“Aqui tive, pela primeira vez, a noção de que falo ‘brasileiro’. Muitas vezes isso é dito com o significado de que o que eu falo não é bem ‘português’”

Foto: José Carlos Carvalho

“Aqui tive, pela primeira vez, a noção de que falo ‘brasileiro’. Muitas vezes isso é dito com o significado de que o que eu falo não é bem ‘português’”

Vê-se como um “imigrante privilegiado”, até porque tem conseguido, em Portugal, viver da sua escrita – no jornalismo, na literatura e em investigações académicas. No Recife, no estado de Pernambuco, onde nasceu em 1973, dedicava-se, sobretudo, ao jornalismo desportivo. Atualmente, faz parte da equipa da Mensagem, jornal online sobre Lisboa. Nos oito anos que já passou a viver em Portugal, colecionou vários prémios, como o Novos Talentos FNAC, em 2018, com o conto Otelo e, mais recentemente, o Prémio Rogério Rodrigues de Crónica Jornalística 2023. No mesmo ano venceu o Prémio Baptista-Bastos com Disfarça, que Lá Vem Sartre – obra centrada na estada do filósofo Jean-Paul Sartre (1905-1980) no Recife, Brasil, em 1960, acompanhado por Simone de Beauvoir, que aí seria hospitalizada por ter contraído tifo. Curiosamente, apesar do prémio, não está (ainda) prevista uma edição portuguesa desse livro…

O mais recente romance de Álvaro Filho publicado em Portugal é O Mau Selvagem (Urutau, 178 págs., €15), no qual quis abordar as experiências de uma nova vaga de imigrantes brasileiros. Centrado numa livraria onde trabalham vários empregados vindos do Brasil, é um emocionante policial no qual o autor pretende falar-nos da sua realidade e do País onde vive há oito anos, contrariando a ideia feita de que esperamos de um autor brasileiro que nos fale sempre do Brasil, entre favelas, grandes cidades e algum exotismo. “Além dos brasileiros neandertais das primeiras vagas e os sapiens das últimas, houve sempre um terceiro tipo de imigrante do Brasil a mover-se entre os conterrâneos todo-o-terreno e os com o diploma perdido numa gaveta num armário da Ikea: o brasileiro novo-rico, com muito dinheiro e pouca educação e cultura”, lê-se a páginas tantas.

A maior comunidade estrangeira a viver em Portugal é, de longe, a brasileira, que chegou em várias vagas, com características e motivações diferentes. Qual foi a sua principal razão para vir para Portugal?
Acho que podemos falar em quatro ou cinco vagas, mais ou menos recentes. Eu faço parte da quarta vaga, que veio quando o Brasil começou a piorar politicamente, e também economicamente. Mas, no meu caso, fui mais sensível à questão política, no fim do governo de Dilma. Também houve vagas inversas… Quando Portugal esteve na era da Troika, houve muitos brasileiros a regressar ao Brasil. A minha vaga foi-se tornando mais forte com a aproximação da eleição do Bolsonaro. Muitas das pessoas que vieram nessa altura têm, hoje, uma vida em Portugal menos confortável do que poderiam ter no Brasil, menos privilegiada.

Foi uma fuga ao governo de Bolsonaro, ao novo contexto político…
Exato. Eu cheguei em 2016, no ano do golpe contra o governo de Dilma. Estive em Lisboa, em contexto de férias com a família, em janeiro desse ano, e já pensava na mudança; a ideia foi mesmo ver como era Lisboa no inverno, sem o calor e a efusividade dos turistas e das pessoas todas na rua. Em setembro mudei-me para cá, com a ideia de fazer um doutoramento, e instalei-me em Alfama, na mesma casa onde tinha estado nessas férias. Nessa altura, julgo que havia cerca de 50 mil brasileiros a viver em Portugal, e já se achava um número muito alto. Cresceu muito mais nos últimos anos.

Pode falar-se numa quinta vaga?
Talvez, mas continuaram a chegar muitos brasileiros com as características de vagas anteriores. Acredito que, agora, também pode haver bolsonaristas a chegar que não querem viver num Brasil governado por Lula… Talvez essa seja uma quinta vaga, de brasileiros que gostam de se instalar na linha de Cascais. Mas essa ainda não está estudada e catalogada. A minha vaga mudou o perfil dos brasileiros em Portugal. Alguns artistas, gente diplomada… A grande diferença é que essas pessoas não vieram por ter falta de oportunidades. Na grande massa das vagas anteriores, chegavam pessoas que não tinham oportunidades lá no Brasil e eram submetidas a um certo tratamento de inferioridade, pelos próprios brasileiros. Aqui, prolongava-se esse tratamento, mas agora como imigrantes, com a possibilidade de terem um emprego… Não pretendiam propriamente ter uma voz ou provocar um debate aqui, essa nunca tinha sido a realidade deles. Com a nova vaga, de privilegiados, chegou outra capacidade de articulação, de conhecimentos, de networks e até de relações com o poder em Portugal. Essa vaga procurou estimular um debate. E quando se tenta isso, as tensões aparecem…

No seu último romance, o policial O Mau Selvagem, fala do “complexo do jesuíta”, quando os portugueses tentam explicar tudo muito direitinho, e com algum tom de superioridade, aos brasileiros que chegam… Também sentiu isso? E a expressão é sua?
É minha, sim. E senti. Como se não houvesse a capacidade de resolver qualquer assunto que exige uma explicação sem a tentativa de catequização da outra pessoa, que tem de ser convencida e doutrinada… Há 20 anos, vim pela primeira vez a Portugal, como jornalista, vindo das Olimpíadas de 2004, na Grécia. E quando estamos cá como visitantes ou turistas, a relação com os locais é muito diferente. Se vivemos cá e, por exemplo, escolhemos a fila errada para o atendimento num banco, avisam-nos, mas não nos dizem só qual é a fila correta. A coisa podia parar por aí, mas não… Como veem que viemos de um contexto diferente e que podemos ainda não ter sido apresentados à civilidade, há uma necessidade de explicar tudo; de catequizar, lá está. Isso acontece em muitos lugares, como se tivéssemos de estar sempre a ser apresentados ao sistema por alguém mais “civilizado”. Até a nível profissional, por vezes, noto isso. Eu cometo um qualquer erro e posso levar logo com uma grande aula de introdução ao jornalismo, como se o problema estivesse lá bem atrás… Essa necessidade de enquadrar tudo e catequizar é o “complexo do jesuíta”.

Isso surpreendeu-o?
Sim. E aqui tive pela primeira vez a noção de que falo “brasileiro”. Eu até posso concordar. Mas muitas vezes isso é dito, parece-me, com o significado de que o que eu falo não é bem “português”. Foi a partir dessas observações, que ouvi também de outros brasileiros em Portugal, que nasceu o livro O Mau Selvagem.

Nessas várias vagas, faz algum sentido falar de um problema específico de integração de imigrantes brasileiros em Portugal?
Acho que isso é demasiado radical… Mas há atritos, e estereótipos, claro. Como há noutros lugares com grandes comunidades imigrantes de um certo país ou de uma certa região: os argentinos e latino-americanos em Espanha, os turcos na Alemanha, os albaneses em Itália… Há uns dias, ouvi uma mulher brasileira dizendo: “Eu vim já com o meu marido, não vim roubar o marido de ninguém…” O que acontece hoje, sobretudo, é haver um grande contingente de imigrantes que não está disposto a baixar a cabeça. Apesar de podermos dizer que a cultura portuguesa e a brasileira não são muito diferentes, podem agudizar-se tensões… Uma comunidade muito forte, dentro da imigração brasileira, é a dos evangélicos, que pode ser problemática e criar atritos. Já criou problemas noutros países da lusofonia, como Angola, como gerou mesmo no Brasil. E tudo isto se passa num contexto global, em que Portugal está inserido, de radicalização contra os estrangeiros. Há uma comunidade jurídica de brasileiros, aqui, que está muito atenta a esses atritos, e até lucra com eles. Quando, nas minhas crónicas da Mensagem, falo de dificuldades relacionadas com os brasileiros em Portugal, problemas com a obtenção de um visto, por exemplo, contactam-me logo.

O seu livro O Mau Selvagem nasce de todo esse contexto…
Parte da possibilidade de abrir esse diálogo, da minha vontade de contribuir para isso. É um policial, e uma alegoria, que radicaliza a questão da violência, vai por esse lado, que obviamente não é o que eu defendo ou sugiro. É fácil um imigrante chegar aqui como um “bom selvagem”, pisando um terreno que não conhece, e transformar-se num “mau selvagem”. Gradualmente, vai-se sentindo mais à vontade, percebendo o seu lugar, a sua posição… E há várias maneiras de reagir a isso: uns podem gritar, outros vão agredir, há quem escreva um poema…E eu um fiz um livro. Foi a minha forma de me transformar num “mau selvagem”.

Como é ser um autor brasileiro e lisboeta? E como lida com a língua portuguesa escrita nos seus livros? E no jornalismo?
E na academia…

Escreve aqui como se estivesse no Brasil?

Não. É confuso… Quando cheguei, para fazer o doutoramento, na universidade pediram-me para escrever os meus artigos em português europeu. Tentei fazer isso. Decidi ler muitos livros de escritores portugueses, com esse objetivo, fazer uma imersão na literatura portuguesa – o que não foi nada desagradável, antes pelo contrário. Depois estive no jornal O Corvo e na Global Media, onde fazia mais vídeos do que textos. No primeiro livro que publiquei em Portugal, Alojamento Letal [Planeta, 2019], a minha editora pediu-me que o personagem principal fosse português, que pensasse e falasse como um português. Foi um exercício interessante, para mim, criar um português que morava em Alfama. Gostei da experiência, mas decidi não voltar a fazê-lo. Até porque me interessava explorar como é ser brasileiro aqui. E também porque me parecia que não devia tentar concorrer com os escritores portugueses; sou um brasileiro que mora aqui. E tem sido uma aventura… Na Mensagem, ouvi alguns comentários. Quando entrevistei o [escritor] Afonso Reis Cabral, alguém perguntou logo porque tinham mandado um brasileiro entrevistar uma figura da literatura portuguesa. Acho que fui criando alguns artifícios para a minha escrita jornalística parecer mais amigável ao ouvido português, fiz esse esforço. Mas, na verdade, isso nunca foi um problema na Mensagem. Aliás, neste momento até trabalho como editor, lendo e editando textos de outros.

A sua identidade, como autor, mudou desde que veio para Portugal?
Em geral, já não sei bem que português é este que escrevo hoje… Acho que perdi parte dessa identidade brasileira. Os meus textos ficaram maiores, menos sintéticos. Isso é muito português. Julgo que há mais subentendidos no português do Brasil, não é preciso dizer tudo… Agora estou a fazer o doutoramento num departamento de Literatura [na Universidade Nova] e julgo que há um respeito maior pelo meu modo de escrever, talvez até porque o diretor, o professor Abel Barros Baptista, é especialista em Literatura Brasileira… A minha escrita já foi um problema, até já foi uma limitação quando passei pelo Diário de Notícias, e agora é um não problema. Achei curioso que numa entrevista recente que dei para uma revista brasileira sobre este meu livro, perguntaram-me: “Porque escolheu escrever em português europeu?” Respondi que não escolhi escrever em português europeu. Mas acho que perdi algo, devo estar num meio caminho… Há expressões fantásticas que aqui se usam e não fazem sentido para um brasileiro. Gosto muito, por exemplo, de “se calhar”, que aqui se ouve muito e no Brasil não se diz. Ou “menos conseguido”… Uma expressão que demorei muito até conseguir usar bem: “Sempre vai?” Para um brasileiro esse “sempre vai” não faz sentido nenhum. Posso dizer que gosto muito do meu português atual.

Perdeu e ganhou ao mesmo tempo?
Sim. Às vezes, tento recuperar a minha agilidade perdida, a tal língua mais rápida e sintética, e já não consigo. Nos jornais e revistas em que colaboro atualmente no Brasil, estão sempre a dizer-me isso.

Um dos objetivos do Acordo Ortográfico de 1990 era criar uma harmonização entre o português daqui e o do Brasil, e de outros países da lusofonia, até para facilitar a vida às editoras. Acha que isso faz sentido? E que esse caminho foi percorrido?
Não. E até provocou mal-entendidos. Para um leitor brasileiro não é fácil ler Saramago, ou mesmo Eça de Queirós, mas sabemos que são exemplos de boa escrita em português, e isso nunca foi um problema. O Acordo não fez com que se lessem mais autores brasileiros aqui ou mais portugueses no Brasil. Na verdade, não fazia falta. 

Na “ponte cultural” entre o Brasil e Portugal, de que tanto se fala, parecia durante anos haver um só sentido. Ultimamente os brasileiros têm mais acesso à cultura portuguesa, nas várias artes?
Julgo que há uma coisa que ainda não foi bem entendida em Portugal, hoje. O facto de haver aqui mais de 500 mil brasileiros, alguns que transitam entre cá e lá, também significa que eles levam Portugal para o Brasil. O Marco Neves, professor que tem um canal de TikTok sobre a língua portuguesa, tem tantos seguidores brasileiros como portugueses… Acho que hoje há um mercado no Brasil para a literatura contemporânea portuguesa, mas isso não teve nada que ver com o Acordo Ortográfico e sim com estas vagas de que falávamos. Quando hoje vou ao Brasil, falo aos amigos dos autores portugueses que gostei de descobrir aqui.

No seu doutoramento estuda a literatura policial nos países do Sul da Europa. Não tem uma grande tradição em Portugal…
Nos países onde houve um grande hiato democrático, a literatura policial foi sempre muito maltratada, pouco relevante ou mesmo inexistente. Porque ela lida com uma matéria-prima que nunca é agradável para um governo autoritário, uma ditadura: poder, dinheiro, violência… Muitos dos seus protagonistas são políticos, empresários ou polícias corruptos. Claro que a censura não proibia policiais de outros países, até eram úteis: isso é lá em França ou nos Estados Unidos, ou em Inglaterra… Quem é a Agatha Christie da Alemanha ou de Itália? Não existe. A produção nesses países foi praticamente nula. O meu doutoramento é especificamente sobre o renascimento do género, com as democracias. E em Portugal estudo especificamente o Francisco José Viegas, como inventor desse regresso do policial português, com o seu Jaime Ramos. Houve policiais antes, claro, muitas vezes assinados com pseudónimos, como Dennis McShade [pseudónimo de Dinis Machado], mas não cumpriam uma das características essenciais do género: a crítica à sociedade.

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