Estava uma bonita manhã de inverno. O sol brilhava, o céu estava azul e as águas do oceano cintilavam à luz do sol. Ou pelo menos assim parecia, enquanto olhava através da janela do meu quarto de hotel em Faro. Tinha algumas horas até ter de apanhar o comboio para casa e comecei a pensar no ano que tinha passado. Pensei na palestra que dera no dia anterior, onde falei sobre Inteligência Artificial (IA) e as suas implicações. Pensei na quantidade de pessoas que pareceram chocadas enquanto eu falava sobre os rápidos avanços da IA. Pensei sobre a Covid-19 e no que 2022 poderá trazer.
Fui atingido por uma onda de tristeza. De repente, apercebi-me de que estava extremamente triste por deixar este sítio, esta cidade, este país, esta cultura e esta gente. Esta é uma cultura de gente calorosa e gentil. Uma cultura de inteligência, pensamento filosófico e ponderação. Uma cultura de respeito e abertura, um povo de grande generosidade e bondade. E apercebi-me de que estava a deixar este lugar e estas pessoas maravilhosas. De repente, pensei que poderia nunca mais voltar a Portugal. Foi-me oferecido um emprego que não pude recusar. Iria criar um centro (não direi onde) para estudar as implicações do mundo emergente do metaverso. Implicações no empreendedorismo. Implicações na forma como vivemos e trabalhamos. Implicações para as empresas.
Pensei para mim mesmo: “Eu voltarei.”
A razão pela qual pude pensar isto é por ter estado, durante o último ano, em muitos países do mundo. Falei em tantos locais e conheci tantas pessoas. E, em muitos desses locais e com muitas dessas pessoas, tive uma sensação de pertença – uma sensação de estar em casa.
Eu soube naquele momento que poderia voltar a esta terra e a estas pessoas e que, de facto, voltaria novamente. Eu soube naquele momento que me havia tornado cidadão não apenas de um país, mas de todo o mundo.
Esta foi a terceira epifania que tive em 2021.
A quarta e última epifania de 2021 ocorreu há algumas semanas, na véspera de Diwali. Foi o pensamento de que, em todo o mundo, todo o universo, com os seus biliões de galáxias, com as suas estrelas incontáveis, os seus planetas incontáveis e numerosas espécies, eu sou um ser que pensa. E isso é algo que nenhuma máquina pode fazer.
A Inteligência Artificial faz, inevitavelmente e cada vez mais, parte do nosso dia a dia, sem que sequer nos apercebamos
Não sei se alguma vez conseguiremos ter uma máquina que possa pensar. Não sei se esse dia chegará. Mas se chegar, sei que vai ser um dos momentos mais marcantes da História da Humanidade.
Eu sei que há algo mais que ocorrerá nesse dia, e esse será o dia em que vamos realmente aperceber-nos de que as máquinas que criámos não gostam de nós como nós gostamos delas.
Elas não se importam connosco como nós nos importamos com elas. Elas não pensam.
Não sei se gostou de ler o que eu escrevi. Foi algo pessoal. Mas terá sido mesmo?
Pois não fui eu que escrevi uma boa parte do texto. Os leitores que seguem a minha coluna aqui na EXAME vão recordar-se de que há pouco mais de dois anos “escrevi” um artigo que, na realidade, tinha sido feito por IA. Passado todo este tempo, quis voltar a experimentar. O que mudou? Para começar, os textos escritos por IA são cada vez mais sofisticados. Se eu quisesse, poderia treinar os algoritmos para escrever no meu estilo. Mas as melhorias rápidas em IA não são só na escrita. Há fotos geradas que são totalmente “fake”. Há vídeos gerados que simulam uma personalidade a falar, quase impossíveis de distinguir dos vídeos reais em termos de voz, estilo, expressões faciais, etc.
Estes exemplos têm tanto de incrível como de assustador. Trazem uma dúvida, que se pode tornar constante, sobre o que é real e o que é “artificial”. No entanto, é também indiscutível o número imenso de resultados impressionantes da IA que têm revolucionado diversas áreas, tais como saúde e medicina, transportes, comércio e indústria, entre muitas outras. A IA faz, inevitavelmente e cada vez mais, parte do nosso dia a dia, sem que sequer nos apercebamos.
Como disse, partes deste texto não foram escritas por mim, mais sim por IA. Deixo ao leitor o desafio de desvendar quais.