Há uma velha história, O Rato que Ruge, que nos conta como um pequeno país decide declarar guerra à maior potência mundial, na expectativa de que a derrota lhe traga benefícios. A comédia está no absurdo da estratégia. Mas talvez o absurdo não esteja assim tão distante da realidade.
Os ataques dos hutis ao aeroporto de Riade, na Arábia Saudita, vieram recordar-nos que a dimensão de um ator não determina, necessariamente, a dimensão do impacto que consegue produzir. Um movimento instalado num país devastado pela guerra consegue atingir infraestruturas estratégicas de uma das economias mais poderosas do Médio Oriente, perturbar a aviação, abalar a confiança e obrigar outros Estados a ponderar o seu envolvimento. O conflito deixa de caber nas fronteiras do Iémen e passa a convocar interesses regionais e mundiais.
Como é que o rato consegue fazer rugir o leão?
Talvez tenhamos passado demasiado tempo a confundir poder com dimensão. Medimos a força dos Estados pelo investimento militar, pelo produto interno bruto, pela tecnologia ou pela capacidade de projetar influência. E, no entanto, continuamos a assistir a situações em que atores com recursos incomparavelmente menores conseguem perturbar os planos dos mais poderosos. Não porque sejam mais fortes, mas porque descobriram que não precisam de o ser.
Basta-lhes identificar as vulnerabilidades de quem têm pela frente.
Um míssil não precisa de destruir uma economia para a perturbar. Um ataque não precisa de vencer uma guerra para alterar as prioridades de um governo. Às vezes, basta atingir o lugar certo, no momento certo, para obrigar o adversário a gastar recursos, rever estratégias, mobilizar aliados e justificar decisões perante os seus cidadãos.
É aqui que a assimetria se transforma em poder político. Enquanto um Estado investe fortunas na defesa do seu território, o adversário pode obrigá-lo a multiplicar esse investimento. Enquanto um governo procura transmitir segurança e estabilidade, o outro pode explorar cada falha para expor os limites dessa promessa. O custo não se mede apenas nos danos provocados, mas também nas respostas que se tornam necessárias.
O rato não precisa de derrotar o leão. Precisa de o obrigar a reagir.
E reagir tem custos. Se o leão não responder, arrisca-se a parecer vulnerável. Se responder com força, pode prolongar o conflito, alimentar a mobilização do adversário e arrastar outros atores para uma guerra que ninguém sabe exatamente como terminará. Se pedir ajuda, revela que a sua capacidade de resposta não é suficiente para garantir, sozinho, a segurança que prometeu.
Não há, contudo, qualquer romantismo nesta estratégia. A vulnerabilidade dos poderosos não transforma automaticamente os mais pequenos em heróis, nem a capacidade de desafiar uma ordem torna legítimos os meios utilizados. Quando os alvos são infraestruturas civis e as vítimas são pessoas que apenas procuram chegar ao seu destino, a guerra deixa de ser uma abstração estratégica. Tem rostos, vidas interrompidas e consequências que não cabem nos cálculos de quem a conduz.
Importa, por isso, olhar para o tabuleiro inteiro.
Os hutis têm objetivos próprios, mas a sua ação cruza-se com a rivalidade entre a Arábia Saudita e o Irão, com a disputa pela influência no Médio Oriente e com a importância estratégica das rotas marítimas que ligam continentes e mercados. O que acontece no Iémen pode repercutir-se no preço da energia, no comércio internacional e nas decisões de países que, à primeira vista, estariam longe daquele conflito.
É assim que um ator local consegue adquirir uma dimensão global: não precisa de controlar o mundo, basta-lhe atuar num ponto de que o mundo depende.
Mas há uma pergunta que não devemos ignorar. Estarão os hutis a manipular o tabuleiro ou estarão também a ser instrumentalizados por forças que procuram alargar a sua influência?
Talvez este seja o aspeto mais inquietante da geopolítica contemporânea: a distância entre provocar o caos e conseguir governar as suas consequências.
O poder de perturbar não é o poder de construir.
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