Depois de Valentina ter comprado o clube de Libério, começou a estar na moda ser ucraniano em Portugal e não havia imigrante de Leste que não quisesse fazer-se passar por cidadão da Ucrânia. Os Portugueses também começaram a olhar os ucranianos com mais admiração, o que acabou por se repercutir negativamente no mercado de trabalho na medida em que os patrões se sentiam constrangidos com o pagamento de salários baixos a tão notáveis indivíduos e em muitos casos simplesmente deixaram de os contratar. Eu, mesmo que quisesse fazer alarde das minhas raízes, não podia, pois a nacionalidade ucraniana fora-me confiscada na altura em que obtive a portuguesa. Além disso, há anos que considero Lisboa a minha pátria e não era agora que me havia de pôr a dizer que era oriunda da Ucrânia. Por isso me surpreendi quando Libério me cumprimentou, em tom de desprezo, com estas palavras:
– Então, ucraniana, estás boa?
– Não, vou para Lisboa – respondi, e comecei a andar na direcção do parque de estacionamento, onde tinha deixado o carro.
Tinha ido ao Guincho de propósito para me encontrar com ele, depois de ele me ter telefonado a dizer que precisava urgentemente de me ver, mas que não lhe apetecia conduzir até Belém. Ainda pensara dizer-lhe para apanhar um táxi, mas acabei por me render às suas exigências e lá fui – isto apesar de já passar das onze da noite e de eu imaginar a ventania que devia estar naquela praia.
– O que é que te deu? – disse ele, correndo atrás de mim e agarrando-me pelo braço, com aquelas possantes mãos a que eu sucumbira tantas vezes.
– Não gosto que me trates assim, sabes bem.
– Queres que te chame o quê? Portuguesa?
– Sou tão portuguesa como tu, só não posso é candidatar-me à presidência da República, de resto…
– Estou a ver que estás mal-humorada – disse ele, pondo as mãos nos bolsos. Tinha uma T-shirt branca ligeiramente aberta no peito que lhe fazia resplandecer os dentes e o olhar, além de lhe evidenciar os músculos do tórax.
– Olha, está muito frio. Vamos mas é embora – disse eu, sem paciência para as humilhações dele.
– Senta-te ali comigo no carro um bocado – mandou.
O carro dele parecia um tanque de guerra. A publicidade que o acidente de Paulo trouxera àquelas bestas americanas nem a ele tinha deixado indiferente e desde então este já era o segundo jipe daqueles que eu lhe conhecia, não obstante o preço exorbitante a que a gasolina tinha chegado e uma vez que eles não andavam a gasóleo.
Ele tinha estacionado de frente para o mar e por momentos ficámos calados a contemplar o oceano, o céu, a noite – parecíamos duas araras mudas em cima de um poleiro, tão alto que era o chassi e dado que estávamos mesmo no topo da encosta. Eu suspirei e ele disse:
– Merecias era que te matasse.
– Porquê? – perguntei, assustada com o rumo da conversa.
– Há quanto tempo é que sabias da compra do clube? – perguntou, em tom de acusação.
– Sei lá… – disse, tentando fazer contas ao tempo.
– Eu digo-te: há quatro anos que tu sabias!
– Não era bem saber… – disse eu, e depois expliquei-lhe mais ou menos os moldes em que as coisas se haviam passado na realidade, e outra alternativa não me restou, pois ele disse que Valentina lhe tinha contado tudo.
– Porque é que nunca me disseste nada? – perguntou, desapontado.
– Primeiro porque não te queria chatear e depois porque estavas demasiado ocupado a fornicar a brasileira – desforrei-me.
– Vingança… – disse ele, arrastando a palavra entre os dentes. – Foi por isso que lhe disseste que eu odiava ucranianos? – perguntou ele.
– Nunca lhe disse nada disso, nem nunca falei de ti com tal pessoa – repostei.
– Curioso… Porque o que ela me disse hoje foi precisamente o contrário.
Seria possível que ela lhe tivesse dito semelhante mentira? Mas com que finalidade e como saberia ela da minha relação com ele?
– Ouve com atenção, minha linda: não te voltes a meter na minha vida – disse ele com o dedo indicador espetado na ponta do meu nariz. Seria uma ameaça? Pela maneira como olhava, parecia. Saí do carro a correr e pela primeira vez na minha tive medo dele. Logo hoje que tinha deixado a Browning noutra mala…
Na manhã seguinte, tentei entrar em contacto com Valentina, mas nenhum dos números que ela me tinha dado parecia funcionar. Para minha surpresa, ela própria me ligou dois dias depois.
– Não me disseste? Lembra-te lá bem, Nádia: Olha que disseste – respondeu ela quando a confrontei com a calúnia que levantara contra mim e lhe disse que nunca lhe contara nada semelhante.
– Olhe que está a fazer confusão, Valentina – disse eu, cheia de vontade de lhe chamar uma grandessíssima intriguista e aldrabona.
– Mas nem vale a pena estarmos a perder tempo com este assunto porque a partir desta temporada ele diz adeus ao clube e a verdade é que ele não passa de um chauvinista de primeira apanha – rematou, e a conversa ficou naquele ponto porque ela não me deu a menor possibilidade de retorquir, desligando-me o telefone na cara com a desculpa de que tinha coisas mais urgentes para tratar.
Entretanto o embaixador da Ucrânia contara à minha mãe que o apelido de solteira da milionária era Gulbenkian – o que qualquer pessoa de Leste identifica imediatamente como arménio. Isso explicava a sua tez escura e os traços um tanto ou quanto orientais da sua cara. Até aqui nada de espantos. Sempre houve muita gente originária do Cáucaso a viver na Ucrânia. O que foi de pasmar foi o que a minha mãe me disse a seguir:
– Diz que é bisneta do Calouste.
– Daquele do Museu? – perguntei, achando que aquilo só podia ser brincadeira.
– Sim, do da Fundação! – exclamou a minha mãe.
– A mulher é chanfrada! – respondi.
– Olha que não sei… O embaixador está convencido com o que ela diz…
A história que a minha mãe me contou a seguir tinha tanto de fantástico como de burlesco. Parece que nas suas andanças pela antiga Transcaucásia, o jovem negociante de petróleo, rejubilando-se com a independência da Arménia, teria feito escala em Erevan para felicitar o seu amigo Avetis – que conhecera anos antes em Paris e que entretanto se tornara uma das figuras mais importantes da revolução arménia – pelo êxito das suas investidas contra os Turcos. A acreditar nas palavras de Valentina, nessa incursão pelo país das montanhas, Calouste teria emprenhado a jovem criada de servir do amigo, que não era outra senão a sua própria bisavó. Desse fugaz relacionamento terá nascido Zada, mãe de sua mãe, a qual, por sua vez, se terá casado com um soldado do Exército Vermelho e ido morar para Kiev, onde terá procriado e vivido o resto da sua vida.
– Que novela mais estrambótica… – disse eu, depois de ouvir este relato.
– O mundo é pequeno – disse a minha mãe.
Se até aqui esta história já parecia inverosímil, o que veio a seguir era mesmo de embasbacar, uma vez que – a acreditar no que o embaixador confidenciara à minha mãe – Valentina se preparava para reclamar vinte e cinco por cento do património deixado por Calouste ao Estado português. Mas o que levaria uma mulher com tanto dinheiro a expor a história secreta da sua família perante o mundo inteiro? Será que a sua avidez não tinha limites? Será que havia uma motivação encoberta por detrás da sua atitude? E qual seria o interesse dela em pôr Libério contra mim? – eis as interrogações que durante dias não me saíram da cabeça.