Apesar da morte do imã me ter ligado de novo a Libério, continuei a andar com Salvador. Não para me libertar daquela relação, que mais cedo ou mais tarde me havia de conduzir à demência, mas porque gostava realmente de estar com ele. Ao lado dele a vida corria normalmente, sem turbulências nem loucuras. Fazíamos as coisas que os casais normais costumam fazer, sem ter de andar às escondidas e andávamos sempre bem-dispostos, uma vez que não tínhamos nada para atirar à cara um do outro. Quer dizer, não tínhamos, até ao dia em ele resolveu aparecer de surpresa em minha casa, com um ramo de açucenas na mão e os pertences que eu deixara esquecidos no seu carro, dias antes em Madrid, não por ser desmiolada, mas por força das circunstâncias.
Tínhamos ido almoçar à casa dos pais dele, que moravam em Coca, uma aldeia a cento e quarenta quilómetros de distância, entre a capital e Valladolid. O sítio era magnífico. Nunca tinha visto tantos pinheiros mansos juntos na minha vida. Mas o que me deixou mesmo deslumbrada foi o castelo, de um estilo completamente diferente dos castelos portugueses, embora me fizesse lembrar ligeiramente o Palácio da Pena, mas a sépia e sem muralha.
– É o melhor exemplo de arte mudéjar que temos em toda a Espanha – afirmou.
– E que mais? – perguntei, com a câmara de filmar apontada a ele.
– Sabias que mesmo depois da Reconquista continuámos a receber influências islâmicas?
– E o que é que significa “mudéjar”? – perguntei.
– Domesticado, era o nome que se dava aos muçulmanos convertidos.
Quando chegámos a casa dos pais dele, a mesa estava posta e o almoço prestes a ser servido e tudo correu às mil maravilhas. Mas antes de abalarmos a mãe dele lembrou-se de me oferecer uma prenda, que depois acabou por estragar tudo. Era uma mala de couro, com franjinhas e
uma aplicação cor-de-rosa com a inscrição “Por que no te callas?”.
– Comprei-a aos marroquinos – disse ela. – Antigamente, uma pessoa ia a Marrocos e a única coisa de pele que via à venda eram selas para camelos, mas hoje em dia já não há nada que eles não façam.
Tirei a tralha da minha mala e pus na mala que ela me dera. Depois coloquei-a ao ombro, mais por gentileza do que por ter gostado dela. O problema foi ter deixado as chaves de casa dentro da outra mala, tê-la posto no porta-bagagens e nunca mais me ter lembrado de tal coisa durante o resto do fim-de-semana. Quando, na segunda-feira de manhã, cheguei à porta do meu prédio é que dei pelo esquecimento e só não tive de chamar os bombeiros para entrar em casa ou arranjar outra solução mais radical porque D. Mirtes, a velhota do andar de cima com quem deixava um par de chaves suplentes, não tinha ido à natação com a amiga da Ajuda, como era hábito ela fazer religiosamente às segundas-feiras. A camarada adoecera e ela,
aborrecendo-se de ir para a piscina sozinha, resolvera ficar em casa. Sorte a minha. O pior é que a sorte alterna com azar.
Preparava-me para tomar um duche rápido e pôr-me a caminho da agência quando o telefone tocou. Era Salvador. Dizia que podia mandar-me tudo por DHL Express ainda nesse dia, mas achei que não valia a pena, pois estava combinado que ele vinha visitar-me no sábado a seguir. O incidente podia bem ter morrido aqui. Mas não. A meio da semana, eis que me aparece de surpresa. Estava eu metida na banheira com Libério, a ouvir música clássica e a fazer-lhe uma massagem nos calcanhares.
Quando ele abriu a porta da casa de banho, de mansinho, com as flores na mão, a minha primeira reacção foi gritar, completamente em pânico. Pensei que era uma alma do outro mundo, um ladrão, um assassino, qualquer coisa de terrivelmente malévola e instantaneamente fiquei tão fria que nem sei como não congelei a água da banheira. Quando me apercebi do que estava realmente a acontecer, e vendo a expressão de desilusão e tristeza que se apoderou do rosto dele, fiquei sem fala, cheia de vergonha e talvez arrependida. Obviamente, esse remorso não durou muito tempo, pois pensando bem eu não cometera nenhum crime, e para ser sincera, ainda hoje não percebo como é que ele teve o desplante de entrar no meu apartamento sem minha autorização.
A reacção de Libério à entrada dele na casa de banho foi totalmente diferente da minha – deu um salto da banheira sem dizer uma palavra e agarrando freneticamente numa toalha tapou aquilo a que a minha avó chamaria as suas vergonhas e não sei o que teria feito se Salvador não tivesse dito, com uma voz firme e desemotiva:
– Espero lá fora .
Assim que ele saiu, levantei-me e disse muito baixinho a Libério:
– Não sou capaz de sair daqui. Por favor, pede-lhe que se vá embora, mas não arranjes desacatos…
Vesti o roupão, sentei-me na tampa da sanita e fiquei à espera que a situação se resolvesse sem eu ter de passar pela vergonha de voltar a encarar Salvador. Quando ouvi aquilo que parecia o louceiro da cozinha a cair no chão, fui a correr ver o que se passava, com medo que eles me estivessem a partir a louça toda.
– Parem, por favor! – disse eu, juntando as mãos como Nossa Senhora de Fátima. Indiferentes aos meus rogos, eles continuaram à porrada e quando Salvador ficou estatelado entre o louceiro e o frigorífico, saí da cozinha dizendo:
– Vou chamar a polícia!
– Não é preciso – disse ele, recuperando os trambelhos. – Vou-me já embora.
Libério ficou de pé à espera que ele saísse, parecia um galo de combate pronto para atacar ao mínimo movimento do adversário. Não esperava aquilo dele. Fiquei dilacerada quando Salvador passou por mim, com o nariz a deitar sangue e lançando-me um olhar fulminante.
– Perdoa-me, Salvador… – disse tocando no braço dele.
Mas ele não deu resposta e o seu silêncio pesou mais do que todos os insultos que ele me pudesse atirar naquela noite.
Libério levantou o armário do chão, apanhou os cacos e também o ramo de flores, que ficara totalmente estilhaçado. Eu, encostada à ombreira da porta, só me apetecia era correr atrás de Salvador. Mas não sabia o que lhe havia de dizer e mesmo que, por magia, encontrasse as palavras certas, por quanto tempo mais é que eu aguentaria ficar com ele? Será que alguma vez seria capaz de deixar Libério?
– Que merda de flores são estas? – perguntou ele antes de as arremessar para dentro do caixote do lixo.
– Açucenas.
– Açucenas… – desdenhou. – Mas quem é o maricas que oferece flores destas a uma mulher?
A minha mãe tinha-lhes aversão. Quando eu era pequena, tinha interpretado o papel de florista numa peça da escola. Vendia açucenas. Ela dissera logo: “Que raio de flores te haviam de pôr na cesta! Atrás de uma açucena vem sempre um chorrilho de lágrimas.” No dia a seguir, o meu coelhinho de estimação foi dado como desaparecido e fartei-me de chorar. E agora isto. Dava que pensar. E vontade de chorar também não se podia dizer que não me desse: ali estava o meu querido serviço de porcelana russa completamente feito em cacos…
– Olha, vamos mas é apanhar ar! – disse Libério depois de a cozinha ter voltado ao estado normal.
– Aonde é que queres ir a estas horas?
– Ainda nem sequer é meia-noite, vamos até à beira-mar.
Os Jerónimos, a Praça do Império e toda a envolvência da zona ribeirinha em Belém podem ser das maiores atracções de Lisboa durante o dia. Mas à noite, não há nada na Terra que lhes faça concorrência. O ar enche-se de bondade, de esperança, de arrojo. Não há nada que ali pareça impossível de realizar e até o Tejo parece convencido de que nós também seremos capazes de chegar ao mar, desde que corramos na direcção certa, e tudo parece simples e fácil e mais próximo do que pudemos imaginar.
Tínhamos feito o percurso da minha casa até ao Padrão dos Descobrimentos de mãos dadas e sem falar. Mas quando lá chegámos eu comecei a saltitar sobre os pontos cardeais da
rosa-dos-ventos e, pisando o mapa-múndi, pulei para cima da Rússia e disse:
– Vês? É tão grande que até dá para dançar!
– Porque é que lhe deste a chave? – perguntou enraivecido, com o pé a esborrachar a
Espanha, enquanto eu dançava sobre a Sibéria, embalada pela brisa marítima, morna e delicada.
– Não lhe dei chave nenhuma! – disse eu, explicando o sucedido.
– Queres gelado? – perguntou ele subitamente.
– Mas não quero sair daqui…
– Deixa estar, que eu vou lá sozinho – disse ele, dirigindo-se à Portugália.
– Duas bolas de chocolate, com natas! – gritei-lhe e fui sentar-me no sopé do Padrão, observando-o enquanto ele se afastava.
Se ele não fosse assim tão lindo, será que eu o amaria da mesma maneira? Se de repente ele ficasse sem uma perna ou sem um braço, será que eu continuaria a querê-lo? Era capaz de dar tudo para o ter só para mim, se calhar até era capaz de dar uma parte do meu corpo, sei lá, o dedo mínimo do pé ou algo assim. Lembrei-me da mulher do imã. Será que voltaria a encontrar o amor? Porque será que o imã nunca tinha tido outras mulheres, embora a religião de ambos o permitisse? Onde estaria Abu-Nassim? No Céu? No Inferno? Em algum sítio entre os dois ou simplesmente debaixo da terra, no talhão islâmico do cemitério de Odivelas, com a cara virada para Meca, na eterna esperança de que os desígnios de Deus fossem cumpridos? Mas será que existia mesmo alguém neste mundo capaz de honrar a preceito a palavra divina, durante todos os dias da sua vida? E porque não podíamos todos nós, ateus, cristãos, muçulmanos, judeus, viver em paz sob o mesmo tecto?
Quando Libério voltou com os gelados, perguntei-lhe:
– Não achas que aqueles a quem chamamos terroristas também são capazes de ter a sua razão? Ele pousou as taças no chão e sentando-se de cócoras à minha frente, com as mãos apoiadas nos meus joelhos, disse:
– Explica lá melhor!
– Então, não achas que a invasão de certos países pode ter mais a ver com a sede de recursos naturais do que propriamente com outros valores mais elevados? – disse eu.
– Onde é que foste buscar isso? – perguntou ele.
– Foi num sermão do imã – respondi.
– Olha, minha querida, o que eu acho é que para além daquilo que nos parece ser o bem e o mal, existe a verdade das coisas e essa, mais cedo ou mais tarde, vem sempre ao de cima.