O livro Os Homens São de Marte, as Mulheres São de Vénus, publicado em 1992, foi um êxito de vendas. O autor, John Gray, tornou-se famoso. Com base na ciência, neste e noutros livros, aprofunda o tema das diferenças na forma de pensar, sentir e comunicar entre homens e mulheres… e recomenda estratégias que permitam ultrapassar conflitos nos relacionamentos.
O título tornou-se um ícone, a que recorremos frequentemente para ilustrar… ou condescender perante dificuldades de relacionamento. Mas se nos anos 90 o foco era em como encontrar um caminho comum para uma convivência mais feliz e equilibrada no casal, hoje existe um novo desafio a montante. Na Europa, na América, em África, na Ásia, verifica-se um novo fenómeno. Temos menos filhos. Muito menos. A queda da fertilidade é tão pronunciada que em alguns países se aproxima dos zero nascimentos por mulher (Coreia do Sul). E, no entanto, nas sondagens os jovens continuam a afirmar que idealmente gostariam de formar uma família e ter dois filhos. Nos países ditos “ricos e desenvolvidos” a quebra de natalidade aconteceu há várias décadas, sendo as causas bem conhecidas e estudadas: quebra da mortalidade infantil, industrialização, a transformação numa sociedade de serviços, o acesso à educação pelas mulheres. Mas agora, independentemente do nível de desenvolvimento ou das condições económicas, a queda é ainda mais acentuada, e em todo o planeta.
É tentador desconsiderar. Somos muitos e os recursos do planeta estão já em sobreconsumo. Mas como garantir a viabilidade de sociedades envelhecidas? Como custear reformas, saúde e infraestruturas? Como criar e inovar sem a energia da juventude? Perante a quebra abrupta e simultânea em geografias tão díspares, as respostas tradicionais não parecem explicar a dimensão do fenómeno. Mesmo em regiões onde a crise da habitação não se verifica, onde existem apoios sociais generosos às famílias com filhos pequenos e os homens participam ativamente nas tarefas domésticas, como é o caso dos países nórdicos, a realidade é a mesma. Menos mulheres estão a ter filhos. Nas que têm, a média não se alterou radicalmente. Nos EUA, se se considerar apenas as mulheres com filhos, a média é de 2,5 crianças por mulher, mas se há 30 anos 85% das mulheres em idade fértil tinham filhos, hoje apenas 63% os têm.
Economistas têm procurado encontrar uma causa comum, responsável por uma alteração tão profunda e global. Mas o problema, sem surpresa, está no nosso bolso. Quando se cruzam os dados sobre o momento em que em cada país o smartphone se disseminou com os dados da natalidade, a tendência é única: quebra a pique da natalidade. Os homens ainda serão de Marte e as mulheres de Vénus, mas convivem muito menos. Isso influencia não só o tempo disponível para se conhecerem, como as expectativas quanto a um potencial parceiro… que deixaram de estar exclusivamente ancoradas no mundo real. A análise dos dados de consumo de conteúdos demonstrou, também, que homens e mulheres não confluem nos filmes, séries, influenciadores, conteúdos informativos… o que contribui para acentuar a divergência na forma como encaram o mundo e o papel do homem e da mulher na sociedade. Some-se a forma como o algoritmo seleciona conteúdos sobre temas que nos preocupam e alimenta, com voragem, as nossas angústias e as dificuldades da vida real, e os números, ao invés de surpreenderem, parecem-nos totalmente justificados.
Mas como contrariar o movimento? Será difícil, mas certamente passa por tornar o mundo virtual mais próximo do real. Ou seja, garantindo que os donos das plataformas são responsáveis pelos conteúdos que disseminam e regulando a fórmula dos algoritmos para que não promovam o consumo aditivo e faccioso.
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