Ao início de um novo ano junta-se o meu aniversário a 5 de janeiro. E, como manda a tradição íntima de quem já tem mais passado do que futuro por inventar, volto a prometer a mim próprio um novo ciclo. A diferença é que, desta vez, o ritual coincide com um marco administrativo: entro oficialmente na reforma aos 66 anos, depois de 43 anos de atividade profissional, incluindo serviço militar obrigatório, a tropa como dizíamos antes. Olho para mim e nem acredito. Embora, diga-se desde já, que não vou deixar de trabalhar, ainda tenho muito para fazer, dizer, escrever e incomodar, e vão ter de continuar a ‘levar comigo’, quanto mais não seja, pelo menos a falar dos realizadores e filmes que gosto e recomendo. Não vos digo quanto vou receber mensalmente de reforma — até porque a excitação dura pouco — mas dá pelo menos para as contas da farmácia, para o seguro de saúde (esse novo amor maduro que entrou na nossa vida e nos dá um pouco mais de segurança); e para assistir, com a devida melancolia cívica, à lenta degradação de uma das maiores conquistas do pós-25 de Abril: o SNS. Um sistema que envelhece connosco, mas pelo vistos, sem a nossa capacidade de resistência.
Entretanto, eis que o algoritmo, esse anjo torto do nosso tempo, — omnipresente nos nossos dispositivos digitais, sempre pronto a saber mais sobre nós do que gostaríamos — me oferece uma pequena alegria e até fiquei mais animado como o meu estatuto de ‘reformado’, para além dos descontos nos transportes, nos espectáculos público e nos museus. No Google Discover, essa curiosa mistura de horóscopo tecnológico com jornalismo de aeroporto, descubro num artigo de uma revista online de psicologia (que tem o singelo nome de Cottonwood Psychology) que afinal eu, e outros sobreviventes nascidos nas décadas de 1960 e 1970, pertencemos a uma espécie em vias de extinção cognitiva. Segundo psicólogos e estudos recentemente citados no referido artigo, crescemos a desenvolver capacidades mentais que hoje estão a desaparecer. Não é bem um Nobel, mas também não é pouco.
A tese é simples e profundamente ofensiva para quem acredita que a humanidade começou com o iPhone ou o iPad. Verifico que nós os cinquentões e sexagenários, aprendemos a viver sem gratificação imediata, sem tutoriais, sem ecrãs à excepção de um ou dois canais da RTP, a televisão pública — essa para muitos também uma escola de referências — a validar cada micro-emoção e a entreter-nos sozinhos. O tédio não era trauma, era matéria-prima. Quando não havia nada para fazer, ia-se para rua brincar ou inventava-se. Um livro, uma bola de meia, um jogo absurdo, uma tarde inteira em casa a ouvir um disco do princípio ao fim, sem saltar faixas e sem playlists ‘para relaxar’. Ou então, em dias menos poéticos ir para a rua mesmo, andar de bicicleta, andar à bulha ou à pedrada com os miúdos da rua de baixo, jogar à bola e partir o vidro da janela da vizinha do R/C, com um pontapé torto, mas a ter de resolver logo ali o conflito, com a mulher aos gritos a dizer que ia fazer queixa aos nossos pais e depois seguir caminho.
E as férias grandes? Essas pareciam nunca mais acabar. Ao ponto de, em agosto ou setembro, já termos saudades de voltar à escola em outubro, para rever os amigos. Hoje isso soa quase como uma heresia pedagógica, mas era real. O tempo esticava. O tempo ensinava. Era quase como ver o Stalker, de Tarkovsky, na infância: lento, exigente, formativo. Um filme que muitos de nós aliás vimos, não na infância claro, mas na adolescência, com o carimbo solene de “Filme de Qualidade”, numa sessão do saudoso Quarteto ou noutras salas semelhantes, quando ir ao cinema também era um exercício de paciência e não um consumo ansioso, em não sei quantos episódios e temporadas. Mesmo as séries de televisão havia que esperar, quase sempre, uma semana pelo próximo episódio ou capítulo.
A frustração vinha igualmente sem filtro parental. Não havia troféus por participação. Lá se ganhava uma extra pelo Natal ou na passagem do ano lectivo, mas só com boas notas e bom aproveitamento escolar: uns ténis Sanjo, umas calças de ganga da Levi’s ou da Lois — não havia cá muitas marcas e as espanholas eram mais baratas — ou uma bicicleta nova, porque a que tínhamos já chegávamos com os pés ao chão. Perdia-se, chorava-se, levantava-se. A vida não era justa e ninguém se dava ao trabalho de fingir que era. Aprendíamos cedo que falhar não era o fim do mundo, era apenas o mundo. Um mundo mais próximo de Os 400 Golpes, de François Truffaut, do que de um coming-of-age higienizado, embalado em lições morais pré-mastigadas, como tantos filmes da Netflix, filmes de super-heróis ou comédias adolescentes de Hollywood que confundem crescimento com merchandising emocional.
Crescemos a regular emoções à bruta, é verdade. Mandavam-nos ‘engolir o choro’, seguir em frente, não fazer grande escândalo. Pagámos um preço por isso — aprendemos tarde a pedir ajuda, a nomear fragilidades, a admitir cansaço — mas também ganhámos um auto-controlo que hoje faz falta num tempo em que cada contrariedade, cada frustração ou cada episódio de bullying se transforma imediatamente num post indignado. A tolerância ao desconforto foi treino diário: esperar, não ter, aguentar. Não havia ‘experiência personalizada’; havia realidade, com arestas.
Também treinámos a concentração como quem faz musculação sem saber. Ler durante horas, escrever cartas ou diários, ouvir discos inteiros, ver filmes até ao fim sem olhar para o relógio. Sentávamo-nos numa sala escura e deixávamo-nos levar por O Padrinho, Taxi Driver ou, mais tarde, já na década de 80, por Cinema Paraíso, sem interrupções, sem notificações, sem a ansiedade permanente de estar a perder outra coisa algures. Hoje chamam-lhe deep focus. Nós chamávamos-lhe simplesmente estar atento.
A gestão de conflitos fazia-se cara a cara. Não havia emojis para suavizar frases, nem bloqueios preventivos, nem cancelamentos digitais. Discutia-se, interpretava-se o silêncio, o tom de voz, o olhar. Aprendíamos a ler pessoas. Uma competência subtil, trabalhosa, imperfeita e que nenhum algoritmo consegue ensinar.
Nada disto significa idealizar os anos 60 e 70. Foram décadas duras, injustas, violentas em muitos aspectos. Em Portugal, antes e depois do 25 de Abril, não faltaram privações, medos, desigualdades e silêncios forçados. Mas talvez por isso mesmo aprendemos cedo que o mundo muda, que as regras não são eternas, que a História não vem com garantias. Crescemos a ver transformações reais, não updates. Mudanças com consequências, não versões beta.
Hoje, quando olho para as gerações mais novas, incluindo as minhas três filhas, não faço o discurso do ‘no meu tempo é que era’. Cada tempo fabrica as suas ferramentas e as suas fragilidades. Eles terão outras competências, outras formas de resistência, outros anticorpos. A nossa não é um modelo a seguir, é apenas um percurso. Mas convém não desperdiçar o que aprendemos pelo caminho.
Talvez a verdadeira vantagem de chegar à reforma não seja o tempo livre — que não vou ter espero, até porque faço o que gosto e trabalho no que os outros se divertem — mas a memória treinada, aliás, é um bom fundamento contra a demência. Saber esperar. Saber perder. Saber estar. Saber que a vida não é um feed infinito, mas um plano-sequência longo, às vezes aborrecido, às vezes sublime, que exige atenção até ao fim, como os filmes do Manoel de Oliveira e de outros cineastas que tanto admiro e continuo a celebrar.
E se há coisa que esta minha geração sem manual de instruções aprendeu é isto: sobreviver não é pouco. Pensar ainda menos.
Feliz Ano Novo de 2026, com menos pressa, mais memória e a coragem tranquila de quem já viu o filme inteiro e ficou até aos créditos finais.