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1. Deveria estar consagrada na lei a obrigação de os governos informarem com verdade os portugueses sobre as contas do Estado. Mais, deveria ser absolutamente acessível a informação sobre os gastos da administração, com compras de equipamento e serviços devidamente justificadas. Qualquer desvio à veracidade dessas informações seria punido com prisão dos responsáveis. Pode parecer uma medida bastante radical, mas talvez fosse esta a única forma de evitar que os contribuintes sejam sucessivamente confrontados com “desvios colossais” nas contas públicas, sempre que muda a cor do Executivo. Esta vergonhosa prática já dura há tempo de mais, permitindo aos que saem enganar os cidadãos a seu bel-prazer e aos que entram encontrar justificações para aplicarem medidas que sempre rejeitaram, nas campanhas eleitorais.
Vem isto a propósito da tão badalada frase do primeiro-ministro, segundo a qual teria encontrado um “desvio colossal” nas contas. Qualquer coisa como mais de 2 mil milhões de euros que o Governo se apressou a ir buscar aos bolsos dos mesmos de sempre. Para um primeiro-ministro que passou a campanha eleitoral a garantir que tudo se resolvia pelo corte na despesa, a solução encontrada não podia ser mais contraditória. É absolutamente impressionante que um partido aparentemente tão intransigente com as gorduras do Estado, com a dimensão das administrações central e regional, chegue ao Governo e aos costumes diga nada. Parece que estão a estudar a coisa… Acontece que Passos Coelho foi eleito em março de 2010 para a liderança do PSD; fundou grupos e grupinhos de estudo e de reflexão; teve a apoiá-lo economistas que papagueavam a mesma ladainha e, depois, chega ao Governo e não faz ideia da dimensão da dívida do Estado?!
Mas há outros aspetos em que este Governo, sendo pequeno, vai muito à frente. Já não esbulha os contribuintes pelo valor real do buraco que encontrou, mas sim como medida preventiva. No caso atual, o défice é de cerca de mil milhões, mas o Executivo, à cautela, pretende recolher o dobro. Se isto fosse uma guerra, Passos mandaria o seu ministro da Defesa disparar um míssil mesmo sabendo que do outro lado só havia fisgas.
Não são o estilo e as falinhas mansas que devem fazer abrandar a vigilância sobre o Governo. E se há medidas difíceis a tomar, vamos a elas. O problema é que, mais uma vez, a equidade e a justiça ficam de fora das propostas do Executivo. Os juros, os dividendos das ações e os lucros das empresas não vão ser taxados pelo imposto extraordinário recém-anunciado. Numa altura em que a todos se exige um esforço, mesmo àqueles que não têm hipótese de ter poupanças, é absolutamente incompreensível a posição do Governo. Ou melhor, entende-se: é apenas uma questão ideológica.
2. No Conselho Nacional do PSD da semana passada já houve dirigentes das distritais a clamar pela necessidade de um interlocutor para “agilizar” os contactos nos ministérios. Ou seja, depois de verem escapar-se muitos jobs com a nomeação de “demasiados” ministros independentes, eis o aparelho partidário a querer rapidamente dar a volta à situação. Já que não podem estar lá sentados, o mínimo é ter um boy de serviço para facilitar a rápida fluência dos negócios. Passos Coelho respondeu-lhes bem, mas é melhor não baixar a guarda. Eles não vão desistir.