
Siri Hustvedt escreveu um livro que evoca a relação com o marido, Paul Auster, escritor norte-americano falecido no final de abril de 2022. Quarenta e três anos de uma convivência diária e uma ausência à qual Siri ainda se vai adaptando. Escrito em jeito de conversa – alternando entre a voz de Siri com a de Paul –, o livro pretende ser a continuidade de um casamento que assentava, sobretudo, numa constante: a de um diálogo.
Há mais de duas décadas, entrevistei Siri Hustvedt em Lisboa. Na altura, impressionaram-me a sua altura e o seu aperto de mão, muito forte. Estas duas características eram partilhadas com Paul Auster, com quem também tinha falado uns anos antes. O aperto de mão continua igual, forte, e a sua personalidade – pragmática, marcante – acompanha-o. A escritora de origem norueguesa passou pela Feira do Livro de Lisboa a propósito de Fantasmas − Um Livro de Memórias, sobre a perda e a ausência daquele que foi o seu companheiro durante 43 anos, pai da sua filha, Sophie Auster, cantora e compositora. A obra inclui notas do autor, cartas escritas por Siri a Paul no início da relação, emails dirigidos aos amigos próximos durante o período dos tratamentos, recordações do tempo juntos e as cartas de Paul escritas ao neto, Miles, e que pretendia editar em livro. A presença constante de Siri e Paul nas respetivas vidas marca, de forma ainda mais profunda, a ausência. Por isso, este livro existe como “uma necessidade e não uma escolha”, explica. A vontade de tentar lidar com a ausência física, nas rotinas; mas também o confronto intelectual que existia entre ambos, evidente na forma como comentavam e orientavam o trabalho do outro, o “nós” substituído pelo “eu” que evidencia ainda mais o desaparecimento, tanto do corpo como da mente. Fantasmas acaba por ser uma forma não só de lembrar, mas de resolver a perda. De lembrar que a morte foi um dia, mas todos os outros foram de vida.
Passaram pouco mais de dois anos desde que Paul [Auster, escritor] morreu. Como se sente hoje?
Adaptamo-nos. O que acontece é isso: adaptamo-nos. Há várias formas inconscientes de seguirmos em frente. São difíceis no início, mas depois transformam-se em hábitos. Com o tempo, acabam por se tornar aquilo que somos. Habituamo-nos a estar sozinhos. Não é melhor, mas é o que é… O choque inicial de viver sem essa pessoa no nosso campo percetivo começa a mudar e adaptamo-nos a essa ausência.
Ver o Paul morrer com aquela coragem e de uma forma muito lúcida, conseguindo enfrentar aquele momento de frente, foi um modelo para mim. Se eu souber que estou a morrer, a forma como ele o fez será sempre um exemplo
Há uma palavra constante que usa para descrever o vosso casamento, que é diálogo…
O Paul era o meu maior interlocutor e uma pessoa com quem era muito divertido falar. Não é que a situação melhore, mas ajustamo-nos ao significado de estar sozinho e de não ter mais aquela pessoa.
Por isso começou a escrever este livro duas semanas após a morte de Paul? Na obra fala sobre o desequilíbrio do tempo.
Sim, eu estava desorientada. A perda é como uma crise, uma espécie de loucura comum; é um estado muito passivo e eu sabia que precisava de agir para o contrariar. Escrever é um ato muito dinâmico. E a única coisa sobre a qual conseguia escrever era sobre nós, sobre tudo o que passámos e sobre quem era esta pessoa para mim, o que representava na minha vida. Não para o mundo, não para os académicos literários, mas para mim, a sua mulher. Isso fez-me muito bem; adorava a ideia de ter o livro para trabalhar mal acordava de manhã.
Escrever era uma forma de seguir em frente?
Seguir em frente, não tenho a certeza. Mas ajudou-me muito durante aqueles primeiros nove meses, disso não tenho dúvidas. Eu gostava da ideia de ter o manuscrito para trabalhar; se não fosse isso, não sei bem como teria voltado a organizar-me e a sentir alguma normalidade. Senti-me incapaz de regressar ao livro em que estava a trabalhar na altura, porque escrever sobre o Paul pareceu-me o mais correto.
De alguma forma, ajudou-a a lidar com a perda, com a tristeza, com a raiva, porque à medida que escrevia ia-se lembrando de tudo o que fazia parte desta relação…
Não de tudo [Risos]… Uma seleção de coisas. Como uma obra de arte, cautelosamente construída. O mais importante na escrita deste livro foi estabelecer um ritmo para o leitor, e esse ritmo era muito complexo, porque não foi construído como uma narrativa sequencial comum que nos empurra para a frente. Inclui as minhas experiências, as cartas que escrevi no início da nossa relação, as mensagens que enviei aos nossos amigos sobre a doença dele, notas que o Paul me deixou e, claro, as cartas para o Miles [filho de Sophie Auster, neto de Siri e Paul, que tinha 4 meses na altura da morte do escritor] que o Paul estava a redigir.
Mencionou o diálogo há pouco e, ao inserir estas cartas no texto, estava a recriar uma espécie de diálogo: a minha voz, a dele, a minha, a dele…
Este foi o impulso estrutural ao construir o livro, não só no diálogo de vozes, mas também de tempo, no avançar e recuar dos anos. Logo no início, falo sobre o tempo: a perda de tempo, a sua interrupção, a rutura dos rituais da nossa vida diária. Há uma espécie de fragmentação da dor que se apresenta na forma deste livro, mas há também uma linha temporal representada nesta obra.
Essa estrutura já existia antes de começar a escrever?
Não estava escrita, mas eu tinha como que uma perceção do ritmo do livro. Sabia como o arco da história iria ser desenhado, mas tudo ficou mais definido à medida que escrevia.
Alguma vez pensou que todos os que lerem o livro vão ler as cartas do Miles antes dele?
Não [Risos], mas é um pensamento curioso. Bem, na verdade, o Paul queria publicar um livro com estas cartas, que escreveu para um Miles imaginário, para uma pessoa que na realidade ainda não existe, porque o Miles tem agora pouco mais de 2 anos. As cartas foram escritas para este jovem do futuro. O Paul sabia que iria morrer em breve; tinha noção de que as probabilidades de ver esse livro publicado seriam pequenas. Ele colocou-se a si próprio no futuro ao contar pormenores da família ao Miles. Mas a intenção foi sempre a de publicar a obra antes de o neto ler as cartas.
Alguma vez pensou no peso da viuvez, considerando a forma como a nossa sociedade julga as mulheres que estão sozinhas?
Escrevi um ensaio sobre a viuvez para a Vogue britânica [abril de 2026], que depois foi republicado nas edições norte-americana e francesa. No livro há um momento em que descrevo um encontro com uma conhecida na rua; ela apresentou-me as suas condolências, eu agradeci e disse: “Agora sou viúva.” E ela reagiu: “Não, não, não.” E eu reforcei: “Claro que sou. Sou viúva. É assim que se chama.” O editor da Vogue britânica ficou muito interessado nesta ideia da “viúva”. Quando pesquisei o termo na internet para ver se a palavra “viúva” equivalia à palavra “morte”, que agora se evita – hoje ninguém morre, as pessoas desaparecem –, foi muito curioso descobrir que o termo, em inglês, oscila entre uma definição neutra que descreve o estado civil de uma pessoa e um estigma. A partir daí fiz uma pequena pesquisa – porque nunca tinha pensado bem nisso – e, além de ter lido sobre práticas associadas às viúvas um pouco por todo o mundo, encontrei este estigma sobre a viuvez feminina. Qual é o problema destas pessoas? Elas estão fora do controlo patriarcal. Ocupam uma posição perigosa, e isto pareceu-me muito interessante.
De que forma?
O poder patriarcal manifesta-se de diversas formas, mas a vontade de controlar o comportamento sexual feminino ainda é muito forte. A identidade de uma mulher cujo companheiro morreu geralmente está mais intimamente ligada à do marido falecido (ela adota, muitas vezes, o apelido dele) do que a de um viúvo à da esposa falecida. No entanto, uma viúva é legalmente livre para se casar novamente e, nesse intervalo, o perigo é que escape à autoridade masculina. Por isso, várias culturas exigem que o irmão do falecido se case com a viúva, mantendo-a na família e subordinada às suas regras. Os costumes e as leis de herança continuam a impor obediência. A Viúvas pela Paz através da Democracia é uma organização dedicada a prevenir a violência e a discriminação que afligem as viúvas ao redor do mundo. Os viúvos não precisam desta proteção.
Mas sentiu esse estigma?
Não posso dizer que o tenha sentido.
Os homens não sentem certamente esse peso.
Concordo, os homens estão numa posição diferente.
Voltando ao livro, o título esteve sempre definido desde o início? Ele surgiu daquele momento em que sentiu a presença do Paul no dia do funeral, quando estava sozinha no quarto?
É uma pergunta muito interessante [Pensa durante um momento]. Acho que o título surgiu antes disso.
Quando Paul disse que gostaria de voltar como fantasma?
Acho que não, o título simplesmente entrou-me na cabeça. E senti que era o correto. Lembro-me perfeitamente do momento: estava sentada numa cadeira e o nome surgiu. Não estava a pensar nas palavras do Paul, simplesmente veio-me à mente.
Numa entrevista conduzida por uma professora da Universidade de Columbia, fala desta experiência – de sentir a presença de uma pessoa que morreu – como algo bastante comum.
Sim, a literatura neurológica está repleta destas referências e eu sabia disso muito antes de me acontecer, porque é uma área com a qual trabalho há muito tempo. Mas nunca me tinha sucedido antes daquele momento, mesmo após a morte dos meus pais, e foi uma experiência extraordinária.
Porque estava também ligada à relação com Paul?
Sim, a minha relação com o Paul era uma experiência diária, muito presente. A ausência dele na casa era enorme, porque a sua presença também tinha sido enorme. Vivemos juntos durante 43 anos e, embora estivesse perfeitamente consciente da sua morte, não se tratou de uma ilusão cognitiva. O que acontece com o sistema neurológico é que, durante a noite, não há estímulos a entrar no nosso organismo e nós sonhamos − é uma forma de alucinação noturna. Se colocarmos qualquer pessoa num tanque de privação sensorial, ao fim de alguns minutos ela começa a ter alucinações, não só mentais, mas sensoriais, olfativas, auditivas… O que penso que aconteceu foi que a privação da presença do Paul na casa – que era constante e diária – se manifestou através do sistema nervoso de uma forma que ainda não compreendemos completamente. Lembro-me perfeitamente de o sentir, de saber onde estava e como ocupava aquele espaço. É por isso que cito William James [(1842-1910), considerado o pai da psicologia americana], porque ele descreveu perfeitamente esse fenómeno.
Como se lida com essa ausência ao fim de 43 anos?
Simplesmente acontece, não há escolha. Há pessoas que, de facto, morrem após a perda do marido ou da mulher, e há vários estudos que revelam a subida da mortalidade nessas situações. Mas quando se tem uma grande vontade de viver, e eu tenho, adaptamo-nos a essa ausência. É uma adaptação total, de corpo e mente.
Quando escreveu O Mundo Ardente [D. Quixote, maio de 2014], abordou uma artista que se faz representar por três homens para provar que a sua falta de sucesso se deve ao facto de ser mulher. No livro novo, faz também referência ao peso que, muitas vezes, as pessoas colocavam na carreira de Paul, comparando-a com a sua.
As mulheres que escrevem sobre ideias ou pensamentos não são validadas imediatamente da mesma forma que os homens. Recebem muitas críticas por serem demasiado intelectuais, demasiado cerebrais. São mais raras essas afirmações dirigidas a escritores homens.
E neste livro refere o caso de um jornal italiano, onde o título a minimizava face ao trabalho de Paul.
Sim, isso foi muito visível nesse caso que, aliás, partia de um artigo muito bom; a responsabilidade foi do editor do jornal, não do jornalista. Esse foi um exemplo entre centenas: essa desvalorização do meu trabalho face ao do Paul. Mas isso não correspondia à verdade dentro do casamento. Éramos iguais, com um respeito enorme e admiração pelo trabalho do outro. A nossa relação era uma espécie de refúgio para esse tipo de julgamento. E isto é o resultado de anos de contextos culturais e sociais ainda muito preconceituosos; basta ver a forma como Kamala Harris foi tratada durante as eleições presidenciais.
Em vários momentos da nossa sociedade…
Sim, o Trump é eleito porque assenta numa exploração da mentira que funciona numa sociedade profundamente misógina, tanto do lado das mulheres como dos homens. Foi feito um estudo em Yale que revela que, quando confrontados com a mesma descrição de um político ambicioso, homens e mulheres reagem a uma candidata mulher com sentimentos de ‘indignação moral’, mas não demonstram o mesmo em relação a um candidato homem em busca de poder. Logo, as possibilidades para uma mulher são sempre mais limitadas.
Passados dois anos, o facto de estar a fazer esta digressão por causa do lançamento do livro tem tornado difícil reviver tudo outra vez?
[Risos] Sim, começou em março, em Helsínquia, e posso dizer que estou nesta digressão com a cabeça a rebentar [Risos]. Mas está tudo bem.
Relativamente ao Miles, e agora que ele já tem mais de 2 anos, como é que mantém viva a memória do avô?
Não será muito difícil, porque, enquanto família, a Sophie, o Spencer e nós éramos muito próximos, e o Paul faz parte de todos nós. O Miles cresce com estas pessoas que lhe são muito queridas. As pessoas que estavam mais perto do Paul são também as que agora estão mais próximas do Miles, além de o avô ser, de facto, um escritor muito famoso. Será difícil que a sua presença, seja através da família ou através da carreira, não seja determinante na história do Miles. Não de uma forma imediata e viva, mas constante, sim.
A vontade de controlar o comportamento sexual feminino ainda é muito forte. A identidade de uma mulher cujo companheiro morreu geralmente está mais intimamente ligada à do marido falecido (ela adota, muitas vezes, o apelido dele) do que a de um viúvo à da esposa falecida
A morte de Paul fê-la pensar na sua própria mortalidade?
Eu já pensava nisso desde que nos conhecemos, porque era um assunto muito recorrente nas nossas conversas.
Porquê?
Porque somos mortais, faz parte da vida: nascimento, vida, morte. Enquanto escritores, estes são temas recorrentes em que pensamos com frequência. E, para mim, intelectualmente falando, o nascimento e a morte são temas incontornáveis e fundamentais: a vida humana e os mecanismos da vida, em geral. Falávamos muito sobre mortalidade, sobre quem morreria primeiro, o que faríamos… Já tínhamos os nossos talhões no cemitério comprados, acho que desde 2012. Não era um assunto que evitássemos.
Paul tinha um desejo específico: morrer a contar uma piada. Tem algum desejo específico?
Sim, ele disse isso várias vezes, mas sabíamos que iria ser difícil por causa dos tratamentos. Ainda assim, repetia-o. Eu sabia que o facto de ele estar a receber morfina não o permitiria e disse-lho.
É um pensamento muito pragmático.
Eu sou muito pragmática. E sempre fui mais do que o meu marido, mais racional também [Risos].
E por isso tem algum desejo específico relativamente à morte?
Posso dizer o seguinte: ver o Paul morrer com aquela coragem e de uma forma muito lúcida, conseguindo enfrentar aquele momento de frente, foi um modelo para mim. Se eu souber que estou a morrer, a forma como ele o fez será sempre um exemplo. Não posso dizer que tenha sido um momento pacífico, mas foi a atitude que ele tomou.
Quais são os projetos agora?
Voltar ao livro que deixei quando ele adoeceu e cumprir várias conferências programadas. Vou dar uma em Espanha sobre Humanidade e Ciências e como podemos interligá-las ainda mais, e outra sobre epistemologia – como sabemos o que sabemos e como o fazemos –, ambas em Espanha. Depois irei também à Alemanha. E em novembro vou ao Peru para dar uma conferência sobre os 100 anos de Um Quarto que Seja Seu, de Virginia Woolf.
E o livro que interrompeu é uma obra de não ficção?
É um romance político. E agora tudo mudou, porque quando deixei de o escrever ainda não se imaginava a atual situação política, pois foi antes das eleições. O governo protofascista que temos… A segunda metade do livro, que faltava escrever, terá necessariamente de mudar devido ao resultado das últimas eleições. Comecei a escrevê-lo em 2022, antes de se imaginar que o Trump voltaria a ser Presidente.