Recordo-me perfeitamente da primeira história de ficção científica que li, ainda era criança. Era uma adaptação de O Planeta Proibido pela Disney. Baseado no filme de 1956, contava a história de uma expedição a um planeta distante, onde viviam um cientista e a sua filha. O que realmente me fascinou foi descobrir a história da civilização que dominava Altair IV. Os Krell eram tão tecnologicamente avançados que decidiram libertar a mente, construindo uma máquina que materializava os pensamentos. Mas à medida que davam forma aos pensamentos da mente consciente, esqueceram-se dos impulsos básicos e primitivos reprimidos pelo inconsciente, o id. E, por isso, de cada vez que usavam a tecnologia, criavam monstros que irrompiam da camada mais profunda e inacessível da mente, precipitando o fim de toda uma civilização.
E foi assim que começou uma longa história de amor com a ficção científica porque descobri que conseguia expressar, questionar ou antecipar todas as questões existenciais sobre o passado, o presente e, sobretudo, o nosso futuro. Os grandes medos da Humanidade, embrulhados em cenários futuristas. Era o tipo de literatura que testava sistemas políticos em mundos ficcionais, viajava rumo a galáxias distantes, questionava os limites da nossa mente na solidão do espaço sideral e, em simultâneo, interrogava-se sobre a relação complexa entre os humanos e a tecnologia, ou a colonização de novos planetas habitáveis.
Conheci tantas obras notáveis nos meus anos universitários, como The Drowned World, de J. G. Ballard (1962), que descreve um cenário extremo apocalíptico em que as calotas polares se derreteram, e no meio do calor abrasador, do lodo e da decadência das cidades submersas, os sobreviventes que restam começam a regredir e a render-se aos seus instintos mais primitivos, refletindo a devastação que os rodeia.
Li a obra de Ursula Le Guin The Word for World is Forest (1972) em que, após a destruição da Terra, os humanos colonizam um planeta coberto de florestas, e decidem não só dar cabo dos recursos naturais do planeta, como escravizar o povo nativo, recordando-nos que, não importa onde a Humanidade se encontre, acaba por exportar as mesmas ações que levam à sua destruição.
Mas a obra que talvez mais continue a regressar à minha mente é a trilogia marciana de Kim Stanley Robinson, uma saga ambiciosa escrita nos anos 90, que detalha a colonização, a terraformação e a evolução política da presença humana em Marte, enquanto a Terra mergulhou num colapso ambiental. Com enorme rigor científico, descreve o surgimento de várias fações políticas que divergem sobre o futuro de Marte. Deverá permanecer intocada ou transformar-se num planeta habitável para os humanos? Após erros e revoluções falhadas, começam a desenvolver ao longo de gerações um sistema político, socioeconómico e filosófico consistente em Marte, à medida que a paisagem ocre e avermelhada cede lentamente lugar ao verde. Claro que a obra não é realmente sobre Marte, mas sobre nós, enquanto seres humanos evoluídos.
Saltamos para 2020 e Robinson publica The Ministry for the Future. As primeiras páginas descrevem uma massiva vaga de calor na Índia, de tais proporções que torna a vida impossível e mata milhões em poucos dias. Ao passo que em Marte todos estavam a tentar construir algo, nesta obra os protagonistas tentam desesperadamente salvar um planeta que está a ser desfeito por alterações climáticas, levando à possível extinção do Antropoceno.
Por esta altura, já terão percebido aonde esta crónica pretende chegar. Há 20 anos não nos sentíamos ameaçados como agora pelas alterações climáticas, e muitos insistiam em categorizar a ficção especulativa como meramente escapista. Mas na verdade deu-nos ferramentas para compreender o futuro que se aproximava muito mais rápido do que prevíamos, e que esse futuro era feito de escolhas nossas. Atualmente, somos confrontados com vagas de calor assustadoras para as quais não estamos preparados, num mundo em que reinam sistemas políticos económicos que sabem o que está em jogo e continuam a escolher o lucro. Seremos capazes de fazer o que os Krell nunca conseguiram, ou seja, reconhecer os monstros do nosso próprio subconsciente coletivo antes que eles nos destruam? Ou continuaremos, como eles, a confiar inteiramente no poder da nossa tecnologia, esquecendo-nos de que o verdadeiro perigo está dentro de nós?
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