A Lenovo, com sede em Pequim, é um dos oito parceiros globais da FIFA, ao lado da Coca-Cola, da Adidas, da Visa e de outras marcas multinacionais. O estatuto ilustra o persistente interesse chinês pelo desporto mais popular do planeta e refresca a memória acerca das estreitas relações económicas entre a China e os EUA.
Atual líder mundial na área dos computadores pessoais, a Lenovo só se tornou uma empresa global depois de comprar a divisão de PCs da IBM por dois mil milhões de dólares, em 2004. No ano seguinte, dois ensaístas europeus (Niall Ferguson e Moritz Schularick) cunharam a expressão “Chimérica”. O conceito, que descrevia a “simbiose” entre as economias dos dois países, caiu em desuso, mas não desapareceu.
A retórica neonacionalista chinesa acerca do “declínio da América” não é inteiramente convincente. Mais de 250 empresas chinesas estão cotadas na Bolsa de Nova Iorque e muitas outras gostariam de investir nos EUA, o maior mercado consumidor do mundo. O contrário também é verdade: há mais cafés Starbucks em Xangai do que em Nova Iorque ou em qualquer outra cidade americana. No tempo da Guerra Fria, pelo contrário, as relações económicas entre os EUA e a União Soviética eram insignificantes.
A IBM não foi o único ícone americano parcialmente comprado por companhias chinesas. Mais simbólico ainda, a divisão de eletrodomésticos da General Electric – empresa fundada no final do século XIX por Thomas Edison – é desde 2016 propriedade da Haier, consórcio sediado em Qingdao, na costa norte da China. A aquisição custou 5,4 mil milhões de dólares. E a Smithfield Foods, a maior processadora de carne de porco dos EUA – e, em particular, do bacon que milhões de americanos comem ao pequeno-almoço – é hoje uma subsidiária de um grupo de Luohe, na província de Henan. O negócio, no valor de 4,72 mil milhões de dólares, incluiu um terreno com cerca de 60 mil hectares, o que transformou aquele grupo num dos maiores proprietários estrangeiros de terra agrícola dos EUA.
Contrariando uma perceção generalizada na imprensa ocidental, que tende a realçar apenas o endividamento dos países em vias de desenvolvimento em relação à China, um estudo publicado o ano passado nos EUA concluiu que este país foi o que mais créditos recebeu de instituições financeiras chinesas: cerca de 202 mil milhões de dólares entre 2000 e 2023. (A Rússia vem em 2º lugar, com 172 mil milhões de dólares). No total, a China financiou mais de 2500 projetos em quase todos os estados do país, designadamente na construção de aeroportos e outras infraestruturas, apurou a AidData, um laboratório de investigação da Universidade William and Mary, na Virgínia. “Embora governos e alianças (como a NATO e o G7) estejam em competição aberta com Pequim”, a AidData constatou que “muitas instituições financeiras ocidentais ou lideradas pelo Ocidente optaram por colaborar com credores estatais chineses − e muitas empresas ocidentais aceitaram grandes somas emprestadas pelas mesmas instituições”, diz o relatório difundido há seis meses.
Como na Europa, alguns intelectuais chineses mostram-se hoje desiludidos com a evolução da política americana. A América “era mais do que um país: era uma ideia”, escreveu Lijia Zhang num artigo publicado na semana passada num jornal de Hong Kong. Nascida em 1964, a romancista Lijia Zhang assume-se sobretudo como comentadora social.
“Muitos chineses, eu própria incluída, associávamos a América a prosperidade, liberdade, inovação científica e uma democracia funcional (…) Mesmo os que discordavam muitas vezes da política externa da América admiravam as suas instituições e o seu poder.” Já não é bem assim. A “mudança mais importante”, adianta Lijia Zhang, será talvez psicológica: “Durante décadas, muitos chineses viam a América com um misto de admiração e inveja. Trump não eliminou essa admiração, mas tornou-a mais condicional e menos romântica.”
“Os chineses não se tornaram, de repente, antiamericanos”, diz também Lijia Zhang. “Muitos ainda admiram as universidades dos EUA, a sua capacidade de inovação tecnológica, a criatividade cultural e as tradições constitucionais.” Contudo, “o país que muitos chineses instruídos imaginavam antes é visto agora menos idealisticamente”.
Num recente comentário no Financial Times, a académica norte-americana Jessica Chen Weiss foi perentória: separar as economias dos EUA e da China “é uma fantasia”. Para esta professora da Universidade Johns Hopkins, “as duas economias são tão simbióticas que é impossível separá-las”.
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