O estrépito mediático do assalto fez então passar para segundo plano as vitórias democratas nas eleições da Geórgia, que deram aos partidários do Presidente eleito os dois lugares de que precisavam para se apoderarem da maioria no Senado, vital para o sucesso da presidência de Joe Biden. E obscureceu quase totalmente o significativo voto de 137 dos 197 membros republicanos da Câmara dos Representantes que, mesmo depois da insólita invasão por partidários confessos de Trump, continuaram a apoiar uma tentativa de anulação de resultados eleitorais na qual consistia a “estratégia” de Trump para impugnar a eleição de Biden (mas tendo a concordar com o jornalista Bob Woodward, que sustenta que “Trump atua controlado pelos seus próprios impulsos, não planeia, não pensa as coisas”).
Junte-se a isto a inaudita profusão, entre os assaltantes, de bandeiras históricas da Confederação de estados sulistas derrotada na Guerra Civil de há 150 anos e tem-se os ingredientes do cocktail explosivo em se transformou “a maior democracia do mundo”, por estes dias. Prever, por tudo isto, que os Estados Unidos se encontram à beira da implosão é um vaticínio “manifestamente prematuro”; mas também as profissões de fé na força da democracia podem parecer exagero voluntarista, à luz dos desmandos praticados. A democracia americana não caiu com Trump, mas vacilou perigosamente.
A incitação sediciosa de 6 de janeiro marca um momento porventura determinante do futuro próximo dos Estados Unidos (e, por extensão, do mundo inteiro), aquele em que a violência verbal e ideológica incessantemente atiçada por Trump se transforma em violência física. É o ultrapassar de um limite. O fascismo, diz-nos Antonio Scurati através do seu romance M. Mussolini, o filho do século (Edições Asa, 2020), não é o pai da violência, antes é por ela engendrado. O livro de Scurati é um “romance documental”, o que talvez queira dizer que vale mais como documento do que como romance. Tudo o que lá vem, assegura-nos o autor, foi rigorosamente certificado e corresponde a factos, episódios e desastres que realmente aconteceram entre março de 1919, data da criação dos fasci di combattimento em Milão, e os primeiros dias de 1925, quando Mussolini, por meio de uma série de golpes e contragolpes parlamentares e extra-parlamentares, alianças espúrias e compromissos não cumpridos, se assegurou o poder político absoluto e meteu a democracia no congelador.
A verdade é que, ao longo das suas 850 páginas, a narrativa de Scurati abunda no relato de assassinatos políticos seletivos, chacinas indiscriminadas, atrozes operações de “limpeza”, execuções em grupo, traições e infâmias em profusão, que não pouparam, sequer, alguns dos primeiros companheiros do Duce. Esta campanha de violência, que constituía o ideário básico de Mussolini para chegar ao poder, foi posta em prática nos primeiros anos da sua liderança partidária, ainda na oposição, quando os fascistas dispunham de uns 5% de deputados eleitos, mas arregimentavam prosélitos a um ritmo inversamente proporcional ao da sua representação parlamentar.
Quer isto dizer que, apesar da violência de massas introduzida pelos fascistas sobretudo no centro e norte de Itália, o partido de Mussolini não deixou de crescer. O que os números indicam permite aventar a hipótese de que o partido cresceu por causa da violência desencadeada. De facto, a violência fascista veio oferecer a multidões de deserdados, sobreviventes miseráveis da Grande Guerra, náufragos da crise económica, um “sentido” político para a violência latente que a miséria encerra. Capitalizando o descontentamento generalizado, Mussolini arremeteu contra o “sistema” utilizando os argumentos comuns a todas as demagogias: tudo o que está mal é culpa dos outros, dos “poderosos”, dos que detêm o poder, embora, por força do jogo democrático, esse poder seja transitório.
O assalto ao Capitólio pode ter sido o primeiro ato de uma tragédia pré-insurrecional, que tenderá a “banalizar” a violência, espontânea ou organizada, com particular incidência nos Estados do sul: as bandeiras da Confederação lá estão para recordar onde tudo isto começou, na confrontação de 1861-65. E a fratura adivinhável dentro do Partido Republicano só aparentemente se polarizará em torno de Trump: de facto, o que está em causa, a médio prazo, é a própria subsistência do modelo representativo universal que reúne todos, brancos, negros, latinos, asiáticos, sob a mesma bandeira, a da União. A outra, a dos sulistas, só representa os que a transportam, brancos e racistas na sua esmagadora maioria.
O segregacionismo asfixiante dos romances de William Faulkner, que datam dos anos 1930, ressurge envolvido na bandeira derrotada. No Texas, um grupo de dirigentes republicanos falou pela primeira vez, nas últimas semanas, na urgência de proclamar a independência daquele estado sulista. “Este movimento está apenas a começar”, ameaçou Trump na mensagem de despedida da Casa Branca: é o fantasma da Secessão aquilo que assombra a democracia americana. J
A bandeira da secessão
Trump e o assalto ao Capitólio
Dois meses passados sobre a investidura do 46º Presidente dos Estados Unidos, começam a esbater-se as nuvens que assinalaram o desastroso mandato de Donald Trump, ao mesmo tempo que se afirmam linhas políticas diferenciadoras que fazem acreditar que Joe Biden talvez seja capaz de devolver ao seu país uma certa credibilidade moral que ele perdera nos últimos quatro anos. Com Trump, os EUA tinham-se aproximado perigosamente das fronteiras que identificam um Estado-pária, na sugestiva definição de John Rawls. Persistem, no entanto, as ondas de choque do acontecimento traumático que foi o assalto ao Capitólio, em 6 de janeiro, levado a cabo por uma multidão de fanáticos apoiantes acirrados pelo discurso incendiário de Trump.