Por mais que se tente, não se consegue descortinar a lógica das listas feitas por Manuela Ferreira Leite. Veja-se as coisas por qualquer dos ângulos possíveis, só há uma conclusão a tirar: ela perde sempre. Mesmo que eventualmente viesse a ganhar as eleições objectivo que este processo pode ter comprometido em definitivo, a líder do PSD já terá deixado pelo caminho as sementes da discórdia e da desunião. Ora, dita o bom senso, discórdia e desunião são obstáculos que qualquer aspirante a político deseja evitar, sobretudo quando se almeja governar um país e se vive um processo eleitoral.
Claro que se passarmos para o plano dos princípios, um líder não devia olhar para o momento de forma meramente oportunista, sendo-lhe, pelo contrário, exigível um comportamento exemplar quando se trata de dar orientações de referência para o cabal exercício da democracia. Um líder que retalia opositores e se vinga de quem lhe faz críticas é um ser fraco, de quem tudo é expectável para conservar o poder, e que no limite encontrará argumentos para impor a tirania. Nelson Mandela perdoou aos algozes numa grandiosa demonstração da sua estatura moral e cívica e deu à sociedade do apartheid e da exclusão a mensagem de que nada pode ser construído sobre os escombros da luta fratricida e sem o exercício pleno desse sistema de valores que é a democracia.
É utópico pensarmos num mundo liderado por gente como Nelson Mandela, mas temos o dever de ser exigentes com quem nos governa ou quer governar e de escrutinar, sem subterfúgios ou leituras complacentes, actos que, por si só, são definidores da sua visão do mundo. Ora, Manuela Ferreira Leite exibe, neste seu acto essencial para a construção de uma alternativa que é a apresentação das suas listas eleitorais, um conjunto de sinais pouco abonatórios sobre a sua personalidade e sobre a sua concepção de liderança.
Mostrou-se autoritária e vingativa com os críticos; desconsiderou figuras gradas do partido; permitiu e colaborou com o amiguismo e o nepotismo; e fechou-se no seu círculo de indefectíveis como se o PSD fosse geneticamente manipulável, extirpando-o da sua condição de partido plural e personalista, o que resta do inconformismo de Sá Carneiro? Enfim, as listas de Manuela são inomináveis no sentido em que não se lhes descortina utilidade nem lógica, mas acabam por trazer ao de cima as fragilidades desta democracia. Fosse ela forte e pujante e seria impossível descortinarmos neste processo o medo de que nos fala o imortal Drummond de Andrade. “Em verdade temos medo./ Nascemos escuro./ As existências são poucas: carteiro, ditador, soldado./ Nosso destino incompleto.” O medo paralisa a acção e a falta de acção atrofia a democracia e com ela a liberdade. A pequenez e a inveja fazem o resto. Há quem goste de jogar o jogo do medo, inebriando-se com os resultados de curtíssimo prazo. Puro engano!
As listas tiveram o condão de revelar a verdadeira Manuela. Há sonsos que mostram sorrisos e escondem as garras. Ela não gosta de rir e prova que tem as garras afiadas. Só se engana quem quer.