Há qualquer coisa de paradoxal nos tempos que vivemos. Desafiamos os jovens a serem criativos, inovadores e capazes de imaginar soluções para problemas reais. Depois, antes mesmo de começarem a pensar, entregamos-lhes uma lista das ferramentas que estão proibidos de utilizar.
O desafio “Reinventa o Código”, promovido pela Brisa, convida jovens dos 17 anos e meio aos 22 anos a apresentar ideias para tornar o ensino da condução mais eficiente, prático e orientado para uma condução consciente. A iniciativa é interessante e merece reconhecimento: ouvir os jovens sobre a forma como aprendem a conduzir é, por si só, uma boa ideia. O que merece reflexão é uma das regras anunciadas: não serão aceites propostas cujos conteúdos tenham sido gerados, total ou parcialmente, através de ferramentas de Inteligência Artificial.
Percebo a intenção. Pretende-se avaliar a criatividade genuína dos participantes e evitar que alguém peça a uma máquina: “Dá-me uma ideia para ganhar este concurso.” Isso seria intelectualmente pobre. Mas será que utilizar Inteligência Artificial significa necessariamente deixar de pensar?
Eu diria precisamente o contrário.
Uma ideia pode nascer inteiramente na cabeça de um jovem e ser depois confrontada com uma IA: “Encontras falhas nisto?”, “Já existe algo semelhante?”, “Que riscos não considerei?”, “Como poderia testar esta solução?”, “Que argumentos existem contra a minha proposta?”. Neste caso, quem criou a ideia? O jovem. Quem tomou as decisões? O jovem. Quem avaliou as respostas e decidiu o que aproveitar ou rejeitar? Novamente, o jovem.
A Inteligência Artificial foi apenas uma ferramenta de confronto intelectual.
E talvez seja precisamente isso que devamos ensinar às novas gerações: não a fugir da IA, nem a entregar-lhe o pensamento, mas a pensar melhor com ela sem deixar que ela pense por nós.
Também há uma curiosa ironia neste caso. Estamos a falar de reinventar o ensino da condução numa época em que os próprios automóveis já recorrem intensamente a software, sensores, visão computacional, sistemas avançados de assistência à condução e, no limite tecnológico, condução autónoma. Aceitamos que algoritmos reconheçam sinais, detetem obstáculos ou intervenham sobre um veículo, mas desconfiamos deles quando um jovem os utiliza para testar intelectualmente uma ideia sobre mobilidade.
Se eu tivesse hoje 18 ou 20 anos e participasse neste desafio, começaria por pensar por mim. Mas depois colocaria a minha ideia à prova. Perguntaria à IA onde estavam as fragilidades, procuraria legislação, estudos sobre sinistralidade, comportamento humano e novas tecnologias. Talvez imaginasse um ensino de condução com simuladores inteligentes capazes de recriar chuva, nevoeiro, fadiga, peões inesperados ou situações de emergência; uma plataforma que analisasse os erros mais frequentes do aluno sem substituir o instrutor; ou um sistema que ensinasse não apenas a passar num exame, mas a antecipar o risco.
E há uma questão ainda mais profunda. De que serve premiarmos uma ideia brilhante se não ensinarmos o jovem a adquirir o conhecimento necessário para a compreender, defender e concretizar? Criatividade sem conhecimento pode produzir uma boa apresentação. Conhecimento sem criatividade pode produzir conformismo. O verdadeiro progresso nasce quando conseguimos juntar ambos.
Os grandes inventores da História utilizaram as ferramentas disponíveis no seu tempo. Livros, laboratórios, instrumentos de medição, calculadoras, computadores e Internet ampliaram sucessivamente aquilo que o ser humano conseguia descobrir. Ninguém defenderia hoje que consultar uma biblioteca retira autoria a uma ideia.
A Inteligência Artificial obriga-nos, evidentemente, a estabelecer limites. Deve existir transparência. Deve ser possível distinguir auxílio de substituição. Num concurso de ideias, faria até sentido exigir que cada participante explicasse como utilizou a IA, que perguntas colocou, que sugestões rejeitou e porquê. Isso avaliaria algo muito mais interessante do que a simples proibição: pensamento crítico.
Talvez o desafio do nosso tempo não seja descobrir como impedir os jovens de utilizar Inteligência Artificial. Talvez seja ensiná-los a utilizá-la sem perderem aquilo que nenhuma tecnologia lhes deve retirar: curiosidade, conhecimento, responsabilidade, capacidade crítica e autoria.
Caso contrário, arriscamo-nos a construir um estranho mundo do faz-de-conta: pedimos aos jovens que reinventem o futuro, mas exigimos que façam de conta que as ferramentas desse futuro ainda não existem.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.