A VISÃO recebeu esta sexta-feira o prémio de Património Editorial da Associação Portuguesa de Imprensa. No discurso da entrega da distinção, o diretor da revista, Rui Tavares Guedes, em representação do grupo de jornalistas que continua a garantir a sua publicação, sublinhou que tinham razão quando, há mais de um ano, “decidiram avançar na defesa da VISÃO, contra todos os avisos e prognósticos, insistindo em manter a revista viva, mesmo quando tudo desmoronava à nossa volta”.
“Nos momentos mais complexos e difíceis, a palavra desistir nunca fez parte dos nossos planos. O nosso verbo é outro: resistir. E resistimos unidos numa ideia central: a VISÃO não podia morrer, o património editorial que a VISÃO representa tinha de continuar vivo”, continuou Rui Tavares Guedes, explicando que a escolha foi “trabalhar para aqueles que nos leem, em qualquer plataforma, mas trabalhar, acima de tudo, para aqueles que mais valorizam o nosso trabalho, de forma desinteressada, mas sempre ativa e exigente: aqueles que nos compram, aqueles que são capazes de calcorrear ruas em busca de uma banca aberta, aqueles que reclamam imediatamente quando não conseguem abrir a edição digital, aqueles que, através de emails e outras formas de comunicação, nos foram incentivando a não desistir, e aqueles que orgulhosamente nos dizem que voltaram a comprar a VISÃO e que a sentem melhor que nunca.”
Lembrando a forma avassaladora como os leitores se juntaram a nós para ajudar a comprar o título num leilão que, então, parecia iminente, através de um crowdfunding (em menos de 10 dias, alcançámos a meta dos 200 mil euros e o montante continua a crescer), o diretor da VISÃO partilhou a inquietação com o momento que vivemos: o património editorial da VISÃO está em risco e pode mesmo desaparecer, em breve, não por falta de leitores nem dificuldades económicas, mas na sequência “de um processo judicial de insolvência absolutamente labiríntico, repleto de reviravoltas e de surpresas permanentes“.
“Uma empresa de comunicação social, com 16 revistas, entrou em insolvência. O acionista apresentou um plano de recuperação, que foi aprovado pela maioria dos credores, mas que acabou por não ser homologado pelo tribunal. Foi decretado fim da atividade da empresa. Todos os trabalhadores foram objeto de um despedimento coletivo e os moveis e computadores foram vendidos. Quando se preparava a venda dos títulos – com a VISÃO a ser o único em atividade, por requerimento deste grupo de jornalistas, aprovado pela maioria dos credores – o Supremo Tribunal de Justiça decretou que o plano de recuperação deveria, afinal… ter sido homologado. Dando cumprimento a essa decisão, o tribunal competente quer encerrar agora o processo de insolvência e entregar novamente a empresa ao proprietário para que este execute o plano – mas agora sem funcionários nem títulos ativos e, muito menos, possibilidade de receitas”, resumiu.
A comparação ajuda a perceber: “É como se tivéssemos uma frota de 16 veículos em que, há mais de um ano, 15 ficaram imobilizados e abandonados, como sucata. Apenas um, a VISÃO, continua a fazer as suas viagens – transportando até mais passageiros, embora seja um veículo mais pequeno e muito mais económico. Agora, o cenário que podemos enfrentar é este: o veículo da VISÃO será esvaziado de pessoas e atirado, a toda a velocidade, contra um muro de betão — para ficar sucata, e ser vendido aos pedaços, como os outros, daqui a uns meses ou anos.”
E este é o cenário que pode ocorrer dentro de poucas semanas, um desfecho que Rui Tavares Guedes classifica como “irresponsável, inconsequente e desumano“.
“Por aquilo que nos é dado saber, só há duas formas de evitar esse atentado”, continuou: “Uma, é o proprietário declarar ao tribunal que não está obviamente em condições de avançar com o plano de recuperação e, dessa forma, o processo de insolvência poder desenrolar-se como o planeado inicialmente, com a venda dos títulos em leilão. Outra, é o Estado deixar de olhar para este processo com o seu distanciamento burocrático habitual, como se não tivesse nada a ver com o futuro de um título histórico e prestigiado como a VISÃO.”
“A verdade é esta: a Autoridade Tributária e a Segurança Social, os dois maiores credores, sabem que o plano nunca será executado e que entrará em incumprimento, de forma imediata. Para que serve, então, aceitar que se dê esse passo – que determinará, na prática, a interrupção da publicação da VISÃO… até que o título possa finalmente ser vendido – sabe-se lá quando?”, questionou, antes de relembrar o mote do crowdfunding: “Não Fechem os Olhos”. “Esse continua a ser o nosso lema e o nosso pedido a todos os leitores, mas também à sociedade e ao Estado: Não fechem os olhos às ameaças que se acumulam sobre a imprensa livre e independente – às vezes de forma direta, outras através de uma asfixia processual, como é este caso”, garantiu.