Quando surgiu pela primeira vez na banca, em março de 1993, como sucedânea do semanário O Jornal, muitos vaticinaram uma vida curta à VISÃO. Por uma razão simples: em Portugal, até esse momento, todas as experiências anteriores de revistas de informação geral tinham fracassado ao fim de pouco tempo, e parecia ser quase consensual que uma newsmagazine, ao estilo das melhores publicações internacionais, jamais vingaria num país habituado unicamente a jornais. Afinal, já passaram 33 anos, mais de 1750 semanas, muitas delas com edições especiais pelo meio, sempre que a atualidade o exigiu, bem como uma série de outras publicações que, até há bem pouco tempo, alargaram o universo da revista e o seu núcleo de leitores. E por causa deste historial, bem como do trabalho, do empenho e da dedicação de todos aqueles que, ao longo de mais de três décadas, passaram pela nossa redação, a VISÃO foi agora distinguida com o Prémio Património Editorial, atribuído pela Associação Portuguesa de Imprensa.
Esta é uma distinção que, naturalmente, nos enche de orgulho. Ainda para mais por ocorrer nesta fase difícil e conturbada em que temos vivido. Há mais de um ano que a VISÃO é feita em teletrabalho, por um grupo pequeno de jornalistas e a colaboração inexcedível de um contingente cada vez mais alargado e entusiasmado de pessoas que se oferecem para colaborar connosco, sem outro interesse que não seja o de ajudar a preservar um título que sempre se afirmou pelo seu jornalismo livre e independente, em busca do rigor e da qualidade.
Nestes últimos longos meses, aprendemos uma lição: a VISÃO é uma revista de jornalistas, mas é sobretudo uma revista alicerçada no apoio dos seus leitores – a nossa primeiríssima fonte de receitas e a razão da nossa existência.
Quando às vezes nos perguntam, com um misto de incredulidade e de devaneio conspirativo, como é que tem sido possível a VISÃO continuar a ser publicada – mesmo depois de termos deixado de ter uma redação física, de termos sido todos incluídos num despedimento coletivo e de, por todo o lado, se acumularem sinais de crise na imprensa –, a nossa resposta é aritmeticamente simples: há leitores suficientes que compram a revista. Leitores que não desistem de pagar por uma informação de qualidade. E, ainda por cima, leitores que, quando lhes propusemos juntarem-se a nós para nos ajudar a comprar o título num leilão que, então, parecia iminente, responderam de forma avassaladora: em menos de dez dias, alcançámos a meta dos 200 mil euros (que continua a crescer, desde então).
No entanto, se nada for feito, a publicação da VISÃO corre o sério risco de ser suspensa, dentro de cinco ou seis semanas. E o mais preocupante é que se isso acontecer não será por falta de leitores nem por dificuldades económicas. A responsabilidade será de um processo judicial de insolvência absolutamente labiríntico, repleto de reviravoltas, de surpresas permanentes e que se prepara para ter um desfecho que, embora possa ser juridicamente aceitável, se transforma, na prática, num atentado a um título já histórico da imprensa portuguesa e até à democracia: entregar novamente a gestão ao anterior proprietário, para que este cumpra um plano antigo, agora impraticável numa empresa sem funcionários nem possibilidade de receitas.
Este é um desfecho irresponsável, inconsequente e desumano. Por aquilo que nos é dado saber, só há duas formas de o evitar. Uma é o proprietário declarar ao tribunal que não está obviamente em condições de avançar com o plano de recuperação e, dessa forma, o processo de insolvência poder desenrolar-se como o planeado inicialmente, com a venda dos títulos em leilão. Outra é o Estado deixar de olhar para este processo com o seu distanciamento burocrático habitual, como se não tivesse nada a ver com o futuro de um título histórico e prestigiado como a VISÃO. A verdade é esta: a Autoridade Tributária e a Segurança Social, os dois maiores credores, sabem que o plano nunca será executado e que entrará em incumprimento, de forma imediata. Para que serve, então, prolongar uma agonia que, ainda por cima, implicará a interrupção da publicação da VISÃO?
Com o mesmo empenho com que temos assegurado a continuidade da VISÃO, vamos também lutar, nas próximas semanas, por uma solução que evite este atentado. Pedimos, como temos feito, aos leitores, mas também à sociedade e ao Estado, que “não fechem os olhos” às ameaças que se acumulam sobre a imprensa livre e independente – às vezes de forma direta, outras através da asfixia processual, como é este caso. Da nossa parte, resistir continuará a ser sempre a nossa primeira e última opção. Aconteça o que acontecer.