Será a língua uma cultura que nos une? Como professora de LPNM, sinto diariamente a peso da barreira linguística que se ergue entre mim e os meus alunos, que tento derrubar de todas as maneiras possíveis. Consciente da extrema importância que a mestria linguística assume na integração social destes indivíduos oriundos hoje em dia maioritariamente de países asiáticos, a escola desempenha um papel crucial na construção dos seus percursos identitários e de parte significativa das suas histórias de vida, experienciados agora longe do país de origem.
Na minha aula de Língua Portuguesa Não Materna coabitam alunos nepaleses, indianos, afegãos e bengalis que foram lançados para uma turma do décimo ano de escolaridade de um curso profissional, alguns deles sem compreenderem quase nada do que os professores dizem. Para além de não falarem a nossa língua, alguns deles também não possuem conhecimentos básicos de Inglês que permita a comunicação. Estes alunos, alguns recém-chegados a Portugal, lutam desesperadamente por uma integração que lhes permita retomar a sua vida interrompida, em alguns casos, por situações de extrema complexidade política, social e familiar, alguns mesmo possuidores de um estatuto de refugiado.
No livro Entre Dois Mundos Entre Línguas (Machado, 2007, Editora Colibri), a autora já anunciava a realidade vivida hoje: “Numa altura em que novos fenómenos migratórios provocam um aumento da diversidade cultural no seio das sociedades ocidentais, Portugal volta a ser um país de acolhimento, desta vez de fluxos migratórios provenientes da Europa de Leste, da Ásia e do Brasil. O contexto do século XXI será o de miscigenação, exigindo da cada país forte ligação ao mundo e uma maior capacidade de resposta às necessidades específicas destes fluxos migratórios.”
A escola em geral, e a sala de aula em particular, transformou-se num espaço multilinguístico e multicultural onde a partilha e o debate de diferentes formas de estar, ser, pensar e sentir se tornou urgente. Lado a lado com os meus atuais alunos de origem nepalesa, indiana ou afegã que se me dirigem em Inglês, alguns deles acabados de chegar a Portugal, debatendo-se diariamente com as dificuldades de aprendizagem da língua portuguesa, existe um forte sentimento de exclusão, faltando os vínculos e os afetos. A dificuldade em fazer amigos portugueses, dentro e fora da escola, é uma realidade e muitos referem sentir muita discriminação por parte da sua geração, de jovens que os tratam por indianos e nunca os convidam para atividades fora da escola. Por incrível que possa parecer, os muitos alunos com quem falei confessam sentir-se muitas vezes excluídos quando os professores em atividades de grupo, juntam no mesmo grupo os alunos de origem estrangeira impedindo-os assim de interagir com os alunos portugueses.
A capacidade de motivar estes alunos para a escola parece ser uma competência essencial do professor de LPNM embora, sabemo-lo, a preocupação curricular com o desenvolvimento das competências linguísticas e comunicativas destes alunos deva ser transversal a todas as disciplinas, situações e contextos do espaço escolar, realidade que em boa verdade, parece não existir. Muitas vezes, os professores de disciplinas específicas são obrigados a utilizar a língua inglesa nas suas aulas para que algumas aprendizagens possam ocorrer.
A disciplina de LPNM desempenha, indiscutivelmente, um papel central neste processo de integração ao promover, paralelamente ao ensino da língua, uma reflexão sobre culturas, imaginários e códigos de referência diferenciados, tendo em conta o facto de estarmos perante Indivíduos de terceira cultura ou third culture kids (de acordo com o quadro teórico proposto por Pollock et all, 1999), não estando ainda integrados na cultura de acolhimento ao mesmo tempo que desvirtuam já, de algum modo, as referências culturais dos seus países de origem,
Estamos perante um quadro de educação multicultural que exige de todos, não apenas dos professores de LPNM mas de toda a comunidade escolar, uma preocupação com a valorização da comunicação em língua portuguesa, proporcionando experiências sociais, culturais e linguísticas que envolvam estes alunos, tantas vezes perdidos e sem referências dentro de uma terceira cultura que resulta desta mistura entre o que trouxeram de fora e o que encontram cá dentro.
Uma vez que os estudos comprovam a existência cada vez maior de uma relação entre o domínios dos códigos linguístico e comunicativo e vantagens sociais, qual é afinal o papel da escola na mestria linguístico-comunicativa destes alunos que frequentam as aulas de Língua Portuguesa Não Materna bem como na sua integração e socialização? Sendo inegável que a escolarização nas competências de expressão oral e escrita e de leitura em língua portuguesa dota estes indivíduos de mais e melhores recursos para outras perspetivas e para outras possibilidades de percursos de vida, deve a escola ajudar no processo de socialização e de integração dos muitos Manesh, Sandesh, Susan, Alan, Talha, Adrita, Kripa, Abdulah e Noordeep que chegaram a Portugal com esperança num futuro melhor.
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