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Ando mesmo mudada. Agora até me dá para ver a CNN. Antigamente fugia dos noticiários a sete pés, mas de repente comecei a interessar-me pelo que se passa no mundo e comovo-me facilmente com as desgraças que vejo na televisão. Mesmo assim um dia destes apanhei uma barrigada de rir. Estava a ver um programa sobre os presidentes americanos do século passado. Plena Guerra Fria. Muro de Berlim a postos. Kennedy chega à Alemanha. No seu discurso histórico diz que todos os homens têm o direito de viver em liberdade e aconselha aqueles que não acreditarem nos malefícios do comunismo a irem até Berlim, para verem in loco. Depois, termina o discurso, pensando que está a dizer: “Também eu sou um cidadão de Berlim”, ou seja, uma pessoa que aspira viver no mundo livre, com a frase “Ich bin ein Berliner”, o que afinal queria dizer “Sou uma bola-de-berlim” – que é precisamente como me sinto, desde que faço parte do mundo sem restrições alimentares e fiquei livre para engordar à vontade. Mandei instalar um televisor no meu gabinete. Se calhar também devia pensar num pequeno frigorífico. Tenho a gaveta da secretária a abarrotar de bolachas. Como-as às escondidas. Não tenho paciência para sermões e também sei que não devia comer tantos doces, por causa da diabetes gestacional e outras complicações que o excesso de peso durante a gravidez pode trazer. Tenho receio que o conflito do Iraque se perpetue através do Afeganistão e que o meu filho tenha de ir à guerra devido a essas alianças militares que obrigam os países mais pequenos a envolverem-se em conflitos internacionais e sempre que penso nisso apetece-me logo comer mais.
“Tem juízo!”, diz a minha mãe quando me vê nestas preocupações desnecessárias e talvez tenha razão. Acho que vou ter um menino, ela diz que vou ter aquilo que me estiver destinado.
Se calhar fiz mal em me deixar engravidar. Ainda tinha tempo para fazer um aborto, se quisesse. Mas só de pensar em ter de passar outra vez por aquilo tudo, desisto logo da ideia. Ponho-me à espera que o destino resolva a situação por mim. Há tanta gente que tem abortos espontâneos, pode ser que me aconteça o mesmo. Mas Deus queira que não. Ainda não fui ao médico, nem sei se vá. Há mulheres que têm os filhos na selva, na guerra, na prisão e não morrem por causa disso. Também se morresse não se perdia grande coisa. Sempre me podia matar, mas não tenho coragem, e nem a vida me corre assim tão mal e nem eu estou assim tão gorda. Se tivesse a quem deixar a agência ia mas era para casa, pensei eu desligando a televisão e chamando Másha ao meu gabinete.
– Nem acredito que tenhas essa cegarrega desligada – disse ela assim que entrou.
– Olha, vê lá se me consegues desmarcar a reunião com os cirurgiões plásticos – disse eu.
Não estava com pachorra para os ouvir. Queriam pescoços, braços, nádegas, mamas, barrigas e todo o tipo de partes do corpo, de modelagem perfeita, para os anúncios do antes e do depois da clínica de cirurgia estética que se preparavam para abrir nos arredores de Lisboa.
– Mas não podemos descurar esta oportunidade! – alertou ela. – Não estamos em tempo de esquisitices!
Ela estava coberta de razão. Que viessem os médicos. Não era um contrato de se deitar fora. Mas primeiro – ela tinha dito bem – tínhamos de os apanhar. Ia tentar, logo se via.
– Queres que eu assista à reunião? – perguntou, inesperadamente.
– Por mim… – respondi, surpresa com a proposta.
– É que tenho medo que deixes fugir os homens – disse ela. – E temos mesmo de os agarrar.
Sim, nisso de deixar fugir os homens era perita, tinha de concordar. E enquanto eu divagava ela anunciou que ia arrumar a sala de reuniões, que não via ordem desde tempos imemoráveis.
Os médicos chegaram pontualmente às cinco da tarde, conforme estava combinado, o que até me admirou, mas só um deles na verdade era médico. Os outros eram empresários e pelo menos um deles tinha uma papada tão grande debaixo do queixo que dava vontade de lhe perguntar porque é que ele próprio ainda não tinha posto a faca naquelas peles. Mas todos eles eram simpáticos e a ideia que transmitiam era a de estarem ali para despachar o negócio e não para arranjarem entraves à sua concretização. Podia ver que Másha se tinha preparado a sério para a reunião. Puxou pelos galardões da empresa mais vezes do que seria necessário, tinha argumentos e contra-argumentos para todas as objecções e quando as negociações pareciam chegar ao fim levantou-se e deu uma volta ao redor da mesa com uma minuta do contrato, que foi distribuindo pelos presentes – o que me surpreendeu porque nada daquilo estava previsto e também porque a mesa não era grande e os homens eram só três. Todos sorriram ao pegar na papelada e olharam para ela com tanto enlevo que até parecia que estavam a admirar uma estatueta rara. Mais atraente do que ela estava – era difícil. Vestia um conjunto saia-casaco lavanda e uma blusa de chiffon ligeiramente mais escura, que, debaixo do blazer abotoado, se deixava vislumbrar apenas pelos punhos e ainda pelos folhinhos que lhe caíam em cascata sobre o decote do casaco. Devia ter uns doze centímetros e meio de saltos e o cabelo – muito louro – apanhado numa banana. Não se podia apontar um dedo à sua maquilhagem – discreta e a condizer com o tom claro da sua pele e o ar romântico da sua toilette, mas a verdade é que mesmo que não tivesse pintado a cara nem vestido aquela roupa, não passaria com certeza despercebida, porque era jovem e bonita e tudo lhe ficava bem.
Os homens passaram uma vista de olhos pelos papéis e depois o da papada no queixo disse para o colega que estava sentado à sua frente e que pelos vistos era jurista:
– Que te parece?
– Parece-me bem – respondeu o outro, depois de se ter detido durante alguns minutos na apreciação da papelada.
– Então, não se engonha mais isto, assina-se já o contrato e pronto – disse o papudo, e procedemos à formalização do contrato.
Quando eles se preparavam para sair, quase que caí na tentação de os convidar para jantar, mas felizmente contive-me, pois ainda era cedo e também não estava com paciência para fretes. Másha dava pulos de alegria. Pudera, estava habituada a receber cinco por cento dos lucros da empresa ao fim do ano. Rute era assim. Dizia que a ganância dava mais a perder do que a ganhar e que um funcionário satisfeito lhe rendia mais do que dez insatisfeitos. Se calhar tinha razão. A verdade é que toda a gente ali se sentia como em casa e lutava com unhas e dentes para manter a empresa a funcionar normalmente, apesar da ausência forçada de Rute.
– Anda jantar comigo lá a casa – convidou Másha quando já estávamos na rua e prestes a
despedir-nos.
– Não posso – disse eu, admirada com o convite dela, pois nunca tínhamos estado na casa uma da outra.
– Olha, vou dizer à minha mãe para pôr mais um prato na mesa – insistiu, pegando no telemóvel.
Não era que me apetecesse ir com ela, mas lá fui levada por não ter nada melhor para fazer. Morava com os pais num apartamento que eles dividiam com outros dois casais ucranianos, na Quinta do Borel, Amadora. Para a zona em que estava inserido, o bairro pareceu-me agradável e limpo. Mal entrámos à porta do prédio, deparamo-nos com os pais dela à nossa espera debruçados sobre o corrimão das escadas.
– Ainda bem que vieste, Nádiusha! – disse a mãe, fazendo-me uma grande festa, embora fosse a primeira vez que me visse, e encaminhando-me para dentro de casa. No hall – três filas de sapatos e alguns chinelos disponíveis. Já me tinha esquecido daquele hábito. Há anos que não me descalçava para entrar na casa de ninguém. Os outros casais também me vieram logo cumprimentar, todos eles muito lavachados, em trajes domingueiros e de pantufas. A cozinha era bastante espaçosa, com uma mesa quadrada no centro e um cheirinho a borsh de fazer crescer água na boca.
– Se a Másha nos tivesse avisado com mais antecedência, tínhamos preparado um jantar melhor… – desculpou-se a mãe, embora houvesse de tudo um pouco naquela mesa, incluindo uma espécie de salada russa muito popular na Ucrânia a que se dá o nome de Oliviê e que, embora simples e de confecção rápida, se costuma comer apenas em ocasiões especiais. Depois do jantar, veio o chá, com bolinhos de requeijão. Por incrível que pareça, consegui resistir à tentação e não comi rigorosamente mais nada durante todo o serão, o que não foi fácil, porque quando um ucraniano começa a insistir que se coma, é quase impossível dizer que não. A viver assim tão modestamente, faço ideia do dinheiro que Másha não teria já juntado. Se calhar dava para comprar uma casa na Ucrânia. Nunca imaginara que ela vivesse assim. No entanto, andava sempre alegre e bem-disposta e parecia que nada lhe faltava e até ia várias vezes em excursões de autocarro a Marrocos, com a ucraniada toda atrás e arranjava sempre dinheiro e paciência para vir carregada com pequenos souvenirs de regresso a Lisboa. Às vezes convidava-me. Mas não me estava a ver. Eu? Num autocarro fedorento? Metida horas e horas num ferry? Para quê? Para desembarcar em África e só regressar à civilização três dias depois? Passava bem sem os couros árabes, obrigada.
– Só se consegue ter alguma coisa nesta vida com esforço e disciplina – disse ela, quando estava para me ir embora e como se adivinhasse os pensamentos que tinham andado a passear pela minha cabeça. Mas como será que aquela gente toda se entendia na mesma casa? Será que não discutiam por causa dos gastos relativos à água, à luz, à comida? Será que comiam todos a mesma conta? Magros eram eles todos, mas também tinham um ar saudável, vitaminado. Estava mesmo a ver: um caldeirão de borsh para a toda semana e mais de metade das necessidades vitamínicas e proteicas do organismo ficavam logo satisfeitas. Lá estava – era a disciplina, a moderação. Naquela noite fui deitar-me com inveja de Másha, da sua firmeza e espírito de sacrifício. Mas para quê toda aquela espartanidade? Onde será que ela queria chegar? Que sonhos teria? Por muitos que tivesse, será que tinha algum que eu própria não conseguisse alcançar?…