Começo por alguns exemplos: o executivo que vai para o escritório de t-shirt branca, tomando informalidade por auto-expressão; o casal que vive como se fosse casado, sem ser, para não ter de responder pelo que consuma; o turista que se comporta como arquitecto, convencido de que, em cada viagem, desenha fundações numa planta de implantação, quando apenas percorre pontos num mapa.
Há qualquer coisa de falsamente libertador nestas incoerências. Como se o gesto desmentisse o seu fundamento.
É como nos comportássemos como se as coisas não fossem exactamente aquilo que são. Como se, tropeçando num desses fios que ligam a maquinaria do mundo, uma anomalia se desse, e as expressões deixassem de dizer o que significam. E os vínculos, disfarces de si mesmos, não correspondessem a um módico de consistência.
Muito se tem entretido este nosso lado do mundo a inventar raízes portáteis, provocando cortes de corrente no circuito que une a essência ao acto, o ser à aparência.
Ocorreu-me isto ainda ontem, enquanto saíamos do Estádio Universitário. O Sebastião contava-me coisas sobre o seu dia e eu, por pura maldade paternal, respondia-lhe sempre com um ponto de interrogação.
Ele: — “O treino correu muito bem, pai!”
Eu: — “O treino correu muito bem, pai?”
Ele: — “Pare com isso, pai!”
Eu: — “Pare com isso, pai?”
O Sebastião não se irritou — nem tem autorização para isso —, mas ficou pensativo, sobrolho franzido, um pequeno Raskolnikovezinho, a intuir que o mundo não bate certo. Concentrou-se, como as crianças se concentram; como se Deus tivesse escondido a verdade num pacote de cereais. Pelo semblante semi-fechado percebia-se que tinha topado a discrepância: as minhas interrogações condenavam as suas frases ao exílio, deixando-as a pairar na brisa onde as convicções morrem.
Em 2016, num texto da Spectator, o bom Scruton escreveu sobre estas divergências na linguagem; sobre o modo como acrescentamos pontos de interrogação a cada frase que dizemos, fazendo delas estruturas efémeras. Como se fôssemos autores relutantes do nosso próprio discurso. É que Scruton compreendia, como poucos, que o nosso tempo receia mais as certezas do que as mentiras.
Eis o que quero dizer: já ninguém arrisca dizer nada com propriedade.
Quando os miúdos disparam “tipo” ou “sei lá”, o que está em causa — acrescentava o inglês — é a manutenção de uma postura neutra. A limitação da responsabilidade do que se diz: mais do que para não ofender, para não ser tomado como ofensivo (está sempre mais em jogo a sinalização da própria virtude do que a perseveração do bem-estar alheio).
Por exemplo: um insular vive numa ilha; é evidente. Mas se disser que vive, “tipo”, “sei lá”, numa ilha? Não é bem como se vivesse, não é bem como se fosse uma ilha. E ninguém se melindra. Nem os ilhéus, nem os vivos (nem as professoras de Geografia). Já o autor da frase consegue deixar de viver para passar a pairar. A flutuar sobre a realidade, numa nova forma de virtude que consiste em desistir de procurar a verdade.
Os adultos fazem parecido, mas com outro vocabulário. Refugiam-se em locuções de atenuação: “parece-me que”, “eu acho” — um achismo tem sempre lugar porque nunca reivindica para si a autoridade de uma tese. Nunca se ouviria um político discursar: — “Eu acho que isto tem de mudar.” Diria que tem de mudar. Mas o discurso político está em desuso. E o nosso cinismo não tolera convicções, apenas opinião e comentário oblíquo.
É como se o pânico que temos em fazer má figura pela possibilidade de estarmos errados (ou pior, de estarmos certos) nos tivesse feito flutuar para longe daquilo que é sólido. Ora, e apesar de toda a profecia e ciência em contrário, o mundo vai continuando firme debaixo dos nossos pés. Nós é que já nem no mundo acreditamos; nós é que nos vamos evaporando.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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