João Fernandes, 46 anos, sstrónomo, professor na Universidade de Coimbra. Foi responsável, em Portugal, pelo Ano Internacional da Astronomia, em 2009.
Há três semanas, a meio de uma palestra no Planetário de Lisboa, João Fernandes desatou a cantar ópera, com a sua potente voz de tenor, deixando a plateia boquiaberta. “Porque é que não hei de cantar?”, responde aos que se espantam por um astrónomo ter aulas de canto e integrar um coro. Para a música só despertou em adulto. Já as “coisas do céu” fascinam-o desde miúdo, ainda que não pensasse em fazer carreira na área. Até que, numa aula de Filosofia, no 11.º ano, o professor lhe mostrou Andrómeda, explicando que a imagem correspondia à galáxia na altura precisa em que o Homem surgiu na Terra. No mesmo dia, pôs-se a ler sobre o assunto e traçou o seu destino.
Depois da licenciatura em Matemática e Física, ramo de Astronomia, na Universidade do Porto, seguiu para doutoramento, em França. Nessa altura, publicou o seu artigo científico mais citado, onde indica a idade do agrupamento de estrelas Hyades. Mas o trabalho de que mais se orgulha tem apenas um par de citações. Depois de “partir muita pedra”, conseguiu estabelecer um modelo matemático que permite calcular, em simultâneo, a idade, a massa e a composição química das estrelas. “Concretizei um sonho que tinha desde 1996, quando percebi que os modelos de que dispúnhamos não eram muito eficazes. É um momento muito bom, o da confirmação de ideias que já tínhamos intuitivamente.”
Esta paixão pela ciência, pelo método e rigor, leva-o a andar pelas escolas, em sessões de divulgação. “Os miúdos não têm medo de fazer perguntas. Tenho aprendido muito com eles. E, se conseguir despertar o gosto pela ciência em pelo menos um na plateia, já me dou por muito satisfeito”, assume, com humildade. “Até hoje, só recusei um convite: quando me pediram para participar num debate com um astrólogo”, confessa. “Se acontecesse de novo, iria. Para explicar que a astrologia não passa pelo crivo da ciência. Que não haja confusões!”, diz, com a voz firme a ecoar na sala de ambiente oitocentista, criado pelos telescópios e equipamentos de orientação do museu de astronomia da Universidade de Coimbra. Uma voz que empresta à sua arte, mas muito serve também “para mandar calar os alunos, cada vez mais imaturos”. Ou gritar pelo seu Benfica.
A escolha de Máximo Ferreira
Responsável pelo Sector de Astronomia do Museu de Ciência da Universidade de Lisboa, diretor do Centro de Ciência Viva de Constância, membro fundador da Associação Portuguesa para o Ensino da Astronomia
“Além do seu trabalho como investigador e professor, é um bom motivador das novas gerações de astrónomos. Como responsável, em Portugal, pelo Ano Internacional da Astronomia, em 2009, conseguiu chegar a estudantes portugueses e estrangeiros, ganhando o respeito da comunidade internacional.”