É muito provável que Manuel Caldas (Libri Impressi) seja um dos melhores editores nacionais, e não especificamente de BD. Nas suas edições de obras clássicas há um cuidado obcessivo com a qualidade das reproduções, com a revisitação das pranchas, com o formato. No processo criativo (porque disso também se trata) de retocar e mesmo recolher os melhores elementos de diferentes reproduções de uma página para obter um perfeito “original” Manuel Caldas limita-se interpretar o que a obra lhe pediu. Não se preocupa com estudos de mercado, no público-alvo. Em pensar se é viável uma edição integral, se um dado livro vai caber em prateleiras, ou poder ser arrumado junto a livros semelhantes. Sem concessões que não a si mesmo. E isto é necessariamente bom? Claro que não. Se fosse Caldas teria muito mais sucesso com livros que deveriam ser obrigatórios para arquitectos, cenógrafos, cineastas, ilustradores, escritores, aderecistas, actores, artistas plásticos, filósofos, linguistas, sociólogos, criativos. E autores, quaisquer que sejam os seus interesses ou influências. Ou “apenas” leitores curiosos e exigentes que nunca folheram uma banda desenhada. As suas mais recentes propostas são o terceiro volume do “western” Lance de Warren Tufts (1957-58) publicado originalmente em jornais, e o notável “romance sem palavras e também sem música” Ele foi mau pra ela (He Done Her Wrong) de Milt Gross (1930).
Inspirado em Prince Valiant de Hal Foster, Lance é visualmente magnífico na sua representação de personagens e grandes espaços, chamando a atenção não só pelo traço, mas pela aplicação de cor, muitas vezes sem a ajuda de linhas a delimitar as manchas. Neste volume é muito interessante ainda notar a ligação entre as tiras diárias a preto e branco e as pranchas dominicais a cores (podem ser lidas quase de forma independente), ou as hesitações entre o uso do texto didescálico e balões. Narrativamente o tom mescla aventura com melodrama, como se “westerns” clássicos tivessem sido revistos por um admirador pouco subtil de Douglas Sirk. Um exercício “herético” que se proporia seria o de “ler” ignorando o texto, ou mesmo sugerir aos leitores que o substituissem por outro de sua própria invenção. A força de Lance está no espantoso desenho.
Apesar de não ter palavras, o interesse de Ele foi mau pra ela não está bem no traço caricatural “excessivo” de Milt Gross, mas no modo como este sugere a narração, em tons que misturam o melodrama, a comédia de enganos, o “slapstick”, a ação/aventura, e o teatro “vaudeville”. Como sugere Nuno Franco na sua introdução, a experiência isolada que foi Ele foi mau pra ela na obra de Gross está longe do rigor de autores da mesma época como Frans Masereel ou Lynd Ward (estarão na lista de Caldas?), ou mesmo dos seus descendentes mais notáveis, como Eric Drooker ou Peter Kuper. Mas Gross tem o grande mérito de, ao contrário dos restantes, valorizar a representação do concreto em detrimento da grandiosidade simbólica, que é sempre mais fácil de sugerir. Por outro lado, e apesar da inevitável tipificação das personagens (“bom”, ingénua”, “mau”), a mistura de estilos e tons sugere uma constante experimentação, e algumas das soluções encontradas por Gross em momentos concretos de uma longa narrativa são brilhantes. Duas obras absolutamente recomendáveis que, caso não se vejam pelas livrarias, se podem sempre encontrar em (www.manuelcaldas.com).
Ele foi mau pra ela. História e desenhos de Milt Gross. Libri Impressi, 270 pp., 16 Euros.
Lance 3. História e desenhos de Warren Tufts. Libri Impressi, 190 pp., 24 Euros.