Nestes tempos de luta política, a paisagem das cidades é assolada por cartazes insalubres carregadinhos de frases cliché que duvido muito – mas mesmo muito – que convençam alguém a votar. “Este cartaz está mesmo bom. Tem a fotografia de um líder partidário e a palavra ‘confiança’. É isto mesmo.”, disse ninguém, nunca.
Mais vale apostar forte e feio no digital, nas redes sociais, onde, de facto, é possível fazer um pouco mais do que “foto do candidato e frase entediante”. E assim, ao menos, o cidadão pode escolher não ver este tipo de conteúdo ao configurar a sua página para isso.
O passeio pela cidade, nestes dias, torna-se uma caminhada entre outdoors e cartazes em postes de eletricidade.
Alguns destes cartazes ficarão, eternamente, em exposição, pois haverá sempre os que escapam à recolha pós-eleição. São deixados de propósito? Escapam genuinamente aos militantes? Não interessa. Ficam lá.
A questão não fica, porém, pela política. Por onde quer que os pedestres andem, veem publicidade intensiva. Esta invasão do espaço público pela ideologia, pelo marketing, pelo negócio, está a objetificar a cidade – a torná-la num gigante outdoor visualmente poluente.
O caso de Lisboa é paradigmático: não basta as ruas com buracos, o lixo acumulado, casas vazias, o mau cheiro – os cartazes dão o golpe final.
Está claro que a cidade é ideológica: os quadradinhos “AL” por toda a cidade; os passeios estreitos e estradas largas; a existência ou não de ciclovias; a falta de espaços públicos verdadeiramente gratuitos – it doesn’t get more political than this.
Mas ser ideológica não significa ser feia.
Há boa propaganda e com bom gosto, é uma verdade. Do marketing político ao marketing empresarial, há toda uma comunidade de criativos que levam para a frente a forma de comunicar. E ainda bem.
Mas há, no entanto, limites que têm de proteger a decência. Não é saudável bombardear as ruas com interjeições, ordens, palavras, vote neste, compre aquilo, ligue para ali. É essencial proteger a liberdade dos cidadãos, não permitir estas tentativas constantes de condicionar e controlar comportamentos.
Que se invente rapidamente uma nova forma de fazer comunicação política. Uma comunicação para libertar e não condicionar.
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