Lembro-me do primeiro regresso a uma casa onde já não estava ninguém à minha espera. Fechei a porta, pousei as chaves e fiquei um momento parado, à escuta de uma voz que não veio, porque durante anos aquela hora tinha sido preenchida por perguntas sobre o dia e por pequenas decisões tomadas sem darmos por isso. Quando um casamento termina fala-se muito da separação dos filhos, das dificuldades financeiras e da mudança de casa, mas fala-se pouco deste instante aparentemente banal em que percebemos a dimensão da estrutura invisível que uma família constrói à nossa volta, feita de rotinas, conversas, refeições e da simples certeza de que existe alguém do outro lado, e só lhe damos valor quando desaparece.
Quando me divorciei, as minhas filhas continuaram a viver com a mãe e eu saí de casa, e a minha vida passou a ter uma configuração que nunca tinha conhecido. No início houve uma sensação de liberdade e seria desonesto negá-lo, porque podia organizar os dias como entendesse, jantar à hora que me apetecesse, sair sem conciliar horários e viajar sem explicar demasiado as minhas decisões, descobrindo uma autonomia que a vida familiar tinha deixado em suspenso durante anos. Com o tempo percebi, no entanto, que liberdade e solidão podem ocupar exatamente o mesmo espaço, e que é possível gostar de ter o tempo todo para nós e sentir ao mesmo tempo a falta de alguém com quem o partilhar. Foi a primeira de muitas contradições que tive de aprender a aceitar.
A experiência tornou-se ainda mais evidente nos anos em que trabalhei como expatriado. Viver longe de Portugal durante longos períodos era muito mais do que habitar outro país, era estar afastado da família, dos amigos, dos lugares conhecidos e daquela rede de pequenas relações que damos por garantida, e durante o dia nada disso parecia fazer falta, porque havia colegas, reuniões, almoços e horas de conversa. O silêncio esperava-me à porta do apartamento, e foi aí que compreendi que o que mais pesa não é a ausência de pessoas, mas a ausência de alguém com quem partilhar aquilo que nem chega a justificar um telefonema, uma boa notícia, uma preocupação pequena, uma situação engraçada que nos aconteceu pelo caminho, qualquer coisa que nos apetece contar apenas porque sabemos que alguém vai querer ouvi-la.
Penso que é aqui que reside uma das maiores dificuldades de muitos homens perante a solidão. Fomos educados para resolver problemas, de modo que quando alguma coisa corre mal trabalhamos mais, quando falta dinheiro fazemos contas e quando a vida exige uma decisão tomamo-la, mas a solidão não é uma avaria que se conserte nem desaparece depois de uma boa decisão. Obriga-nos a permanecer algum tempo diante daquilo que sentimos, e a muitos de nós ninguém ensinou a fazê-lo. Foi por isso que durante algum tempo tentei ocupar esse espaço com aquilo que conhecia melhor, o trabalho, as viagens, as novas relações, os livros, a música e a televisão, tudo o que pudesse manter os dias cheios. Nada disso tinha mal em si, mas percebi que também servia para fugir ao silêncio, porque enquanto estamos ocupados não temos de pensar demasiado, e chegou um dia em que consegui encher todas as horas sem tocar naquilo que me faltava.
Foi então que comecei a compreender que estar sozinho não é apenas aprender a ocupar o tempo, é aprender a ficar connosco quando já ninguém nos pede nada. No início esse silêncio foi incómodo, quase hostil, porque quando o ruído acaba começam a surgir as perguntas que fomos adiando durante anos, e há uma estranheza particular em ouvirmos a nossa própria voz por dentro sem ninguém a quem responder. Aos poucos, porém, aquilo que me parecera um vazio foi-se tornando um lugar de onde podia olhar a minha vida à distância. Algumas ambições que durante anos me pareceram enormes perderam importância quando deixaram de estar rodeadas pela urgência permanente do trabalho, algumas preocupações encolheram, algumas pessoas ganharam um peso que eu não tinha percebido e algumas relações revelaram-se menos profundas do que imaginava. A solidão obrigou-me a separar aquilo de que realmente precisava daquilo a que simplesmente me tinha habituado, e essa é das coisas mais difíceis de descobrir, porque muitas vezes não sabemos se queremos alguma coisa ou se apenas nos habituámos a viver assim.
Isto mudou também a forma como olho para as relações. Quando passamos muito tempo sozinhos deixamos de procurar alguém que venha preencher um vazio, e percebemos que uma companheira, um amigo ou a própria família não devem carregar a responsabilidade de nos salvar da solidão, porque uma relação não deveria nascer do medo de ficar só, mas da vontade de partilhar uma vida que já aprendemos, pelo menos em parte, a viver. Descobri igualmente o quanto as amizades importam e o quanto as descuidamos. Muitos homens têm amigos para jantar, para o desporto ou para umas horas de conversa, e nada disso garante intimidade, de modo que quando uma relação termina e percebemos que a companheira era também a única pessoa com quem dividíamos as preocupações mais fundas, a solidão revela-se muito maior do que julgávamos. Talvez devêssemos cuidar das amizades com a mesma atenção que dedicamos ao trabalho e à família, não para vivermos permanentemente acompanhados, mas porque ninguém deveria chegar a certa idade sem ter alguém a quem telefonar quando precisa de falar.
Hoje, aos 60 anos, já não vejo a solidão como a via no início, e a melhor prova disso é que, tendo agora uma companheira, continuo a precisar de momentos só meus, o que poderia parecer uma contradição e já não é para mim. Quando fico sozinho durante algumas horas consigo ouvir-me com uma calma que a presença de outra pessoa, por mais amada que seja, dificilmente permite, porque ao lado de alguém estamos sempre, ainda que com ternura, a corresponder, a antecipar e a ajustar. Esses momentos não são uma fuga a ela nem uma falha da relação, são o tempo em que escuto o meu eu sem pressa e sem plateia, e é dessa escuta tranquila que regresso mais inteiro para a partilhar. O silêncio que antes me surpreendeu ao fechar a porta é agora um silêncio que procuro de propósito, e que já não me assusta porque aprendi o que tem para me dizer.
Por isso já não confundo independência com não precisar de ninguém. A verdadeira independência talvez seja conseguir estar sozinho sem nos perdermos de nós próprios e perceber que precisar de momentos de solidão e precisar de quem amamos não são necessidades que se excluam, antes se completam, porque só consigo dar o melhor de mim a quem está comigo depois de me ter escutado. É muito diferente de acreditar que somos autossuficientes.
Talvez os homens precisem de falar mais sobre isto, não para transformar a solidão numa doença nem para a erguer à condição de virtude, mas para admitirem que muitos de nós nunca aprendemos a lidar com ela. Foi preciso estar longe para perceber o valor de estar perto, perder algumas certezas para compreender o que realmente queria conservar e aprender a estar sozinho para descobrir que, mesmo acompanhado, continuo a precisar de quem sou quando ninguém me pede nada. Talvez, afinal, os homens não precisem de aprender a viver sem os outros, mas apenas de se conhecerem o suficiente para que, quando alguém entra na sua vida, essa pessoa venha partilhar um espaço que já existe.
Se há uma coisa que gostaria que os homens da minha idade soubessem, é que não há fraqueza em fechar a porta durante algumas horas para ficar a sós com aquilo que sentimos, desde que depois se volte a abri-la.
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