Entusiasmo é a palavra que melhor define Rui Couceiro, nas suas várias facetas. Ganhou cedo o entusiasmo pela leitura, foi um editor entusiasmado e revelou-se, para surpresa de muitos, um romancista que gera entusiasmo (e aviso já o leitor que não se indigne com esta repetição da palavra entusiasmo, já que a vai encontrar muitas vezes ao longo destas páginas…). Nesta entrevista, assume-se também como um “militante do livro e da leitura”. E, nessa função, tem duas bandeiras para erguer: um livro novo – que teve a sua pré-história nas páginas da VISÃO… – em que reúne histórias de 10 pessoas que com ele partilham a “saudável loucura” pelos livros; e a organização do Babell, o festival que, de 24 a 29 de junho, vai transformar o Porto na capital mundial do livro. Com muito entusiasmo, claro.
Há muitos anos o François Truffaut fez um filme intitulado O Homem que Gostava de Mulheres…
… Conheço muito bem e adoro.
Se um dia se fizer um filme sobre o Rui Couceiro, o título mais apropriado seria O Homem que Gostava de Livros?
Eu gostaria muito de ser recordado assim. Porque, na verdade, o meu percurso, de forma não planeada nem premeditada, tem acontecido em torno dos livros. Talvez por isso, tenho ganhado a consciência, dia após dia, de que só me interessa fazer coisas que realmente me apaixonem. E, portanto, quase tudo o que faço acaba por ir dar ao mesmo sítio: aos livros.
Os livros são uma paixão que, como todas, são meio irracionais e quase viciantes? É daqueles que saem à rua e ainda vão comprar pilhas de livros ou que vão ao estrangeiro e têm de entrar nas livrarias todas?
É uma paixão irracional e incontrariável. Hum… mas conheço gente muito mais irracional do que eu. Claro que, como todos os maluquinhos dos livros, compro muito mais livros do que aqueles que consigo ler. Mas preciso de estar perto dos livros para me sentir bem. Tenho pilhas nas mesas de cabeceira que parecem arranha-céus. Leio demasiados livros ao mesmo tempo, deixo muitos a meio, a que retomo seis meses ou um ano mais tarde. Não consigo fugir a isto porque este é um universo que me seduz e está constantemente a chamar-me, a agitar-me.
Portanto, tem todos os sintomas do amante compulsivo de livros, certo? Lembra-se qual foi a sua primeira experiência de leitura? Não me refiro ao primeiro livro que leu, mas àquele que lhe deu vontade de ler mais, mais e mais?
Sim. Lembro. O livro que me mudou como leitor, que me transformou de um, digamos, leitor infantojuvenil num leitor de romances a sério, foi As Vinhas da Ira, do John Steinbeck. Cheguei a ele através de uma recomendação muito inteligente da minha professora de História, quando eu tinha uns 13 anos. Ela disse-me: “OK, é muito giro andares a ler esses livrinhos para jovens, mas tens de ler isto.” E indicou-me As Vinhas da Ira, do Steinbeck, e o Doutor Jivago, do Boris Pasternak.
Esses foram, então, os livros que transformaram a sua adolescência. Que o fizeram entrar na idade adulta, como leitor?
Sim, enquanto leitor, sim. E As Vinhas da Ira mudaram-me de tal forma que, a partir daí, iniciei uma jornada de leitura de todos os neorrealistas, sobretudo os portugueses. Li-os todos. Manuel da Fonseca, que ainda hoje é um autor de que gosto muito, o Alves Redol, até o Fernando Namora, de que agora não gosto tanto, mas cuja obra li toda. Li todos os neorrealistas e também, por isso, o meu primeiro romance, Baiôa sem Data para Morrer, é ambientado no Alentejo, porque eu quis de alguma forma agradecer aos autores neorrealistas que fizeram a minha formação literária. E como quase toda a ficção neorrealista portuguesa é passada no Alentejo, eu quis geolocalizar o meu livro ali.
Foi a ler esses livros que descobriu que queria ser escritor?
Bem, ao longo da vida, eu quis ser várias coisas. Quis ser jornalista e ainda tive uma experiência no jornalismo…
Onde?
Comecei numa rádio local, aos 15 anos. Depois fui correspondente da Lusa e, em simultâneo, ainda fui estagiar para a SIC. Foi então que recebi o convite para ir para a Porto Editora trabalhar como assessor de comunicação. Foi aí que acabou o meu sonho do jornalismo, embora tenha sonhado ser várias outras coisas. Mas se há coisa que eu me lembro desde que tenho memória é a de querer ser escritor.
Desde que leu o Steinbeck?
Não, muito antes disso. A minha mãe, quando eu publiquei Baiôa sem Data para Morrer, encontrou lá em casa um livrinho escrito e encadernado por mim aos 6 anos. Era uma coisa chamada Átila e os Três Mosqueteiros em Paris da Cochinchina. Eu tinha 6 anos, tinha acabado de aprender a ler. Escrevi e ilustrei o livro todo. Fiz a ilustração da capa, agrafei, cozi. Fiz a edição completa sem sonhar, nessa altura, que viria um dia a tornar-me editor. A verdade é que hoje sou aquilo que sempre quis ser: escritor. Todas as outras coisas, explorador, alpinista, jogador de futebol, eu deixei de querer ser [Risos].
Houve algum livro em particular que o tenha feito querer ser escritor? Ou foram todos?
Não creio que haja um livro, em concreto, que me tenha motivado. Mas há uma série de autores que eu admiro de tal modo que, talvez inconscientemente, me tenham feito pensar: “Eu gostava de fazer coisas destas. Isto é tão bonito, tão bom, que eu gostava de também ser capaz de oferecer algo de semelhante aos outros.”
Oferecer o quê, em concreto?
Em primeiro lugar, eu queria oferecer essas coisas a mim mesmo. Só muito mais tarde é que decidi que queria publicar. Há um lado de certo egoísmo na escrita que tem que ver com a satisfação dos nossos próprios desejos. E eu, nos três livros que publiquei, escrevi sempre para mim. A única maneira de me entusiasmar verdadeiramente é sentir que estou a escrever aquilo que eu gostaria de ler.
Não procura agradar aos outros?
Não. Embora confesse que saberia como o fazer…
Há uma técnica…
Sim, vocês no jornalismo também trabalham com técnica, sabem como é. Eu poderia escrever um romance policial, por exemplo, para procurar muitos leitores. E saberia como criar mistério, adensar a tensão. Sei usar as técnicas narrativas. Mas não é isso que quero fazer. A minha ambição é, digamos, trilhar a senda dos mestres que fui identificando ao longo do meu percurso como leitor. Foram autores como o José Saramago, o Calvino, o Eça, o Camilo, o Miguel Ángel Asturias, o Laurence Sterne, o Vargas Llosa, o Carlos Fuentes, o Juan Rulfo. Esses autores fizeram-me querer seguir os passos deles, porque os admiro verdadeiramente. A língua portuguesa também se presta a essa monumentalidade. E, portanto, tenho essa vontade irreprimível de tentar fazer algo desse género.
Mas só é capaz de funcionar por entusiasmo, certo?
Se não tenho entusiasmo, começo a sentir que, apesar de conseguir desempenhar as tarefas, já não estou no lugar certo. Talvez por isso tenha deixado de ser editor. Porque, apesar de eu sentir que estava a fazer bem − e os resultados da editora que eu dirigia demonstravam-no inequivocamente − eu já não sentia o mesmo entusiasmo.
Este seu livro A Mais Bela Maldição é também um livro sobre pessoas entusiasmadas, apaixonadas, pelos livros, não é? Foi à procura dos seus semelhantes?
Nós alimentamo-nos muito daquilo que nos inspira. Estas histórias, por um lado, caucionam uma certa opção de vida, por outro lado, inspiram. E de cada vez que saio de uma história destas, fico imediatamente entusiasmado e quero conhecê-la, quero perceber. E como gosto de admirar, olho para estas histórias, para esta gente com um viés, não é? Há um viés que, por um lado, advém das afinidades eletivas que existem entre mim e essas pessoas, e por outro, do facto de sentir que elas têm histórias verdadeiramente extraordinárias. E como eu sou também viciado em histórias, juntou-se a fome à vontade de comer.
Este livro, de certa maneira, nasceu nas páginas da VISÃO. Ou seja, as primeiras histórias foram publicadas na revista, um meio mais ou menos efémero. O que é que o fez depois querer transformá-las num objeto mais eterno, para as prateleiras de uma biblioteca?
Sim, as primeiras quatro histórias foram publicadas na VISÃO, à qual eu agradeço muito por me ter dado esse espaço. O que aconteceu foi que, a dado momento, comecei a receber muito feedback das pessoas, que me diziam: “Ah, estas histórias são tão interessantes.” E eu comecei a pensar: “Se calhar, justificava-se contar mais histórias destas.” E fui em busca delas.
Entretanto, imagino que tenham chegado muito mais, desde que o livro saiu.
Sim, estou sempre a receber sugestões de leitores. Agora, isto obriga, tal como fazem os jornalistas, a um trabalho prévio de filtragem. Perceber exatamente quais são as histórias certas. E, depois, temos as dificuldades logísticas. Houve duas histórias que eu gostaria de ter incluído no livro, mas que não consegui, porque não tinha condições para me encontrar com as pessoas. Uma era no Kuwait e a outra na Faixa de Gaza, onde queria muito ir. Como também há uma história na Ucrânia, onde queria muito ir, até pelo pretexto para poder retratar o contexto social e político. Talvez ainda seja o bichinho do jornalista, que gosta de reportar e de mostrar as coisas. Mas a verdade é que sabemos que o jornalismo e a escrita de pretensão literária muitas vezes tocam-se.
Em que medida?
O jornalismo e a literatura têm a vontade comum de iluminar a realidade para que os outros a vejam. Ora, é exatamente isso que o escritor deve fazer, até na própria ficção: apontar o holofote à realidade, ajudar a mostrá-la, como o jornalismo. Esse ponto comum entre os dois universos também se cruza neste livro. Porque há o emprego da técnica da reportagem, mas depois há também elementos um pouquinho mais literários, como a descrição minuciosa de certos ambientes e locais.
Numa era dominada por múltiplos ecrãs, precisamos de mais formas de iluminar a realidade?
Eu acredito muito nisso e também muito no papel dos jornalistas como gatekeepers. O papel de filtragem e de mediação dos jornalistas é absolutamente imprescindível nos dias de hoje, porque quase tudo o que nos chega, não só através dos ecrãs, mas também através da comunicação direta das autoridades políticas, vem muitas vezes revestido com a película vil da mentira. Nós precisamos muito da ajuda de quem nos permita ver as coisas como elas são. E acredito que a própria literatura pode ter, como aconteceu em vários momentos da História da Humanidade, um papel muito importante a desempenhar, a par do jornalismo. A literatura deve ser testemunha do tempo que o autor vive. E é isso que eu procuro fazer.
Durante séculos, ter uma grande biblioteca era sinónimo de poder e também de riqueza. O que este livro demonstra é que também existe uma democratização desse conceito. Nele, tanto temos uma baronesa rica como um simples alfarrabista marroquino ou um gasolineiro açoriano a partilharem a mesma paixão. Isso é um sinal de esperança na Humanidade ou um sinal de que este tempo corre o risco de ficar ultrapassado? Estes são os exemplos que é preciso preservar em livro para as pessoas não os esquecerem?
Eu acho que são exemplos que precisamos de preservar. E penso que é absolutamente imprescindível que hasteemos e agitemos a bandeira do livro e da leitura. Quanto mais não seja, porque é preciso mostrar que há um caminho alternativo em relação ao telemóvel. Temos de mostrar, efetivamente, que as nossas vidas podem ser ricas e gratificantes indo por outros caminhos que não nos parecem óbvios ou que são até, às vezes, apresentados como a única opção. Isto é especialmente importante para os jovens que, de facto, ainda têm o poder de influenciar, de conduzir, de dirigir. Por isso, fico muito satisfeito por sentir, por exemplo, da parte de professores, muito entusiasmo em relação a este livro. O próprio ex-Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, anda em digressão pelo País a levar este livro às escolas. Não posso estar mais grato com isso. Porque o livro demonstra que as pessoas que gostam de livros não são propriamente uns aliens ou uns tipos esquisitos − são pessoas que existem. E eu acredito que há gente desta em todo o lado.
O que é que se encontra nos livros?
Primeiro que tudo, há satisfação. E a condução a um espaço de encontro com nós mesmos. Neste tempo em que vivemos, de permanente distração, de quase alienação, o livro permite esse encontro connosco mesmos − além de tudo o resto que já sabemos, ao nível da instrução, da construção da empatia. O livro pode ser uma forma de combate ao modo de vida excessivamente acelerado e excessivamente alienado. Sinceramente, eu temo verdadeiramente pela saúde das próximas gerações…
Principalmente, quando já há estudos que indicam que o tempo médio de atenção já não ultrapassa os 40 segundos…
… Temo pela saúde, mas também por uma certa consciência social que possa desaparecer. O ato de ler um livro permite o encontro connosco mesmos. E, depois, cria uma vontade e uma necessidade de partilha. E há exemplos maravilhosos para contrariar essa falta de atenção que os miúdos hoje têm. Há uma professora aqui no Porto extraordinária, a Daniela Pinheiro, que consegue pegar em miúdos que não liam livros e fazer deles leitores. Fui recentemente ao colégio dela e fui recebido por centenas de miúdos que tinham lido um livro de 400 e tal páginas, que se tinham entusiasmado com ele. Isto não acontece por acaso. Estes miúdos têm telemóveis na mão e são viciados como os outros, mas houve alguém, através da sua vocação, que conseguiu contrariar essa força enormíssima dos algoritmos viciantes e transformar estes adolescentes em leitores. Como? Educou-os a ler. E nunca é tarde para isso. A história com que eu começo o livro, a da minha avó, na introdução, é sobre isso: nunca é tarde para começar a ler.
Mas a importância da educação para a leitura não pode estar dependente de ter a sorte de apanhar um professor excecional. O que é que falta fazer nesse campo?
É pegar nestes exemplos. É iluminar estas pessoas. Não é para dizer: “Tornemo-nos todos bibliófilos.” Mas, sim, para dizer que isto é possível. Olhemos para alguns dos exemplos que descrevo no livro, vejamos o que é que estas pessoas estão a fazer pelo outro. Quando o padre alemão começa a salvar livros da destruição, ele está a salvar pedaços da História da Humanidade. É o mesmo que faz esta professora. Pega nos miúdos e diz-lhes: “Olhem, existem estas coisas que estão ao vosso serviço. Venham conhecê-las.” Eu sou, de algum modo, um militante do livro e da leitura.
Uma sociedade com menos livros será, necessariamente, uma sociedade mais obediente aos poderes?
Não tenho dúvidas de que uma sociedade com menos conhecimento é uma sociedade mais obediente. Temos em Portugal um grande especialista em psicologia cognitiva da leitura, o professor José Morais, que diz que a leitura permite criar cidadãos, criar democratas. São os especialistas que o dizem. Isto é evidente, não é? Quando nós temos a noção da informação que os livros transmitem, ao longo dos séculos, consolidando uma ideia de humanidade, captamos algo que nos constrói, que nos melhora e que nos acrescenta.
Foi editor a maior parte da sua vida profissional, em que teve de gerir o equilíbrio entre os livros para vender e os livros para marcar uma era. Como é que para um apaixonado pelos livros esse dilema era resolvido interiormente?
Tive sempre uma noção muito aguda de que era um profissional e de que estava a ser pago para fazer o meu trabalho. Mas também sentia que deveria propor à administração a publicação de livros que acrescentassem. Lembro-me de, na mesma altura em que publiquei um livro da Cristina Ferreira, que vendeu 100 mil exemplares, ter proposto publicar um livro do geógrafo Álvaro Domingues, que foi logo considerado um dos livros do ano para o Público, para o Expresso, e louvado pelos maiores intelectuais do País. Agora, também acho que o livro é um meio que não deve estar vedado a nenhuma vontade de expressão. Portanto, tenho o direito de publicar um livro sobre culinária ou sobre bricolage, apesar de haver gente que acha isso uma total idiotice, que considera que o livro só deve estar ao serviço da arte. Isso, para mim, é uma perfeita estupidez. Apesar de tudo, tenho a noção de que o livro deve ser veículo das melhores ideias, daquelas que nos permitem evoluir enquanto sociedade e enquanto espécie. Daí ter querido fazer uma coleção de biografias que se distinguisse de tudo o que tinha sido feito. O facto de as pessoas me falarem frequentemente dessa coleção é uma das minhas maiores satisfações.
É o seu maior orgulho enquanto editor?
É, sem qualquer dúvida. Foi pensada de raiz, um conceito diferente. E porque os autores suplantaram as expectativas que eu próprio tinha. Eu pedi-lhes para que, sem prescindirem do rigor da investigação necessária para escrever uma biografia, utilizassem as técnicas e as ferramentas da ficção literária. Eles, cada um à sua maneira, sublimaram essa ideia. E é por isso que tenho um grande orgulho nessas duas coleções, uma de figuras históricas e outra de figuras contemporâneas. O trabalho dos autores foi extraordinário. O meu mérito foi conceptualizar o projeto e escolher bem os autores – eles, depois, fizeram o resto… que é quase tudo.
E foram livros que tinham arte, mas também foram um bom negócio?
Sim, foram um negócio muito mais interessante do que à partida nós imaginámos. Aí tenho de tirar o chapéu à administração da Bertrand Editora que aprovou estes projetos da Contraponto sem ter a certeza de que pudessem ser negócio. O CEO, Paulo Oliveira, percebeu que havia um papel cultural a desempenhar. A esse propósito, lembro-me sempre do editor Manuel Alberto Valente que citava muito o sr. Gallimard: “É preciso publicar aquilo que dá para se poder publicar o que não dá.” É mesmo assim.
Quando está a escrever, o olhar do editor ainda está presente ou tenta afastar esse policiamento?
Inevitavelmente está, e eu tento que não esteja. Quero sempre afastar de mim esse policiamento. Acho que ele só é bom quando há um risco claro de infringirmos normas que possam ser nocivas. Quero crer que a ficção literária nunca é nociva e precisa de liberdade total. E é em liberdade total que eu procuro trabalhar, muitas vezes contrariando os conselhos que o editor que existe dentro de mim procura dar-me.
Em Portugal publica-se muito, mas lê-se pouco. Concorda?
Concordo. Publica-se muito porque vivemos numa economia de mercado e as editoras sentem um ímpeto de publicação para gerar cash flow. A tesouraria é muito importante. Lê-se pouco e continuamos na cauda da Europa. Não vejo interesse nenhum na nossa evolução, enquanto país, se formos ignorantes. E seremos tão mais ignorantes quanto mais tempo permanecermos nessa cauda.
Os seus dois romances estão a ser êxitos no estrangeiro. Sente diferença entre leitores portugueses, espanhóis e brasileiros?
O mercado espanhol é bastante impressionante. Não só leem mais, como também são mais. Os espanhóis têm uma ligação mais vigorosa à literatura. A própria imprensa é extraordinária, mesmo a regional e a local. O Brasil já é um mercado diferente, em que se está ainda a criar os primeiros leitores. A leitura estava adstrita a uma elite. Agora, quando um livro se populariza no Brasil, ele chega às massas e vende centenas de milhares, mas o universo literário de base ainda é reduzido. A associação entre a imprensa e o mercado livreiro é fundamental como ato de resistência. Mas são, atualmente, dois universos difíceis. Só que se sou um pessimista na análise, também sou um otimista na ação. Como dizia no início desta conversa, enfiei-me neste universo quando podia estar a fazer outras coisas, se calhar mais lucrativas, mas fi-lo por paixão. E quando sinto que as pessoas também gostam destas coisas, acho que precisamos de as abraçar e dizer: vamos todos juntos lutar, porque isto é imprescindível, isto é basilar. Eu acredito que a edição livreira e o jornalismo são dois pilares fundamentais de qualquer sociedade desenvolvida, democrática, livre e justa.
É por isso que está à frente do Babell, aquele que se pretende afirmar como o maior festival literário do País? É entusiasmo puro ou há outro objetivo?
É entusiasmo, claro, mas é, em primeiro lugar, espírito de missão. Temos aqui a possibilidade de fazer algo diferente e que seja importante para as pessoas. Com muito sacrifício pessoal, com uma pequena equipa a trabalhar noites dentro, a dar tudo para fazer o melhor possível para os outros. Acredito que isto que estamos a fazer, entre a Fundação Livraria Lello e a Câmara Municipal do Porto, é mesmo serviço público. Portanto, se não houvesse estas duas dimensões, a do entusiasmo e a do espírito de missão, tudo isto seria bem mais difícil.
O meu compromisso é trazer os melhores autores. E eu acredito não só que temos os melhores, como tenho a convicção de que o cartaz do Babell é o melhor do mundo em 2026
De quem é que foi mesmo a ideia do festival?
Do Pedro Pinto, administrador da Livraria Lello e da Fundação Livraria Lello, que é um visionário, um homem com uma energia inesgotável e o maior debitador de ideias por minuto que eu alguma vez conheci. O que ele e a família estão a fazer no Porto e do Porto para o mundo é muito impressionante. E o projeto foi irresistível para mim, mais uma vez pelo entusiasmo.
A ideia é quase a de transportar para os livros a lógica dos grandes festivais de música? Procurar alargar a tribo das pessoas que gostam de livros?
Justamente. O festival surgiu porque havia um conjunto de projetos da Fundação Livraria Lello que precisavam de ser unidos. Depois, eu sinto-me muito inspirado pelo festival de Edimburgo, que começou nos anos 40 como um festival de artes performativas e que hoje agrega 11 festivais diferentes que, todos os anos em agosto, levam quatro milhões de pessoas à cidade. Ora, embora o nosso objetivo não seja turístico, eu acredito que podemos também criar público que queira usufruir deste universo dos livros e da cultura. E acreditamos que o Porto tem as características certas para isso. Quando passam 25 anos da Capital Europeia da Cultura, fazia sentido criarmos um evento com espírito internacional. E 30 anos depois elevação do centro histórico a Património Mundial pela UNESCO, fazia sentido realizar o festival no centro da cidade. Para mostrar que o centro da cidade é para todos, não é só para os turistas. E que merece ser fruído através da literatura, porque o Porto é por natureza, e pela História e pela vocação, uma cidade literária. Aqui nasceram e viveram muitos dos nossos maiores autores. O Porto tem bustos e estátuas de escritores por todo o lado. É uma cidade que é, no meu entender, poética e romanesca, até na forma de estar dos seus habitantes, que muitas vezes abusam de uma certa hiperidentidade e quase teatralizam essa própria identidade. Portanto, eu acreditei, desde o início, que o Porto tinha tudo para fazer uma coisa diferente e ao nível do que de melhor se faz no mundo. É por isso que estamos a lutar.
Numa época em que os debates públicos estão muito polarizados, como é que a programação do Babell vai tentar contrariar a tendência e promover a profundidade da discussão?
Nós vamos trazer alguns dos maiores pensadores do mundo. Embora me identifique mais com uns do que com outros, reconheço em todos a enormíssima qualidade literária e a capacidade de transmitir mensagens importantes – nem todas coincidentes. Nós trazemos o filósofo mais lido do mundo, que é o Byung-Chul Han. Vamos ter figuras como o Salman Rushdie, Ai Weiwei, Reginald Dwayne Betts, Margaret Atwood, Javier Cercas, Conceição Evaristo… Isto tem uma importância muito grande, porque eles vão partilhar uma série de ideias que precisam de ser discutidas. O autor quando fala não é diferente de quando escreve. Ele não procura evangelizar, mas sim transmitir ideias. Quando os lemos, concordamos ou não com eles, mas absorvemos o que eles querem transmitir. Num evento literário, cabe a quem escuta aproveitar e pescar aquilo que mais lhe acrescenta, a ele mesmo. O meu compromisso é trazer os melhores autores. E eu acredito não só que temos os melhores, como tenho a convicção de que o cartaz do Babell é o melhor do mundo em 2026.
O festival também pretende promover outro tempo de reflexão, sem a pressa das redes sociais, dos conteúdos curtos, da Inteligência Artificial?
Esse é um dos objetivos. Nós vamos inaugurar um jardim, o Jardim do Pensamento, provavelmente o maior jardim criado pela iniciativa privada em Portugal nos últimos 100 anos, com quatro hectares, ao lado do Mosteiro de Leça do Balio. Vamos inaugurá-lo com uma conferência do Byung-Chul Han, que também é apaixonado pela jardinagem, de tal modo que quando lhe apresentei o projeto, perguntou-me logo se poderia ir lá jardinar e criar uma horta. É isso que queremos e que ele, de algum modo, advoga no livro A Sociedade do Cansaço e que inspira o nosso pensamento. O Pedro Pinto fala muitas vezes da forma inteligente como Évora adotou o conceito do vagar para a sua candidatura a Capital Europeia da Cultura. Queremos proporcionar esse abrandamento, esse vagar, o resgate do ócio. A programação infantil, a Biblioterra, tem o objetivo, muito bem concretizado pela curadora Adélia Carvalho, de aproximar as crianças da Natureza, sentadas no chão, por oposição aos ecrãs.
É imprescindível que hasteemos e agitemos a bandeira do livro e da leitura. Quanto mais não seja, porque é preciso mostrar que há um caminho alternativo em relação ao telemóvel
Porque considera isso tão relevante?
O neurocientista francês Michel Desmurget [autor de A Fábrica de Cretinos Digitais] diz que estamos a criar as primeiras gerações que, do ponto de vista de capacidades cognitivas, são inferiores às gerações anteriores, às dos seus pais. E isso advém da utilização excessiva e demasiado precoce dos ecrãs, com efeitos no cérebro. Eu próprio sinto que, apesar deste mundo rápido e digital nos oferecer coisas extraordinárias, tenho muita necessidade de me reconectar com esse tempo de antigamente, um tempo mais lento e mais próximo da Natureza. É evidente que não estou a advogar que devemos todos virar pastores e viver à luz da vela. Mas como tenho uma casa no campo, sinto de facto um bem-estar extraordinário junto da Natureza. O que me faz pensar que algumas das minhas opções de vida não estejam totalmente certas, porque não me trazem o conforto ou o bem-estar que nós achávamos que a evolução tecnológica ia proporcionar-nos. Sinto, por isso, que também tenho uma missão de tentar contrariar um bocadinho este destino que está a ser-nos posto à frente.
Consegue sintetizar essa missão numa frase?
Aqui na Fundação Livraria Lello, dizemos que é pôr o mundo a ler.
Para quê? Porque é esse o caminho fundamental?
Justamente para sermos melhores cidadãos, melhores democratas, e para construirmos um mundo melhor. Os dias que vivemos são muito ameaçadores e acredito profundamente que a leitura é um dos melhores caminhos para resistir. Outros terão outras formas de ajudar, mas eu vivo neste mundo dos livros e é isto que sei e gosto de fazer. O jornalismo cumpre o seu papel, a educação cumpre o seu papel. Se cada um fizer a sua parte, estaremos mais perto de um mundo melhor.