Pelo início da década de noventa do século passado, veio parar às minhas mãos a edição portuguesa do livro Festas de Loucos e Carnavais de Jacques Heers (Lisboa, D. Quixote, 1987). Para mim este livro foi um verdadeiro “balde de água fria”. Com a leitura escorreita deste texto, embrenhei-me numa obra onde não encontrava um trabalho feito com base nas típicas definições de historiografia.
Festas de Loucos e Carnavais tanto era um livro sobre História das Mentalidades, sobre aspetos de cultura e de sociedade, como de ideias ou, para meu espanto, era também um excecional livro de História das Religiões.
Com esta obra de Heers, percebi que uma visão compartimentada da História pode ser mais confortável, pode ajudar-nos a criar e a definir melhor as ideias e os conceitos, mas faz-nos perder parte do essencial.
É que, tal como o Carnaval, toda e qualquer atividade humana não se esgota numa das vertentes com que catalogámos a nossa vida nos dois últimos séculos. Não há social sem religioso, não há ideias sem cultura, tal como não há mentalidades sem política e normas que nos organizem.
E nesta transversalidade que é a imagem da complexidade que Edgar Morin tão bem trabalha, não deixo de frequentemente me lembrar do meu espanto quando há uns anos, cantava eu num coro em Lisboa, o saudoso Coral Paradoxal, e me colocaram nas mãos uma pauta que indicava que o poema era de…. Niccoló Machiavelli! Mas mais, o poema era sobre o Carnaval!
De facto, com música de Alessandro Cappinus, lá lançámos mãos à obra que fora escrita para o carnaval veneziano de 1502. De’ diavoli iscacciati di cielo era a obra que me apaixonaria e me faria recriar uma outra figura por trás do autor d’O Princípe.
E como era, e é, bastante atual, este poema ainda num dialeto arcaico do que hoje chamamos italiano. O título indica-nos que nestes dias os demónios foram empurrados, soltos, do céu. Vieram até nós, que já não somos “beati”.
O caos da quadra era vivido mas, ao mesmo tempo, cantado como algo negativo. Era negativo, mas vivia-se. A Quaresma que no dia seguinte se abria implicava já muita mortificação, jejuns, confissões e medos. Afinal, quando se começa a festejar fortemente o Carnaval deve ter sido pela época em que o Purgatório, os Anos Santos e toda a restante panóplia de espartilhos se consolidaram no mundo cristão, isto é, pelos séculos XI a XIII.
Terminada que está esta quadra, aqui ficam dois poemas de Maquiavel, ambos feitos para o Carnaval.
De' diavoli iscacciati di cielo Già fummo, or non siam più, spirti beati; per la superbia nostra siàno stati dal ciel tutti scacciati; E in questa città vostra abbiàn preso il governo, perché qui si dimostra confusion, dolor più che in inferno. E fame e guerra e sangue e diaccio e foco, sopra ciascun mortale, abbiàn messo nel mondo a poco a poco; E ’n questo carnovale vegnàno a star con voi, perché di ciascun male fatti siàno e saren principio noi. Plutone è questo, e Proserpina è quella ch’a lato se gli posa; Donna sopra ogni donna al mondo bella. Amor vince ogni cosa; Però vinse costui, che mai non si riposa, perch’ognun faccia quel ch’ha fatto lui. Ogni contento e scontento d’amore da noi è generato, e ’l pianto e ’l riso e ’l diletto e ’l dolore, chi fussi innamorato, segua il nostro volere e sarà contentato; Perché d’ogni mal far pigliàn piacere. Degli spiriti beati Spirti beati siàno, che da’ celesti scanni siàn qui venuti a dimostrarci in terra, poscia che noi veggiàno il mondo in tanti affanni e per lieve cagion sì crudel guerra; e mostrar a chi erra, sì come al Signor nostro al tutto piace che si ponghin giù l’arme e stieno in pace. L’empio e crudel martoro de’ miseri mortali, il lungo strazio e ’nrimediabil danno, il pianto di costoro per li infiniti mali che giorno e notte lamentar gli fanno, con singulti e affanno, con alte voci e dolorose strida, ciascun per sé merzè domanda e grida. Questo a Dio non è grato, né puote essere ancora a chiunche tien d’umanitate un segno; per questo ci ha mandato, che vi dimostriam ora quanto sie l’ira sua giusta e lo sdegno: poiché vede il suo regno mancar a poco a poco, e la sua gregge, se pe ’l nuovo pastor non si corregge. Tant’è grande la sete di guastar quel paese ch’a tutto il mondo diè le leggi in pria, che voi non v’accorgete che le vostre contese a li nimici vostri aprin la via. Il signor di Turchia aguzza l’armi, e tutto par ch’avvampi per inundar i vostri dolci campi. Dunque, alzate le mani contr’al crudel nemico, soccorrendo a le vostre gente afflitte; deponete, cristiani, questo vostro odio antico, e contro a lui voltate l’armi invitte; altrimenti, interditte le forze usate vi saran dal cielo, sendo in voi spento di pietate il zelo. Dipàrtasi il timore, nimicizie e rancori, avarizia, superbia e crudeltade; risurga in voi l’amore de’ giusti e veri onori; e torni il mondo a quella prima etade; così vi fien le strade del ciel aperte a la beata gente, né saran di virtù le fiamme spente.
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