Há produtos financeiros que geram opiniões quase automáticas. O cartão de crédito é um deles. Para umas pessoas é uma armadilha. Para outras, é uma ferramenta indispensável. Há quem o evite por completo e quem o utilize todos os dias sem pensar muito sobre a forma como funciona. Curiosamente, ambas as posições podem estar erradas.
Porque um cartão de crédito não é, por si só, bom nem mau. É apenas um instrumento financeiro. E, como acontece com qualquer ferramenta, o resultado depende da forma como é utilizado.
O problema é que muitos consumidores conhecem o cartão, mas não conhecem verdadeiramente as regras do jogo.
Na sua essência, um cartão de crédito é um meio de pagamento. Permite adquirir hoje um bem ou um serviço e efetuar o respetivo pagamento numa data posterior, normalmente entre 20 e 50 dias depois, dependendo da data da compra e do fecho do extrato.
Se, nessa data, o valor for liquidado na totalidade, o crédito é utilizado sem qualquer custo de juros.
É precisamente aqui que muitas pessoas ficam surpreendidas. Utilizar um cartão de crédito não significa, obrigatoriamente, pagar juros.
Pelo contrário. Quando o extrato é liquidado a 100%, o cartão pode funcionar simplesmente como uma forma mais cómoda de pagamento, oferecendo ainda vantagens adicionais, como seguros associados, proteção nas compras, programas de pontos, cashback ou maior segurança em compras online e viagens.
O problema começa quando o cartão deixa de ser um meio de pagamento e passa a ser uma forma permanente de financiamento. É aqui que surge uma das decisões mais importantes — e menos compreendidas — de todo o processo: a forma de pagamento do extrato.
Na maioria dos cartões, o cliente pode escolher entre diferentes modalidades de pagamento.
Pode pagar 100% do valor utilizado.
Pode pagar apenas uma percentagem, como 50%, 30% ou 20%.
Ou pode optar pelo chamado pagamento mínimo.
À primeira vista, pagar menos parece uma boa notícia. Na prática, é frequentemente o início de um problema.
Imagine uma compra de 2.000 euros efetuada com um cartão cuja taxa anual ronda os 16 por cento. Se o extrato for liquidado integralmente na data prevista, o custo da compra continua a ser exatamente 2.000 euros. Mas imagine agora que o titular decide pagar apenas o valor mínimo todos os meses.
Nesse caso, a dívida não desaparece. Apenas diminui lentamente, enquanto continuam a ser cobrados juros sobre o montante em dívida. Sem que o consumidor se aperceba verdadeiramente, aquela compra de 2.000 euros pode acabar por custar várias centenas de euros adicionais e demorar anos a ser totalmente liquidada.
O mais curioso é que, durante esse período, muitas pessoas continuam a utilizar o cartão para novas compras.
O resultado é um fenómeno conhecido como crédito revolving: uma dívida que nunca chega verdadeiramente ao fim porque, à medida que parte do capital é amortizada, volta a ser utilizada.
É precisamente este mecanismo que transforma um instrumento útil numa fonte permanente de pressão financeira.
Importa, por isso, fazer uma distinção muito clara: Utilizar um cartão de crédito não significa viver acima das possibilidades. Mas utilizar sucessivamente crédito para pagar despesas correntes pode ser um sinal de que o orçamento deixou de estar equilibrado.
Se todos os meses é necessário recorrer ao cartão para suportar despesas de alimentação, combustível ou outras despesas essenciais, provavelmente o problema já não está no cartão. Está na diferença entre aquilo que se ganha e aquilo que se gasta.
Existe ainda outro aspeto que muitas pessoas desconhecem.
Mesmo quando o cartão não está totalmente utilizado, o simples facto de existir um limite de crédito disponível pode ser considerado pelas instituições financeiras na análise de novos pedidos de financiamento.
Quando alguém solicita um crédito à habitação ou um crédito pessoal, o banco não olha apenas para as prestações existentes. Analisa também o conjunto das responsabilidades financeiras assumidas e a capacidade potencial de endividamento do cliente.
Ter vários cartões de crédito com limites elevados, mesmo pouco utilizados, pode influenciar essa avaliação, sobretudo quando existem outros fatores de risco.
Isto não significa que seja necessário cancelar todos os cartões.
Significa apenas que o crédito disponível também deve ser gerido com critério.
Na prática, o cartão de crédito pode ser um excelente aliado da gestão financeira quando é utilizado para organizar pagamentos, beneficiar de períodos sem juros e aproveitar vantagens adicionais sem recorrer a financiamento.
Mas deixa de cumprir essa função quando passa a ser utilizado para compensar falta de liquidez ou para financiar um estilo de vida que o rendimento já não consegue suportar.
A diferença entre uma utilização saudável e uma utilização problemática raramente está no cartão.
Está na decisão que se toma todos os meses quando chega o extrato.
Ter finanças com cabeça não significa evitar cartões de crédito. Significa compreender exatamente como funcionam antes de os utilizar.
Significa perceber que pagar o extrato a 100% não é apenas uma opção. É, na maioria das situações, a decisão financeiramente mais inteligente.
Significa utilizar o crédito como uma ferramenta pontual e consciente — nunca como uma extensão permanente do rendimento.
Porque o cartão de crédito não aumenta aquilo que ganhamos. Apenas antecipa a utilização de dinheiro que, mais cedo ou mais tarde, terá de ser pago. E quanto mais tempo demorarmos a fazê-lo, maior tende a ser o preço dessa decisão.
No próximo artigo vamos mudar completamente de perspetiva e abordar um tema que, para muitos pais, continua a ser desconfortável: falar de dinheiro com os filhos. Durante muito tempo acreditou-se que proteger as crianças era não lhes falar de questões financeiras. Hoje sabemos que acontece exatamente o contrário.
Porque a literacia financeira começa muito antes do primeiro salário, do primeiro cartão ou do primeiro crédito.
Começa em casa, nas pequenas conversas do dia a dia, e nas decisões que as crianças observam muito antes de aprenderem a fazer contas.
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