Quem vê o recente sucesso da seleção de Cabo Verde no Mundial pode pensar que assiste a um milagre. Mas quem teve o privilégio de viver nas ilhas e sentir a vivência daquele povo no dia a dia percebe que não há milagre nenhum. É a essência da vida cabo-verdiana traduzida em 120 minutos de jogo. Foi o que vi e senti, sem a pretensão de que esta seja uma verdade sobre um povo inteiro.
A primeira coisa que se nota ao viver em Cabo Verde é a serenidade do povo. É uma calma profunda, uma leveza e uma sabedoria na forma como encaram o tempo e as agruras da vida. Essa serenidade não é fachada, existe no dia a dia e também passa para o futebol. Gosto de pensar que é essa paz que ajuda os tubarões azuis a baterem-se de igual para igual contra algumas das maiores potências do mundo, de cabeça fria, sob a maior das pressões.
Desde muito cedo os miúdos jogam descalços com bolas improvisadas em terra batida e nas praias. O que conta é a criatividade, a alegria e acima de tudo o espírito coletivo. Aprendem cedo a partilhar a bola e que ninguém joga sozinho. Vive-se futebol.
O povo cabo-verdiano é feito de resiliência. É gente que enfrenta as maiores dificuldades da vida com uma morna, coladera ou funana no corpo e na alma, um sorriso no rosto e uma força gigante. Quando transportam essa identidade para dentro do estádio, transformam-se em atletas incansáveis que jogam com a alma cheia e por isso, enfrentam serenamente craques como Messi. A famosa morabeza é este espírito solidário e comunitário que se sente no dia-a-dia e que se reflete na tranquilidade de uma equipa unida.
E eu, que não percebo nada de futebol, pergunto: como é que um guarda-redes genial como o Vozinha passa fora do radar internacional dos grandes clubes durante tantos anos? Anda o mundo do futebol a dormir?
Parece que sim. O futebol tornou-se numa indústria dominada pelos milhões, pelo marketing e pelo valor do mercado dos jogadores. Foi preciso um veterano cabo-verdiano chegar ao maior palco do mundo para nos abanar e acordar. Vozinha e Cabo Verde acordaram o mundo.
Esta seleção veio recordar a toda a gente que o futebol, na sua essência, pertence à paixão e à comunidade, e não aos empresários e ao lucro de milhões. Cabo Verde levou a sua alma ao Mundial e provou que, quando verdadeiramente unidos, os pequenos tornam-se gigantes.
Ontem, em frente ao ecrã, foi impossível não chorar de emoção. “Força! Nu ta djuntu!”. Esta frase que se ouve na rua, ontem, conquistou o mundo. Que grande lição!
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