Querida Chéu,
Escreves sobre o estigma da loucura, da escrita como sinal e veículo de sanidade, e penso na quantidade de vezes em que mulheres, autoras, criadoras, sentiram vergonha e esconderam aquilo que melhor sabiam fazer: criar. Penso na regularidade com que a força e inspiração de criadores e pensadores, homens, mulheres e pessoas não binárias são consideradas uma fraqueza e uma afronta pela mesma sociedade que lucra com a sua arte e o seu engenho. Penso na quantidade de pequenos gestos que tanta gente oblitera do quotidiano e na vergonha que sentimos de sonhos ou de desejos que não nos atrevemos a concretizar só para não incomodarmos um status quo que, não raras vezes, é mais insano e obsceno do que o nosso maior capricho.
Penso muitas vezes: por que a nossa régua de cálculo é tão desmesurada? Temos vergonha dos nossos hábitos ou mesmo dos nossos corpos e tentamos, a todo o custo, alterá-los diariamente, e, no entanto, parecemos aceitar o curso político e moral de um país ou de uma europa sem um piscar de olhos, relegando o assunto para uma conversa de café onde irremediavelmente terminamos com um “são todos corruptos” ou “não há condições para mudar”.
É estranho, não achas? Quantas pessoas não vivem com vergonha de serem ateias e vão à missa só para agradar os avós, quantas praticam religiões às escondidas para não “parecerem mal” aos olhos de quem admiram, quantas escondem o que sentem, aceitam praxes, negam princípios fundadores só para serem aceites? Quantas crianças se fazem fortes frente a pais que não cuidam delas? Quantas pessoas não vestem o que gostariam de vestir com medo de represálias e quantas se endividam para usar joalharia, ignorando que é extraída à custa de muita escravidão e morte? Quantas mulheres fingem orgasmos para manterem casamentos com quem tem amantes, quantas (e quantos?) mantêm dietas impossíveis que recriminam publicamente enquanto se penitenciam pela curva que não têm no corpo? Quantas pessoas fingem que não fumam frente aos pais enquanto aceitam comentários xenófobos à mesa só para manterem a cordialidade? Em suma, quantas e quantos de nós mentem para manter um status quo no qual não acreditam, mantendo vidas duplas, nenhuma delas em consonância com os seus princípios ou vontades? E não será nestes pequenos gestos que tudo começa? Na gestão da vida diária? Na escolha entre o que nutrimos e o que negligenciamos?
Passamos os dias a gerir pequenas vergonhas que acabam por nos transformar e por definir a sociedade que construímos, enquanto assistimos, não sem pasmo, mas ainda assim com algum grau de permissividade, às atrocidades e às escolhas que se praticam em nosso nome e sem vergonha nenhuma.
Não sei se reparaste, mas os telejornais na semana passada abriram todos com o conflito no Irão e fecharam com a viagem espacial da missão Artemis II ao lado oculto da lua. Um dos países mais poderosos do mundo, os Estados Unidos da América, é responsável pelo orçamento e execução de ambos. De acordo com a agência noticiosa NPR, os Estados Unidos gastaram, e só no mês de abril, 28 mil milhões de dólares para financiarem a guerra contra o Irão, assim como grande parte dos 93 mil milhões de dólares do projeto Artemis II só em 2025, dos quais 43 milhões foram aplicados na construção de uma casa de banho espacial que avariou regularmente durante os dez dias de viagem e foi motivo de pormenorizadas reportagens em múltiplos telejornais. O mesmo governo apresentou, há dez dias, novos cortes nos orçamentos de programas de pesquisa científica na área da saúde e do ambiente, dando prioridade à Inteligência Artificial, à defesa e à energia. Para teres uma ideia, Cláudia, o plano para 2027 propõe um corte de mais de 50% para a Fundação Nacional da Ciência (NSF) e para a Agência de Proteção Ambiental (EPA) e estaciona, por exemplo, o orçamento do Instituto Nacional do Cancro na ordem dos 7.4 mil milhões anuais. E todas estas decisões são tomadas sem vergonha nenhuma na cara. Porque será?
Porque temos tanta vergonha da nossa fé ou das nossas ambições enquanto homens ou mulheres, e nenhuma vergonha de sermos humanas num planeta onde claramente somos uma praga? Alguém perguntou à Lua ou a Marte se nos queria receber?
Ouço as declarações comovidas de Victor Glover, piloto a bordo da Artemis II, momentos antes de ficar sem ligação com a base na Terra e pergunto-me: Porque só conseguimos amar a Terra à distância e de perto perdemos a ligação com o mundo?
Será que só gostamos de lados ocultos se pertencerem à lua?
Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela