“Atrai-me sempre esse pequeno espaço – a pessoa… Uma pessoa. Na verdade, é aí que tudo acontece”. Assim se poderia resumir a linha de força da obra de Svetlana Aleksievitch, jornalista bielorrussa que acaba de ser distinguida com o Prémio Nobel da Literatura, atribuído na passada quinta-feira. Para os membros da Academia Sueca, estamos perante uma escrita “polifónica” que ergue, no seu conjunto, “um memorial ao sofrimento e à coragem na nossa época”. E é através das experiências, dos testemunhos, das memórias e depois das vozes de pessoas, de muitas pessoas, que Svetlana dá conta do que foi a história do século XX europeu e, em particular, da União Soviética e da Rússia. Jornalismo e não ficção que tocam as fronteiras da Literatura, num trabalho de reescrita de centenas de entrevistas, em que o autor se esconde por trás das suas personagens reais.
Não é a primeira vez que o Nobel da Literatura distingue um jornalista ou até quem só tenha escrito não ficção. Basta lembrar os casos de Gabriel García Márquez (jornalista de muitos romances) e de Winston Churchill (distinguido pelas suas memórias). E a escolha de Svetlana nem foi totalmente surpreendente, já que estava nos primeiros lugares das casas de apostas e tinha sido referenciada em anos anteriores. Os seus livros, no entanto, desafiam convenções e géneros, num estilo único. “Aleksievitch conseguiu criar uma obra convincente e informativa, mas num estilo que é próprio, ao mesmo tempo sóbrio e indignado, de uma complexidade delicada e subtil, com o qual denuncia implacavelmente os horrores mais intoleráveis e atrozes”, escreveu o ensaísta e escritor Alberto Manguel na edição do passado domingo do jornal El País, de Espanha. “Os seus livros dão voz a quem foi condenado ao silêncio: as vítimas pertencentes a comunidades minoritárias, os soldados obrigados a combater em campanhas injustas e impossíveis, aos mortos”, acrescentou.
Para António Pescada, tradutor da única obra da nova Prémio Nobel da Literatura publicada em Portugal, O Fim do Homem Soviético (Porto Editora, 472 pp, 19,90 euros), de onde tiramos a citação de abertura deste texto, a força da escrita de Svetlana também reside nessa dimensão de denúncia. “São histórias terríveis de pessoas reais”, sublinha. “Sobre ela diria que é Dostoievski mas mais duro”. A tradução deste livro revelou-se, por isso, uma “experiência dolorosa”, num confronto com o passado recente. Com a experiência de versões portuguesas de Tolstoi e Dostoievski, entre outros, Pescada explica esse incómodo com o facto de Svetlana não tomar partido. “Depois de um intensíssimo trabalho de pesquisa, de recolha de informação e de entrevistas, ela dá voz a várias pessoas que expressam pontos de vista muito diferente entre si.”
O entusiasmo por esta abordagem à literatura é partilhado pelos dois editores portugueses da jornalista bielorussa. Guilherme Pires, responsável pela Elsinore, que já tinha garantido o direitos de publicação de Voices from Chernobyl, considerada uma das suas obras mais importantes, sublinha a recriação da memória. “Ausentando-se do texto, Svetlana socorre-se do monólogo para a torrente de memórias, num trabalho que transforma em literário o que de início é um texto de não ficção.” O fundo jornalístico nunca desaparece e é ele, aliás, que permite interrogar o nosso tempo: “Todos os seus livros são sobre a Rússia e a União Soviética, sobre conflitos e acontecimentos do passado que ajudam a compreender o presente.”
Manuel Alberto Valente, editor da Porto Editora, foi alertado para O Fim do Homem Soviético por ter sido considerado o “melhor livro estrangeiro” publicado em França, em 2013. “Fiquei absolutamente convencido de que estávamos diante de uma obra que tinha de ser editada em Portugal”, disse à Lusa. A aposta revelou-se certeira. Pelo segundo ano consecutivo tem no seu catálogo o vencedor do Prémio Nobel, depois de em 2014 ter festejado a atribuição a Patrick Modiano. “Há nela sobretudo uma análise do perfil do homem russo”, sublinha. “Todos nos convencemos que, com a queda do império soviético, haveria da parte do povo um sentimento de satisfação pela conquista da liberdade, pelo fim de uma regime ditatorial, e o que ela reflete neste livro, através de centenas de testemunho, é que não foi isso que aconteceu”. Na sua opinião, este livro pode ajudar a perceber a liderança de Vladimir Puttin. “Na verdade, houve um grande desencanto no povo russo e uma espécie de saudade dos tempos gloriosos em que a Rússia era de facto um grande império universal. Isso explica, como Svetlana mostra perfeitamente, o recrudescimento, entre os jovens, de um grande culto de Estaline e de uma grande ambição de que a Rússia possa voltar a ser o espaço geográfico dominante no mundo”.
Svetlana Alexievich nasceu em 31 de maio de 1948, em Ivano-Frankivsa, na Ucrânia, na altura sob o domínio da União Soviética, embora tenha crescido na Bielorrúsia, país do seu pai. Cursou jornalismo na Universidade de Minsk, entre 1967 e 1972, iniciando mais tarde colaborações em diversos jornais e revistas. Voz crítica e independente, viu-se forçada ao exílio, em 2000, devido às perseguições do presidente Alexander Lukashenko. Regresosu à Bielorrúsia em 2011, a Minsk, onde vive e recebeu a notícia da Academia Sueca. Estava a passar a ferro quando lhe telefonaram e como só fala russo teve dificuldade em perceber logo do que se tratava. “Fantástico”, disse quadou descodificou a mensagem.
Autora de reportagens e de contos, Svetlana Alexievich deve ao escritor bielorrusso Ales Adamovich o incentivo para criar o seu próprio estilo, que já foi descrito como “romance colectivo” ou “coro épico”. “Procurei durante muito tempo o género que correspondesse à forma como vejo o mundo. E escolhi o género das vozes humanas”, afirmou numa entrevista. “Construo os meus livros a partir da rua. Neles, diversas personagens reais falam sobre os diferentes acontecimentos do seu tempo: a guerra, o afundamento do império soviético, Chernobyl, e todos juntos refletem nas suas palavras a história do país, a história comum. A velha e a mais recente. E a de cada um, a história do seu pequeno destino humano”.
História e memória cruzam-se, assim, em vários relatos baseado no passado recente da esfera de influência da antiga União Soviética. Em War’s Unwomanly Face aborda a participação das mulheres da II Guerra Mundial. O mesmo conflito é retrato em The Last Witnesses, centrado nos horrores vividis pelas crianças. Usando sempre o mesmo artifício literário, debruçou-se ainda , entre outras temáticas, sobre a invasão soviética do Afeganistão, em Zinky Boys, e o desastre de Chernobyl, em Voices of Chernobyl. Tanto Manuel Alberto Valente, quanto Guilherme Pires, manifestaram interesse em prosseguir a publicação da obra da escritora bielorrussa, esperando chegar a mais acordos com os agentes na Feira do Livro de Frankfurt, que decorre até ao próximo dia 18.
“Atualmente, a humanidade está muito diversificada e demorei a perceber como é misteriosa a história de uma vida ou a documentação da sua história, até porque é o que nos aproxima mais da realidade”, afirmou Svetlana Alexievich. “E a realidade sempre me atraiu, como um íman. Ela tortura-me, hipnotiza-me, quero capturá-la na minha escrita”.