O jogo entre o Estrela da Amadora e o Benfica do último domingo só não foi um daqueles jogos para arquivar na prateleira dos “para esquecer” por causa do desempenho dos jogadores da equipa da casa. Curiosamente, aqueles que menos motivos tinham para se empenharem a fundo.
Os portugueses vão estando, infelizmente, habituados às notícias de empresas que fecham, que não pagam salários aos funcionários. E revoltam-se, preocupam-se. Mas quando se trata de equipas e jogadores de futebol, o sentimento é diferente. À mente vem sempre o estereótipo do futebolista: rapaz novo, cheio de dinheiro, com bons carros e rodeado de mulheres. Daí que pouco se preocupem com a ideia de que um jogador de futebol não receba ordenado vai para meio ano. “Já ganhou muito, tivesse poupado”, pensa muita gente. Mas esquecem-se que Cristianos Ronaldos há muito poucos e que, em Portugal, só uma minoria dos jogadores ganhará verdadeiras fortunas. Muitos ganharão apenas a quantia razoável para compensar o facto de desempenharem uma profissão de curto alcance. Outros nem isso.
Sem receber ordenados há cerca de meio ano, os membros do plantel do Estrela da Amadora deram uma lição de profissionalismo, de respeito pelas cores que defendem, enfim, de brio pessoal. Não ganharam, é verdade, mas deram muito mais do que, perante as circunstâncias, lhes era exigível. Basta imaginar o que cada um de nós sentiria se não recebesse ordenado há seis meses e facilmente se percebe o quão louvável foi a atitude dos jogadores do Estrela da Amadora. Ainda para mais quando, do outro lado estavam alguns dos mais bem pagos (e a horas, consta) do futebol português. A diferença de atitude e disponibilidade para o trabalho foi de tal maneira flagrante que, quem tivesse aterrado, no último domingo, na Reboleira vindo de Marte acharia com facilidade que quem não recebe o ordenado há seis meses eram os de vermelho.