Homem que é homem é o provedor, invulnerável, forte e não saúde mental não lhe falta. Porque doença mental é “coisa de mulher” ou “de fracos”, e o homem é racional e forte; se revela as emoções ouve um “não sejas mariquinhas”, porque os homens são invulneráveis; se ganha menos calha-lhe um “mas é ela que paga as contas?” determinador do seu insucesso. Afinal, toda a gente sabe que “os homens não choram” – mas 700 mil morrem anualmente por suicídio, 1 em cada 10 tem depressão ou ansiedade e só 1/5 são efetivamente diagnosticados, sofrem duas vezes mais de perturbação de uso de álcool e substâncias. “Os homens sofrem em silêncio” – e portanto 40% não fala, de todo, sobre a sua saúde mental. Esta ilustrativa coleção de preconceitos estereotipa a masculinidade e engorda, à boca larga, o (auto)estigma em relação à saúde mental dos homens. Por isso, este Movember ou novembro azul – o mês da promoção da saúde mental e física dos homens – não é época de silencio, mas de grito: os homens também têm doenças mentais – e não são menos homens por isso.
Os números. Um em cada dois homens enfrenta uma doença mental ao longo da vida, diz-nos a Organização Mundial de Saúde. Estamos a falar de um universo de quase 2 mil milhões de pessoas do género masculino. Neste preciso instante, 392 milhões de homens terão depressão e/ou ansiedade, e 237 milhões perturbações de uso de álcool – mas deste universo, francamente subcalculado, de 629 milhões de homens com estas doenças mentais, apenas 125,8 milhões são diagnosticados e ainda menos, muito menos, são devidamente tratados (à volta de 10%, 12,5 milhões).
A matemática, sempre demasiado conservadora, da morte por suicídio, oferece uma dimensão ainda mais assustadora a este cenário: 700 mil homens morrem anualmente por suicídio. São 59 mil homens por mês, 15500 por semana, 2500 por dias, 90 a cada hora, quase 2 a cada minuto. Em Portugal, onde esta estatística está há anos cativa de teorias bacocas, congeladas e a prevenção zero, 75% das pessoas que morrem por suicídio são homens (segundo o Instituto Nacional de Estatística, relativamente a 2023). Sabemos que 95% das pessoas que morrem por suicídio têm doenças mentais, diagnosticadas ou não. Será que estes homens não choraram?
O estigma. A expectativa social é que os homens reprimam as suas emoções, para caberem no molde culturalmente determinado: fortes, independentes, provedores. E, consequentemente, auto-estigmatizados quanto à sua saúde mental.
Vejamos a lente fina os níveis de autoestigma que enfrentamos: dos 40% que não falam com ninguém sobre a sua saúde mental – família, amigos, ou um clínico –, todos se dizem autossuficientes: “aprendi a lidar com isto”. E não falam pelas seguintes razões cumulativas: 36% não querem ser um fardo; 29% têm vergonha; 20% não se querem expor ao estigma negativo dos outros; 17% não querem admitir que precisam de ajuda; 16% não querem parecer fracos; e 14% sentem não ter ninguém com quem falar sobre o assunto.
A numerologia do estigma social está por calcular. Mas se colocarmos no caldeirão todos os estereótipos, normas, perceções e expetativas enviesadas sobre o que seja ser homem, e levarmos a ferver com toda a construção social de estigma com a saúde mental em geral, os números queimam-nos certamente a língua e a razão.
O impacto. Tanto estigma junto é engrenagem para muita doença mental. Além de todos quantos não falam ou procuram ajuda, aqueles que dão o corajoso passo de marcar uma consulta – na maioria dos casos, por influência familiar – têm uma tendência vincada a adiar por várias vezes esse contacto clínico. Chegam a um médico ou psicólogo não apenas com sintomas, mas já com doença instalada, o que torna o tratamento mais longo e a remissão mais demorada, aumentando a probabilidade de reincidência. A própria comunidade médica tem maior resistência a diagnosticar um homem com uma doença mental, do que uma mulher (porque o estigma clínico é real). E no final do dia, 2500 homens morreram por suicídio.
O que fazer? Séculos e séculos de estigma não se desconstroem em dias, mas combatem-se com literacia, conhecimento e empatia. O que é que sabemos?
– Que os maiores stressores psicossociais dos homens se relacionam com o trabalho (32%) e com pressão financeira (31%) – pondo em causa o seu papel de provedor.
– Que as doenças mentais comuns podem manifestar-se de modo diferente nos homens, sendo-lhes os sintomas mais comuns: (1) fuga emocional, (2) dores inexplicáveis e problemas gastrointestinais, (3) abuso de substâncias (álcool e drogas que pode tornar-se uma doença mental per se), (4) comportamentos de risco como condução irresponsável, e (5) reações intensas de agressividade, controlo, raiva ou irritabilidade.
– Que as doenças mentais mais prevalentes nos homens são a perturbação do uso de álcool e a depressão major.
– Que o risco, a concretização e a tentativa de suicídio é consideravelmente superior nos homens.
Sabemos muita coisa. Saberemos deixar de ser preconceituosos? Porque também sabemos o resultado: as doenças mentais não têm preferência por géneros, mas a morte por suicídio tem.
LINHAS DE PREVENÇÃO E APOIO
Serviço de Aconselhamento Psicológico SNS24
808 24 24 24 (opção 4)
Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico
1411
SOS Voz Amiga
Lisboa
Das 15h30 às 00h30
213 544 545 — 912 802 669 — 963 524 660
Conversa Amiga
Inatel
Das 15h às 22h
808 237 327
210 027 159
Vozes Amigas de Esperança de Portugal
Voades-Portugal
Das 16h às 22h
222 030 707
Telefone da Amizade
Porto
Das 16h às 23h
228 323 535
Voz de Apoio
Porto
Das 21h às 24h
225 506 070
SOS Estudante
Linha de apoio emocional e prevenção do suicídio.
Todos os dias das 20h à 1h (exceto férias escolares)
915246060 (Yorn) — 969554545 (Moche) — 239484020 (Fixo)
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