Prever o futuro é um exercício ingrato. Quando acertamos, dizem que era evidente. Quando falhamos, lembram-nos que ninguém tem o direito de brincar aos oráculos. Ainda assim, a política internacional vive de antecipação imperfeita, de leitura de sinais, de intuição informada. O verdadeiro erro não é prever mal, é fingir que o futuro não se prepara. Este 2026 não será um ano de revelações súbitas, será um ano de desgaste acumulado, em que várias placas tectónicas se movem ao mesmo tempo, tornando o sistema ainda mais instável.
A guerra na Ucrânia continuará a ser o grande eixo moral e estratégico do sistema internacional, e com enorme foco na Europa, mas entrará numa fase politicamente mais perigosa. O risco de 2026 não é a derrota militar de Kiev, é a tentação de uma paz apressada, vendida como realismo. Um cessar-fogo sem garantias sólidas, sem arquitetura de segurança nem compromisso de reforço militar europeu não é paz, é apenas um intervalo. Moscovo aposta no tempo, na fadiga das democracias e na erosão da vontade política europeia. A questão central não será se a guerra termina, mas em que termos e quem garante esses termos quando a atenção mediática se deslocar para outro foco de crise.
Essa escolha coloca a Europa perante o seu dilema mais antigo: querer ser potência sem aceitar plenamente o custo de o ser. A retórica da autonomia estratégica já não basta. Em 2026, a União Europeia será julgada pela sua capacidade de transformar dinheiro em produção, produção em capacidade militar e capacidade em dissuasão credível. O problema europeu é interno antes de ser externo. Convencer sociedades cansadas de que segurança não é um conceito abstrato, mas uma necessidade real, uma prioridade e uma inevitabilidade, será o verdadeiro teste político do próximo ano. Nenhum projeto amadurece sem conflito, e a Europa adiou durante demasiado tempo o conflito consigo própria e com quem não queira fazer parte deste projeto europeu.
A margem de manobra europeia dependerá, em grande medida, da política americana. As eleições intercalares de 2026 nos Estados Unidos não são apenas um ajuste de poder em Washington, são um teste à democracia americana. Uma América em campanha permanente tende a transformar a política externa em prolongamento da política interna e, quando isso acontece, aliados hesitam e adversários testam limites. A previsibilidade tornou-se um bem estratégico raro, e a sua ausência cria um mundo mais nervoso, mais reativo e mais propenso ao erro.
É nesse contexto que o Médio Oriente volta a ganhar centralidade. O conflito em Gaza não é um episódio encerrado, é um ponto de inflexão regional. Israel passou a olhar para o seu ambiente estratégico como um arco contínuo de ameaças, do Hamas ao Hezbollah, da Síria ao Irão. As palavras de Benjamin Netanyahu na Assembleia Geral das Nações Unidas não foram retórica para consumo interno, foram um aviso calculado.
Em 2026, a grande incógnita não é se haverá novos confrontos, é até onde Israel está disposto a ir para travar Teerão e até onde os Estados Unidos estarão dispostos a acompanhar ou a travar essa escalada. Um Médio Oriente instável drena atenção americana, pressiona mercados energéticos e fragiliza a Europa, criando oportunidades estratégicas para Moscovo e Pequim.
A China, por seu lado, continuará a jogar o jogo longo, mas com uma assertividade crescente. Taiwan permanece como o ponto de maior risco sistémico, não porque Pequim precise da guerra em 2026, mas porque o jogo de pressão permanente aumenta a probabilidade de acidente, de incidente naval, de erro de cálculo político. Taiwan tornou-se um teste existencial simultâneo para a China, para os Estados Unidos e para os seus aliados asiáticos. Não é por acaso que a maior fatia do orçamento militar americano está destinada a esta região. Quando demasiados atores tratam o mesmo dossier como vital, a margem para decisões racionais encolhe perigosamente.
Na América Latina temos dois atores importantes. O primeiro: a Venezuela continuará a ser, em 2026, um dos dossiers mais sensíveis e perigosos do sistema internacional. Caracas não é apenas um regime autoritário em colapso económico, é o principal ponto de ancoragem das presenças russa e chinesa no subcontinente. Moscovo utiliza a Venezuela como plataforma de projeção estratégica, militar e energética no hemisfério ocidental, enquanto Pequim consolida influência através de crédito, infraestruturas e dependência tecnológica. Para Donald Trump, a Venezuela não é apenas um problema regional, é um símbolo. Controlar o desfecho venezuelano significa redesenhar o equilíbrio de forças na América Latina e travar a expansão de adversários estratégicos num espaço que Washington considera vital. Em 2026, qualquer escalada, seja económica, diplomática ou militar, terá impactos que vão muito além de Caracas.
O segundo: 2026 será inevitavelmente um ano brasileiro. Lula prepara-se para tentar um quarto mandato, num país onde venceu o bolsonarismo nas urnas, mas não o derrotou culturalmente. Jair Bolsonaro, juridicamente afastado da corrida presidencial, continua presente como força política indireta, como rede, como linguagem e como ressentimento mobilizador. A eleição recente no Chile de um Presidente ideologicamente próximo de Donald Trump confirma que a direita iliberal latino-americana não recuou, reorganizou-se. Para Washington, o Brasil é a peça central de qualquer tentativa de reconfigurar o equilíbrio político regional. Sem o Brasil, não há influência sustentável no subcontinente.
África continuará a ser, em 2026, o espelho mais desconfortável da erosão da ordem internacional. Golpes militares, Estados frágeis e as presenças russa e chinesa cada vez mais pragmáticas estão a redesenhar influências no terreno. A Europa fala de valores, os outros oferecem proteção e contratos. Quem perde África perde voz no Sul Global, e quem perde o Sul Global perde capacidade de definir regras num mundo cada vez mais competitivo.
França entrará em 2026 num estado de pré-campanha permanente. As presidenciais são em 2027, mas será no próximo ano que se perceberá se Marine Le Pen poderá ou não concorrer, uma decisão com impacto profundo na democracia francesa. Emmanuel Macron chega a este momento politicamente desgastado, prisioneiro de maiorias instáveis e de um sistema que consome primeiros-ministros a um ritmo revelador de exaustão institucional. Quando França escorrega, a Europa sente.
Por cima de tudo isto, há uma transformação silenciosa que explica grande parte da turbulência. A economia deixou de ser neutra e passou a ser arma política. Sanções, tarifas, controlo tecnológico e cadeias de abastecimento fragmentadas produzem custos sociais que alimentam radicalização e voto de protesto. Em 2026, a inflação política continuará a corroer democracias que dizem a verdade demasiado tarde, enquanto os populismos prometem soluções impossíveis demasiado cedo. Teremos de estar atentos à economia e à política alemã.
O verdadeiro risco de 2026 não é uma guerra específica, é a normalização do improviso. Governos a reagir em vez de antecipar, sociedades cansadas de escolhas difíceis, instituições lentas num mundo acelerado. A História voltou a ganhar velocidade e, quando isso acontece, os países médios não ganham liberdade, perdem proteção. Portugal não é exceção. Num mundo onde as regras se tornam negociáveis, a distração deixa de ser um luxo e passa a ser um erro estratégico
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