“O passado já não ilumina o futuro; o espírito caminha nas trevas.” A frase de Alexis de Tocqueville ajuda a explicar muito da política portuguesa nos dias que correm. Já não se governa com horizonte. Governa-se sobretudo em função da reação, da perceção e da repercussão da hora seguinte.
Já o escrevi uma vez, mas vale a pena insistir. Em maio de 2025, André Ventura e o Chega alcançaram uma maioria absoluta encapotada no debate público. Durante semanas, repetiu-se que Portugal tinha virado definitivamente à direita e que continuaria inevitavelmente nesse caminho. Ao mesmo tempo, a narrativa das alegadas “portas escancaradas” na imigração transformou-se numa verdade adquirida para demasiados comentadores, jornalistas e decisores políticos. O problema não foi apenas terem-se enganado. Foi a velocidade com que tantos transformaram perceções em factos e estados de alma em estratégia política.
Este governo não ficou imune. Pelo contrário.
Apesar de hoje muitos procurarem apresentar-se como resistentes ao populismo e ao ruído mediático, poucos executivos foram tão influenciados pelo ambiente dominante do espaço público como este. Em vários momentos, governou-se para responder ao ciclo noticioso em vez de responder aos problemas do País.
A reflexão foi remetida para segundo plano. O imediato passou a ser pensado apenas em função do imediato. As consequências ficaram para depois. Sempre para depois.
Veja-se a reforma laboral.
Depois de uma longuíssima negociação, acabou travada precisamente pelo partido com quem a AD tem garantido a sua governação. O episódio vale menos pelo conteúdo da reforma do que pelo que revela: muito anúncio, muita comunicação e pouca construção política efetiva. Em dez meses (!!) quem mais interessava esteve sempre à margem. A política portuguesa tornou-se especialista em discutir o impacto da medida na hora seguinte e cada vez menos capaz de analisar e debater os seus efeitos daqui a dois ou três anos.
É neste contexto que vale a pena olhar para o congresso do PSD do último fim de semana. Entre slogans, palavras de ordem e fórmulas importadas da MAGA americana, voltou a surgir um fenómeno que se tornou recorrente: a tentação de copiar a embalagem, sem perceber o desgaste do produto.
Nos últimos dois anos e para lá dos comerciais do ar do tempo, não faltaram sinais sobre o que significaria normalizar o Chega. Da mesma forma, também não faltam evidências sobre o desgaste político e cultural do trumpismo em boa parte da Europa. Ainda assim, este Governo correu sempre atrás dos ares do tempo como se estes fossem uma estratégia. Mas não são.
São apenas a forma mais rápida de ficar refém deles.
O resultado está à vista. Um sistema que reage mais do que pensa. Que lança ruído mais do que comunica e que não decide.
E onde a expressão “a culpa é do PS” arrisca tornar-se apenas o último capítulo de uma política sem direção, para enganar os tolos, enquanto o Chega continua a oscilar entre o populismo desenfreado, o extremismo e a exploração calculada do ressentimento.
A política da espuma vive desta sucessão de impulsos. Da convicção de que basta dominar a narrativa do dia para controlar o futuro.
Acontece que o futuro tem o péssimo hábito de acabar sempre por chegar. E o País não ficou e não se tornará melhor ou “maior” com um Partido Social Democrata muito mais pequeno a governar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.