Há muito que Lisboa não tem varinas de canastra à cabeça pelas ruas, muito menos vendedoras a apregoar “quem quer figos, quem quer almoçar!”.
Os ardinas desapareceram, restam os últimos engraxadores e cauteleiros com bilhetes de sorte, poucos é certo, e o decano polícia sinaleiro da cidade – primeiro na Rua da Escola Politécnica, depois num cruzamento entre Belém e a Calçada da Ajuda – reformou-se.

De Tiago Andrade Nunes e Carlos Vasconcellos e Sá
288 págs.
Edições Esgotadas
€50
Estas são algumas das 118 pessoas retratadas no livro Lisboetas, com minibiografias, ora em prosa ora em verso, assinadas por Tiago Andrade Nunes e fotografias de Carlos Vasconcellos e Sá. Nos últimos anos, os dois calcorrearam os bairros de Lisboa à procura destas figuras tradicionais que ajudam a destrinçar o contexto sociocultural lisboeta de antigamente do de hoje.
O amolador de facas e tesouras foi dos mais difíceis de descobrir. Mas, um dia, em Algés, onde também fotografou o calceteiro, Carlos Vasconcellos e Sá, 70 anos, ouviu o som da gaita e rapidamente pegou na máquina fotográfica e conseguiu registar o momento.
Na visita ao encadernador, a dupla apanhou também a merceeira e o padeiro. Os jogadores de cartas, seniores habituées do Jardim da Estrela, a assadora de castanhas, o taxista do fado ou a vendedora de ginja de Alfama não requereram muitas combinações. Tal como as imagens captadas numa tertúlia habitual no Beato, onde se junta gente de todo o género, desde o artista plástico Pedro Cabrita Reis a fadistas antigos como Artur Batalha, conhecido por O Príncipe do Fado.
Esta ideia de procurar os mais típicos lisboetas, e nem todos nasceram na capital, são migrantes de muitas regiões do País, surgiu quando Tiago Andrade Nunes, 35 anos, teve uma casa de fados nas Janelas Verdes, a Taberna Saudade que fechou em 2020. Muitas das suas madrugadas terminavam numa casa meio clandestina, ali na Rua do Olival, onde conheceu Nelo do Twist que também fadistava. “Havia noites em que aquilo parecia um filme do Leitão de Barros. Havia ali uma Lisboa que me fazia lembrar esse cinema antigo d’O Costa do Castelo, com personagens peculiares e completamente lisboetas”, lembra o fadista, também formado em Gestão Turística e Hoteleira. A verdade é que Nelo do Twist não entra no rol, porque foi para Almada, mas Tiago sabe que ainda está vivo, na casa dos 80 anos.
Lisboetas, com prefácio do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, e apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, divide-se em capítulos dedicados ao fado, às marchas e arraiais, aos pregões e à revista à portuguesa e musicais, publicando também as 30 fotografias de José Lopo de Carvalho, com quem Tiago iniciou o projeto, mas entretanto morreu.
Apesar de essencialmente ser um fotógrafo de estúdio, Carlos Vasconcellos e Sá associa o preto-e-branco ao passado, “além de serem sempre imagens muito mais dramáticas, sem distrações, em que se consegue mostrar o mais singular da pessoa”. Neste livro, refletem também a essência de um território.