Durante décadas, o Ocidente acreditou que a principal ameaça estratégica do Irão estava escondida nas profundezas das instalações nucleares de Natanz, Fordow ou Arak. A guerra recente obrigou-nos a olhar para outro lugar. A verdadeira arma iraniana não está enterrada sob montanhas nem protegida por betão armado. Flutua à superfície das águas do golfo Pérsico. Chama-se estreito de Ormuz.
Foi essa a grande conclusão estratégica dos últimos meses e, provavelmente, a razão pela qual o memorando de entendimento entre Washington e Teerão estava condenado desde o primeiro dia.
O mundo assistiu ao acordo como quem observa o início de uma descompressão. Os mercados reagiram positivamente. O preço da energia estabilizou. As bolsas recuperaram parte das perdas. As seguradoras marítimas reduziram os prémios de risco. A sensação geral era a de que a crise tinha entrado numa fase de controlo.
Mas aquilo que existia nunca foi paz.
O memorando não nasceu para resolver o conflito entre os EUA e o Irão. Nasceu para gerir as suas consequências imediatas. Foi uma ferramenta de estabilização, não uma solução política. Serviu para ganhar tempo, acalmar os mercados e evitar que uma guerra regional se transformasse numa crise económica global.
Em muitos aspetos, cumpriu esse objetivo. Os EUA conseguiram apresentar uma pausa estratégica após uma campanha militar que pretendiam transformar numa vitória política. O Irão conseguiu aliviar parte da pressão económica e alimentar a expectativa de que o levantamento das sanções pudesse abrir uma nova etapa. Os mercados obtiveram aquilo que mais valorizam: previsibilidade.
O problema é que os interesses fundamentais de ambas as partes nunca mudaram.
As divergências concentravam-se sobretudo em dois pontos. O primeiro era o artigo 5º, relacionado com o estreito de Ormuz. O segundo era o artigo 11º, relativo aos ativos iranianos congelados e ao levantamento das sanções.
Para Teerão, Ormuz é mais do que uma passagem marítima. É um instrumento de poder. É a capacidade de transformar geografia em influência política. É a possibilidade de lembrar ao mundo que uma parte significativa da energia global continua dependente de um corredor marítimo cuja estabilidade pode ser posta em causa.
Para Washington, essa visão é inaceitável. Nenhuma superpotência marítima pode aceitar que uma das principais artérias energéticas do planeta seja utilizada como instrumento de pressão estratégica. A liberdade de navegação não é apenas uma questão comercial. É uma questão de poder.
Foi aqui que as leituras começaram a divergir de forma irreconciliável.
O Irão interpretava o memorando como um reconhecimento implícito da sua capacidade de influência regional. Os EUA encaravam-no como uma pausa temporária destinada a reduzir riscos e a ganhar margem de manobra. Ambos assinavam o mesmo documento, mas liam-no de formas completamente diferentes.
O mesmo acontecia com o artigo 11º. A liderança iraniana via o acesso aos ativos congelados e o levantamento das sanções como uma condição essencial para estabilizar a economia e responder a uma população cada vez mais desgastada por décadas de dificuldades económicas. Washington aceitava discutir essa possibilidade, mas apenas dentro de limites muito mais restritivos.
Entre ambas as interpretações existia um fosso demasiado profundo para ser ultrapassado.
A questão central, contudo, não está no texto do memorando. Está naquilo que cada lado acreditava sobre o outro.
Ao longo destes meses, o regime iraniano pareceu partir de uma convicção simples: a sua capacidade de resistência económica seria superior à capacidade de resistência política dos EUA. Em Teerão acreditava-se que Washington acabaria por recuar primeiro. Que a pressão dos mercados, a subida dos preços da energia, a inflação e o desgaste político interno acabariam por limitar a determinação americana.
A lógica não era absurda.
Os EUA carregam ainda as memórias do Iraque e do Afeganistão. Donald Trump regressou à Casa Branca prometendo prosperidade económica, energia acessível e menos conflitos externos. As eleições intercalares aproximam-se. Qualquer choque petrolífero significativo teria inevitavelmente consequências políticas.
Mas foi precisamente aqui que ocorreu o principal erro de cálculo iraniano.
A Administração americana parece ter chegado a uma conclusão diferente. Em vez de considerar que o tempo favorece Teerão, acredita que o tempo favorece Washington. Acredita que a economia iraniana necessita mais do levantamento das sanções do que os EUA necessitam de um acordo rápido. Acredita que as fragilidades económicas do regime são mais profundas do que aparentam. E acredita que a pressão acumulada acabará por produzir efeitos políticos.
A queda do memorando representa, por isso, muito mais do que o fracasso de uma negociação. Representa a passagem para uma nova fase da estratégia americana.
Não estamos perante os preparativos para uma invasão ou para uma guerra convencional de grande escala. Estamos perante algo mais subtil e potencialmente mais eficaz. Uma campanha prolongada de pressão seletiva destinada a limitar progressivamente as capacidades militares iranianas associadas ao golfo Pérsico e ao controlo de Ormuz.
Washington procurará justificar essas ações como necessárias para garantir a segurança marítima internacional, proteger a liberdade de navegação e prevenir futuras ameaças ao comércio global. Independentemente do debate jurídico que inevitavelmente surgirá, a lógica estratégica é evidente: reduzir a capacidade iraniana de transformar Ormuz numa arma económica.
Para Israel, esta evolução é amplamente favorável.
O memorando introduzia ambiguidades e constrangimentos políticos. O seu desaparecimento devolve clareza estratégica. Jerusalém vê reforçada a possibilidade de manter uma política de contenção permanente sobre o regime iraniano e sobre a sua rede de aliados regionais.
Para os Estados árabes do golfo, a situação é mais delicada. Partilham muitas das preocupações de Washington relativamente ao comportamento iraniano, mas conhecem melhor do que ninguém os custos económicos da instabilidade. Beneficiam da proteção americana, mas dependem igualmente da estabilidade dos mercados energéticos.
É por isso que o Médio Oriente entra agora numa fase particularmente perigosa. Não uma fase de guerra aberta. Não uma fase de paz. Mas uma fase intermédia, marcada por operações limitadas, pressão económica, demonstrações de força e confrontação permanente.
O memorando serviu um propósito. Evitou uma escalada imediata e deu aos mercados o tempo de que necessitavam para recuperar confiança. Mas nunca resolveu a questão essencial. A grande disputa deixou de ser apenas nuclear.
Durante anos, acreditámos que o centro da rivalidade estava nas centrifugadoras iranianas. Hoje percebemos que a verdadeira questão é mais ampla. Trata-se de saber quem controla a principal alavanca energética do planeta e quem tem capacidade para transformar essa alavanca numa arma política.
O programa nuclear continua a ser importante. Continua a preocupar Washington, Jerusalém e os seus aliados. Mas a guerra revelou algo que muitos preferiam ignorar.
A bomba mais poderosa do Irão pode não estar escondida num complexo subterrâneo. Pode estar, simplesmente, nas águas de Ormuz.