Quantas vezes mudou de canal, não porque o sofrimento dos outros lhe fosse indiferente, mas porque já não sabia onde guardá-lo?
A nossa saúde mental não é afetada apenas pelo que nos acontece diretamente, mas também por aquilo que sentimos que nos pode acontecer a qualquer momento.
Já não precisamos de procurar tragédia. Ela entra-nos pela vida dentro.
Não conhecemos as pessoas. Não vivemos naquele país. Mas, vezes demais, sentimos que também estamos lá.
E talvez este seja um dos maiores desafios do nosso tempo: vivemos expostos a acontecimentos extraordinários com uma frequência que o cérebro humano nunca conheceu.
Todas as semanas há uma nova tragédia. Um novo alerta. Um novo mapa pintado de vermelho. Não é estranho que tantas pessoas descrevam uma sensação constante de inquietação, mesmo quando, objetivamente, está tudo bem à sua volta.
O nosso cérebro foi desenhado para responder ao perigo, não para assistir continuamente ao perigo dos outros. Sempre que vemos imagens repetidas de destruição, sofrimento ou perda, ativamos parte dos mesmos circuitos neuronais envolvidos na perceção da ameaça. O cérebro não faz uma distinção perfeita entre aquilo que vivemos e aquilo a que assistimos repetidamente.
É por isso que, um sismo na Venezuela ou um incêndio do outro lado do mundo acabam por nos deixar estranhamente ansiosos. Não porque pensemos racionalmente que seremos os próximos mas, porque, emocionalmente, percebemos uma coisa muito simples: isto também pode acontecer comigo.
Ao mesmo tempo, dá-se outro fenómeno menos falado: não temos capacidade para que tudo pareça urgente por tempo prolongado e, numa sociedade em que tudo parece urgente, facilmente alcançamos aquilo a que chamamos de fadiga da compaixão. Não deixamos de sentir porque nos tornámos indiferentes. Deixamos de sentir porque o precisamos de encontrar uma forma de sobreviver ao excesso de sofrimento a que é exposto.
Passamos da comoção ao silêncio numa velocidade impressionante.
Isto explica porque, semanas depois de uma catástrofe as notícias desaparecem e nós seguimos para a tragédia seguinte.
Há uma apreciação que não resisto em fazer: vivemos convencidos de que estar permanentemente informados nos torna mais preparados.
Mas será mesmo?
Saber, ao minuto, tudo o que acontece no mundo raramente aumenta a nossa capacidade de agir. Muitas vezes aumenta apenas a sensação de vulnerabilidade, porque informação sem contexto transforma-se facilmente em ansiedade e ansiedade prolongada nunca foi uma boa estratégia de preparação!
Talvez seja tempo de distinguirmos duas coisas bem distintas: estar informado e viver em estado de alerta. A primeira protege-nos. A segunda desgasta-nos.
Precisamos de perceber que cuidar da saúde mental passa também por aprender a escolher como, quando e quanto nos expomos ao sofrimento dos outros.
Porque a empatia continua a ser uma das maiores qualidades do ser humano. Mas até a empatia precisa de respirar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.