Há quem seja fecundador por natureza. Aqueles a quem ouvimos – ou lemos, tanto faz – e semeiam esplendores de buganvílias pelas paredes brancas, cuidadosamente caiadas, da nossa consciência. As suas palavras têm o poder de despertar emoções e estados de espírito a quem as lê ou ouve – de os trazer à luz – e então dá-se o tal milagre, da fecundação, neste caso, não do óvulo pelo espermatozoide, mas das ideias e das emoções que se encontram, misturam, entrelaçam, e dão origem a uma nova ideia, uma emoção distinta, mas indistintamente ligada e ancorada às que lhe deram origem.
Evidentemente, este comércio de palavras, este tráfico desmesurado de sentires e pensares, não é bem-visto por toda a gente. Muitos se assustam com esta espantosa promiscuidade e acham, de dentro das suas clausuras intelectuais, que as palavras, por nos saírem da boca ou das mãos, são, elas também, partes do nosso corpo e, desta forma, sujeitas a todas as regras cívicas que a nossa sociedade atribui à propriedade privada. São aqueles que, de olho sempre atento e dedo em riste, se apressam a gritar, indignados: Mas esta ideia é minha! Olha o que lhe fizeste… Eclipsou-se! Está horrível!
E não vale a pena argumentar que não, que embora se pareçam, não são as mesmas, mas outras, inventadas na germinação e na ruminação daquilo que sentimos ao ouvir esta ou aquela música que nos entrou no ouvido, que nos beijou a boca da alma numa sensação de continuidade e entendimento, e despertou em nós um cristal puríssimo de comunhão nunca antes sentido. Aliás, muitos estranham estas divagações idiotas, demasiado líricas e futilmente sentimentais, acerca dos possíveis relacionamentos amorosos entre as palavras. Deves andar a ver telenovelas a mais, ou Passaste-te dos carretos!, exclamam, enquanto sacodem o pó dos ombros, com esmero e determinação, como se ele, o pó, representasse toda essa afetividade mundana que tão soberbamente desprezam.
Até porque, perguntam-se, O que pode mover alguém que se deslumbra tão facilmente?; com certeza inveja, pois claro, e cada vez erguem mais muros em redor daquilo que temem ver invadido, receosos de que um bando de malfeitores sentimentais lhes entre pela casa dentro e derrube neles os alicerces da identidade. São as mesmas pessoas que se interrogam, com espanto, porque nunca se cansam os bebés de brincar horas a fio com o mesmo brinquedo, ou de o atirar constantemente para longe e ficar à espera de que alguém lho devolva; ou por que diabo os poetas, essa raça de gente esquisita, perdem tanto tempo a observar uma pedra, ou a ouvir o mar, ou a conversar com as estrelas.
Quando lhes calha cruzarem-se na rua, por acaso, com uma ideia que reconhecem ser da sua autoria, aí, sim, perdem a compostura. Descalçam o sapato e vociferam impropérios: O que é que andas a fazer na rua a estas horas? Não te disse já que te quero em casa? Que não te quero com más companhias? Já p’ra casa!, enfim, fazem um escândalo. E se, apesar do raspanete, a ideia se dissemina à revelia, por becos e ruelas sombrios, e vem à tona no meio de vozes alheias ou das páginas cheias de letras que diariamente lhes circulam pelas mãos, empalidecem e voltam a ser as crianças mimadas e birrentas que já foram, a cara a arder de fúria: Não pode ser, esta ideia é minha! Fui eu que a tive primeiro! São as minhas palavras, eu bem sabia, roubaram-mas! Fui eu que as inventei!
Em princípio, todos concordamos que temos muito pouca afinidade com o reino vegetal, mas, quando nos convém, lá nos servimos da metáfora da sementinha do pai que entra na barriga da mãe, para assim explicar às criancinhas a nossa prodigiosa capacidade reprodutiva numa linguagem ao mesmo tempo acessível e adequada ao imaginário infantil. Pois bem, devíamos aprender a lição e entender que, ao contrário do que à primeira vista possa parecer, temos mais em comum com as árvores e as plantas do que seria esperado, mesmo sem raízes a sair-nos dos pés e apenas dois braços em vez de ramos. É que, se pensarmos bem, são elas que purificam o ar e tornam possível o milagre de existirmos; são elas que guardam o mistério da seiva que nos liga à terra e transporta pelo vento, quando chega a hora de voar a semente que nos fará nascer de novo. E agora imaginem um desses gigantes da sabedoria, de cabelos verdes e braços poderosos como barcos imensos, a insultar o exemplar mais próximo e evidentemente mais moço, as raízes torcendo-se de indignação debaixo da terra: Ei, tu aí! Essa folha aí, sim, essa mesmo, essa verdinha e tenrinha como uma alface, é minha! O que estás a fazer com ela? Estava aqui no meu ramo, é minha! Devolve-ma já, antes que te espete uma braçada nas ventas!
Não, as palavras não nos pertencem, muito menos uma língua inteira. Elas apenas semeiam em nós aquilo que de nós as acolheu no regaço e, como um ventre grávido, deu à luz – à palavra – outro significado, o nosso, sempre novo e inigualável. Mas, depois, voam-nos das mãos e da boca, para fecundar outros mundos e, quiçá, outros universos – porque, felizmente, há sempre muitos mais mundos para lá do nosso.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.