1. De Quatro
Miranda July

A canção dos Talking Heads, On the road to nowhere, “a caminho de lugar nenhum”, combina bem com a narradora nas primeiras páginas de De Quatro. O marido mostra-se desinteressado quando ela lhe conta que o vizinho do FBI os alertara de que “alguém” os fotografara em casa com uma teleobjetiva: “Fiquei com o bilhete na mão com aquela curiosa sensaçãozinha de abandono que se tem um milhão de vezes por dia no ambiente doméstico.” E a descrição da intimidade sexual da amiga Jordi deixa-a atordoada: “Não por ter ficado a perder naquela conversa; por estar a perder na vida.” Celebridade menor nas suas próprias palavras, aos 45 anos ela tem as emoções “à solta como comboios desgovernados”. O discurso é desassombrado – é também a voz de July, atriz, argumentista e realizadora, que faz autoficção sobre a menopausa. Quando a protagonista se faz à estrada, e, depois de uma mera conversa com um rapaz numa gasolineira, faz inversão de marcha, instala-se num motel deprimente, e enceta um caso platónico com este Davey, acontece um laboratório: o regresso do desejo de “querer comer o mundo”. Quetzal, 384 págs., €19,90
2. Um Episódio na Vida do Pintor Viajante
César Aira

Biografia parca, mas relato do arco-da-velha, cheio de ironia e imagens que ficariam bem nas telas de Goya. O escritor leva-nos com destreza na garupa das mulas “perpetuamente mal humoradas” que transportam o pintor paisagístico alemão Johan Moritz Rugendas (1802-1858), em trote pela América do Sul, convencido de que “só nos trópicos se encontrava o necessário excesso de formas primárias para caracterizar uma paisagem”. Ao lado, tem o fiel mas medíocre Robert Krause. E se as boas intenções não produzem boa arte, ainda salvam: Rugendas apanha com dois raios em cima, a natureza zangada a transformá-lo num pintor-monstro que entenderá a pulsão da arte face a face com uns temíveis índios. Cavalo de Ferro, 88 págs., €€14,35
3. A Cidade e as Suas Muralhas Incertas
Haruki Murakami

Seis anos de silêncio para criar esta “novela longa”, uma reencarnação do relato publicado pelo autor japonês em 1980 numa revista, que lhe cravara um “espinho” de frustração. A Cidade… é um objeto surreal, movediço, algo comovente. Haverá quem o leia como uma reflexão sobre o que é a realidade e a literatura, a memória e o sentido da vida, o isolamento do Covid, o luto. Outros, poderão citar o espectro do personagem do velho bibliotecário que usa saia porque isso o faz sentir “como fazendo parte de um bonito poema”. O que é (in)certo? A narrativa de um homem que que não esquece um amor de juventude, que transita entre mundos, que perde a sua sombra, e faz-se “leitor de sonhos”, até perceber que há muralhas também contra a “epidemia do espírito”. Casa das Letras, 560 págs., €26,90
4. O Palácio de Gelo
Tarjei Vesaas

Traduzida do norueguês por João Reis, esta narrativa editada em 1963 tem um vigor e um lirismo não vencidos pelo tempo. Marcada pela inclemência da paisagem escandinava, é uma história descrita por sobressaltos e fragores e pontuação exaltada, a simbolizar a natureza imprevisível da neve, da água, da cascata de gelo que inspira o título – e das emoções das meninas de onze anos que protagonizam este clássico. Um retrato de uma “cintilação”, a que emerge entre Sis e Unn – a primeira é a menina privilegiada e popular da escola, a segunda é a recém-chegada, solitária e avessa às seduções dos outros –, é também a do despertar da perda, a de Unn no labirinto do “palácio de gelo” que fende a paisagem. D. Quixote, 224 págs., €17,70