR para depois ir editar um disco sob o título PSP, por pirraça. Nada disso. É quase o contrário: sai para poder continuar. A trabalhar como desenhador e a acompanhar a carreira dos novos artistas da Cuca Monga. Não vai a lado nenhum. Muda apenas de lugar.
Fica tudo em família. Por isso é que, apesar deste caminho de consagração, o sistema não os consegue contaminar. As famílias (e os bandos) formam carapaças difíceis de penetrar. Lembram-se há uns anos quando o Marcelo, o Costa e o Ferro Rodrigues subiram ao palco do Rock in Rio para cantar a “Casinha” com os Xutos? Bem. O nosso Presidente, que não perde uma, também lá estava no Sábado passado, no Pavilhão Atlântico (esqueçam, recuso chamar-lhe outra coisa). Primeira fila da plateia, manto negro e foice na mão direita. Prontinho para dar o golpe e cortar, mais uma vez, a cabeça ao roque enrole. Mas deu-se o inverso: um bando é-lhe ilegível. Não há escalpe por onde agarrar. A coisa já ia tão vasta que o próprio Presidente da República se diluiu. O contaminado foi ele.
Por isso, no Sábado, não foi tanto algo a que se tenha assistido, quanto nos tenha sido dado fazer parte. O Tomás, o Domingos, o Manel e o Salvador não sabem sequer ser de outra maneira; é sempre de generosidade que se trata, quando se trata dos Capitão Fausto. E não foi apenas um concerto bem-sucedido. Nem sequer uma consagração no seu sentido estrito. Foi antes a demonstração de que se pode chegar onde toda a gente quer chegar sem fazer o que toda a gente faz.
Os Capitão Fausto — que já estavam juntos antes de precisarem de ser alguma coisa, que se acolheram uns aos outros antes de acolherem o mundo — algures no caminho tropeçaram numa possibilidade. E, em vez de convocarem fiéis, acolheram pessoas.
Durante esse processo, nessa espécie de desvio feliz dos acontecimentos, o sucesso — por maior que seja, tenha sido ou venha a ser — foi sempre um efeito secundário. Quase um dano colateral.
Uma coisa qualquer. Faça o bando o que fizer.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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