Há mais de três décadas que Gonçalo Cadilhe viaja e escreve sobre as suas viagens. Mas mais do que simplesmente relatar os caminhos que percorreu, sempre preferiu partilhar as suas reflexões com o leitor, num estilo inspirado no melhor da literatura de viagens. Aquele em que mistura as suas observações pessoais com os ecos da História, o pulsar da Natureza e a cultura de cada sítio para, assim, transmitir a essência daquele lugar, de uma forma genuína e vivida. Prova disso mesmo é o seu novo livro, Mais Além, em que revisita as grandes rotas da Humanidade e as suas próprias viagens nos cinco continentes. Ao longo de mais de uma década, Gonçalo Cadilhe partilhou muitas das suas experiências e reflexões nas páginas da VISÃO. Por isso, por ser também um pouco “cá de casa”, nesta conversa quebramos uma das regras do nosso livro de estilo, e tratamo-nos por tu. Como dois viajantes que se reencontram ao fim de alguns anos.
“A grande questão da atualidade não é conseguir viajar. É sentir que a viagem nos pertence”, escreves quase no final deste Mais Além. Esse sentimento é hoje mais difícil, inundados que estamos de informação sobre os lugares, ao ponto de podermos sentir que estamos apenas a repetir, de forma rotineira, os passos já dados por outros?
Nunca, na História da Humanidade, foi tão fácil viajar como hoje. É uma época irrepetível. Não creio que no futuro teremos a mesma facilidade em viajar, mas isso é futurologia. O que interessa realçar é que hoje, com tanta gente a viajar, o sentimento mais imediato que nos assalta é o de que estamos apenas a repetir – como tu dizes e bem – os passos dados por outros. Tudo está explicado, aconselhado, divulgado, mostrado em excesso de imagens, vídeos, reels e stories. No entanto, esse sentimento de repetição e de massificação dos destinos é perigoso porque nos rouba o prazer da descoberta pessoal. Pensa em Veneza ou no Grand Canyon. São a meta de milhares de turistas diariamente, desde que há turismo, e nunca poderemos visitar esses destinos com a pretensão de os ter só para nós. Antes pelo contrário! Então o que fazemos? Desistimos de os conhecer? Claro que não, temos é de aceitar com humildade o nosso lugar na fila, e agradecer o privilégio de também podermos fazer parte da fila. Desenvolvo um capítulo do livro a exortar o viajante a organizar a viagem em função de uma atitude positiva, de uma busca interior das razões que o fizeram querer ir lá.

Afirmas também que, em viagem, é preciso cultivar o assombro. No fundo, ter o dever de sentir o deslumbramento. Ao fim de tantas viagens, grande parte delas em modo profissional para ganhar a vida, ainda te deslumbras com o que observas ou vives?
Sim, ainda me deslumbro porque o deslumbramento é um exercício de humildade e de gratidão que me obrigo a praticar. Mesmo quando regresso com regularidade a alguns dos lugares mais extraordinários do mundo, como as dunas vermelhas da Namíbia ou os túmulos pintados da civilização etrusca, em cada regresso sinto-me um privilegiado, recarrego a alma − ou o que quer que seja que temos em nós que nos faz sentir vivos e felizes.
Quais foram os teus maiores deslumbramentos recentes? E como os comparas com os encantamentos das viagens iniciais?
Bem, não vais acreditar, mas em quatro décadas a viajar compulsivamente pelo mundo, nunca tinha ido ao Egito. Não me sentia preparado culturalmente, achava que um dia iria ter tempo para estudar a Antiguidade egípcia e que só então faria sentido visitar o Egito. E os anos iam passando e eu continuava a adiar. Então o meu filho, que tem 14 anos e que não pensa em nada destas questões, apenas gosta de ler sobre a civilização egípcia, encostou-me à parede e disse que era agora que queria ir. E lá fomos os três, e eu senti toda a excitação de um destino novo, único, com uma capacidade de me emocionar como se eu tivesse, precisamente, 14 anos e estivesse a começar a viajar. E nunca é demais recordar que no Egito estive sempre rodeado de milhares de outros turistas como eu, todos a tentarmos arranjar um bocadinho de espaço para tirar uma fotografia ou para ver uma máscara funerária [Risos].
Alguma vez pensaste no que seria o mundo se não tivessem existido viajantes?
Não penso noutra coisa [Risos], e este livro Mais Além é a prova disso. Não tenho dúvidas de que alguns dos passos fundamentais da evolução humana e do longo caminho até ao presente foram dados graças às viagens. Pensa em Darwin, que libertou a ciência moderna do dogma religioso, com a sua teoria da evolução pela seleção natural, e que teve essa epifania fundamental durante uma viagem: a volta ao mundo que efetuou a bordo do Beagle. Ou pensa também no ato de fundação da religião islâmica. Para nós, cristãos, a nossa era começa com o nascimento de Cristo. Para os muçulmanos começa em 622 d.C. com a fuga de Maomé para Medina, a chamada Hégira. A tradução de Hégira é “Viagem”. A religião seguida por um quinto da Humanidade tem início com uma viagem.
Quais são os viajantes que mais te inspiraram? E quais consideras que deveriam ser exemplos universais?
Bom, tenho um carinho especial por Marco Polo, não apenas por ter visitado muitos dos itinerários e das cidades que ele descreve no seu livro, e também alguns dos lugares fundamentais da sua vida ─ como a masmorra de Génova, onde ele, prisioneiro de guerra, ditou as suas memórias durante dez meses ao seu companheiro de cela, mas tenho esse carinho também por saber, em retrospetiva, que o seu livro mudou a História de Portugal e do mundo. Diz-se que as Viagens de Marco Polo foi o livro de cabeceira do infante D. Henrique, um presente que o irmão, o infante D. Pedro, lhe trouxe de Itália. Para todos os efeitos, o livro de Marco Polo pôs a Europa a sonhar com as riquezas do Oriente, e gosto de pensar que foi o impulso emocional para os Descobrimentos. Por isso, afirmo no livro que o fim da Idade Média e o arranque da Idade Moderna acontecem com os Descobrimentos e que, por sua vez, tiveram a sua génese na literatura de viagens [Risos]. Por fim, recordo que nas observações e reminiscências de Marco Polo há um profundo respeito pelas culturas que contactou. O mesmo respeito que notamos em Alexandre Magno, um conquistador que se deixou conquistar pelas culturas conquistadas. O capítulo que dedico a Alexandre começa a partir do meu fascínio pelas extraordinárias esculturas gregas que fui conhecer no Museu de Lahore, no Paquistão, e que testemunham a passagem de Alexandre pelo subcontinente indiano.

Defendes, a certa altura, que as viagens contribuíram para avanços na Humanidade, mas também para grandes retrocessos. Dás os exemplos de Alexandre, o Grande, de Átila, de Fernão de Magalhães, de Darwin. Viajar é também, atualmente, poder ter consciência de todas as contradições humanas?
Bom, tal como tudo o que a Humanidade pôs em prática (invenções, descobertas, ideias…), também a capacidade de viajarmos teve sempre os dois lados da moeda. A viagem impulsionou grandes mudanças positivas na História, mas também causou algumas das maiores tragédias da Humanidade. No livro falo de algumas dessas tragédias. Por exemplo, as sucessivas ondas de invasões bárbaras ─ que assolaram e destruíram o Império Romano e mergulharam a Europa nas trevas da alta Idade Média ─ puderam acontecer, em primeiro lugar, porque encontraram uma rede viária no seu apogeu de extensão e eficiência: as célebres estradas romanas. Portanto, as invasões bárbaras foram também elas uma grande viagem. Um dos capítulos do livro conta esta viagem. Outro capítulo que nos recorda essa contradição da viagem, tanto capaz de melhorar o mundo como de destruir a civilização, é o capítulo sobre a grande odisseia da peste negra, desde os longínquos desertos da Ásia Central até ao extremo ocidental da Europa, e que dizimou entre um terço e metade da população euroasiática em poucas décadas, em meados do século XIV.
De que forma sentes que o facto de teres viajado por todos os continentes acabou por moldar a tua personalidade e a tua visão do mundo?
A minha cultura é formada pelas minhas viagens. Licenciei-me em Economia e Gestão de Empresas sem ter a mínima vocação nem ideia do que queria seguir a nível profissional. Portanto, a contribuição da minha formação académica para a carreira que segui de escritor-viajante foi praticamente nula. Viajar ensinou-me a pensar o mundo, a comparar culturas e a estudar o longo caminho dos milénios até chegarmos ao que somos hoje. Poderia ter seguido outros itinerários, feito outros encontros, vivido outros percalços, e hoje eu seria diferente e o Mais Além contaria outras histórias para chegarmos à grande História. Mas o percurso foi este e o livro está assim… E creio que está muito bem assim. [Risos]
Só para esclarecer: és um viajante que não se importa de ser também turista?
Esclareço, então [Risos]: somos todos turistas. Esse foi um dos capítulos que me deram mais gozo escrever, o de desmontar esse snobismo de andarmos a diferenciar os viajantes dos turistas, como se os viajantes fossem uma categoria superior, sabes, do género: os turistas são menos capazes de viver uma grande experiência do que os viajantes. Começo por recordar que todos os turistas são viajantes, mas o contrário não é verdade, há grandes viajantes, como os camionistas do serviço internacional (TIR), que viajam imenso mas não são turistas. O termo “turista” tem origem no século XVIII, com a grande viagem de formação e aprendizagem por sul de França, Itália e Grécia que os jovens da classe alta inglesa deviam completar para estarem aptos a entrar na idade adulta e a governar o seu país. O intuito dessa viagem, que durava mais de um ano, era contactar as raízes da civilização europeia, aprender outros idiomas, visitar os grandes monumentos da Antiguidade e “dar mundo” aos jovens ingleses. Essa extraordinária viagem, repleta de aventuras, descobertas e lazer, designou-se, a partir de 1760, como o Grand Tour, e daí nasceu o nome de “turismo” e “turistas”. Hoje, os viajantes que viajam em busca de aventura, descoberta e lazer são todos turistas. Sempre que viajamos pela curiosidade de conhecer o mundo, somos turistas. Ao contrário dos camionistas, com quem eu viajei muito à boleia nos anos 90, que viajam imenso mas não têm curiosidade nenhuma pelos lugares aonde vão. Assim, respondendo à tua pergunta, eu sou viajante, sim, mas como viajo pela curiosidade de conhecer o mundo, então estou dentro da categoria “viajante-turista”.

Como é que tens observado, em viagem, os impactos das alterações climáticas em diversas geografias?
Por acaso, acabei de ler o livro mais recente do Ian McEwan – um autor que tento ler sempre que sai alguma coisa nova dele − e o enredo passa-se num futuro próximo, mas já completamente alterado pelas catástrofes provocadas pelas alterações climáticas. E o que ele propõe, nesse cenário, é que as alterações climáticas não se foram instalando lentamente no globo ao longo de várias décadas, mas sim abatendo exponencialmente em várias regiões num par de décadas. Creio que iremos ver como isso faz sentido. Assistir a uma perda de controlo dos ecossistemas sobre os seus equilíbrios que provocará reações em cadeia. Respondendo à tua pergunta, é verdade que andam a verificar-se fenómenos raros e extremados em muitos lugares por onde passo com regularidade, mas de certa forma há memória de outras vezes em que essas situações aconteceram e não posso afirmar que sejam diretamente derivadas das alterações climáticas. Por exemplo, no delta do Okavango, aonde regresso todos os anos, tivemos um período de seca extrema que durou de 2018 a 2023, mas agora, nos últimos dois anos, o sistema retomou a regularidade pluviométrica.
Tens alguma explicação para o facto de vivermos numa era em que simultaneamente as pessoas viajam mais, mas também crescem os sentimentos racistas, xenófobos e de rejeição de quem é diferente?
Não sei se tenho uma explicação. Mas acho que, tal como em quase tudo o resto que estamos a viver, sei lá, na vida social, no desporto, na política, nos comentários das redes sociais ─, talvez por culpa precisamente dos comentários das redes sociais [Risos] ─, parece que estamos a atravessar tempos em que tudo na atividade humana é extremado: ou oito ou oitenta. Tens, de um lado, o ativismo woke, que me parece estar totalmente excessivo e intolerante, em agendas exclusivas dos próprios interessados; e, do outro lado da barricada, tens o radicalismo populista e de extrema-direita que perdeu totalmente a ética humanista e defende soluções que acreditávamos estarem sepultadas para sempre. E as pessoas de bom senso parecem ter sido eclipsadas das opiniões, como que expulsas do espectro social. Então, olhas para o panorama das viagens e por muito que viajar possa contribuir para conhecer e respeitar o Outro, o clima moderno é de paradoxos e de exaltações. Viajas e respeitas o Outro na terra dele, mas depois és racista e intolerante na tua terra…
Consideras que ainda continua a existir um egocentrismo europeu ou ocidental ao olhar para as outras partes do planeta? Ou isso começa a ser atenuado por as pessoas viajarem cada vez mais?
No livro, conto esta curiosidade: no século XIX, a sociedade europeia acreditava que a Humanidade tinha surgido na Europa ou na Ásia, e alguns vitorianos até tentavam provar que aparecera em Inglaterra [Risos]. Foi só em 1924, com a descoberta do primeiro fóssil de australopiteco, que pela primeira vez alguém − o seu descobridor, Raymond Dart − afirmou que o nosso antepassado mais longínquo era africano. Essa afirmação foi proposta em Joanesburgo, um dos lugares que visito no meu livro a propósito da região chamada “Berço da Humanidade”, nos arredores da cidade. Mas durante décadas a conclusão de Raymond Dart foi rejeitada e ridicularizada pela comunidade científica e pelos setores religiosos da sociedade ocidental. Só com a descoberta de Lucy [esqueleto de Australopithecus afarensis com 3,2 milhões de anos, encontrado em 1974 na Etiópia], outro dos capítulos do meu livro, é que a nossa origem africana deixou de ser questionada. Hoje sabemos que foi uma viagem, precisamente, que espalhou o Homo Sapiens a partir de África em todos os continentes. Essa expansão chama-se Out of Africa, aconteceu há cerca de 100 mil anos, trata-se de uma viagem extraordinária e é também um dos temas do livro. Nestes casos mais flagrantes, como o da origem africana da Humanidade, o egocentrismo ocidental recuou, mas continuamos a achar que a nossa parte do mundo é superior a outras. Esperemos que as outras partes do mundo também olhem para a nossa da mesma maneira. Assim estaríamos todos iguais [Risos]. Agora, quanto à pergunta sobre se viajar atenua esse sentimento… Bom, só atenua se estivermos predispostos para atenuar os nossos preconceitos com a experiência de viajar. Depende de quanto cada viajante está disponível para mudar o paradigma que traz culturalmente dentro de si, desde a primeira infância.

Qual foi o maior choque cultural que experimentaste em mais de três décadas de viagens?
A resposta mais óbvia seria falar da condição humana na Índia, não no sentido piedoso da Madre Teresa de Calcutá, que ia cheia de comiseração e ignorância cultural ajudar o moribundo que não quer ser ajudado − apenas quer que o deixem morrer em sofrimento porque acredita na reencarnação premiada, ou seja, quanto mais miserável for a vida nesta reencarnação, mais créditos se ganha para a próxima, e a última coisa que um moribundo quer é que lhe aliviem o sofrimento… Mas isso da Madre Teresa seria uma longa conversa [Risos]… Respondendo à tua pergunta, é precisamente esta atitude existencial do hinduísmo de encarar a vida e a morte como um ciclo alternado e causal, sem intervenção divina, em que estamos à mercê de um tempo sem fim para andarmos a regressar à vida e depois voltar de novo à morte, que eu diria, como resposta imediata, que foi o maior choque cultural que tive a viajar. Mas num sentido mais subliminar e construído, o maior choque cultural que experimentei e continuo a experimentar acontece de cada vez que fico perante uma catedral gótica. Penso sempre: quem éramos nós que as construímos? Em que acreditávamos? Que força e que fé nos moviam?… E comparo com o que nos tornámos, nós, os europeus, hoje. Passámos de uma visão absolutamente teológica e sacrificial do mundo para uma visão material e hedonista. Um dos capítulos do livro analisa a forma como Ulisses aparece retratado na Divina Comédia, no final da Idade Média, precisamente no período das catedrais góticas. Dante coloca Ulisses no Inferno como castigo por este não ter resistido à curiosidade de ver o mundo e de ter desafiado a lei divina e procurado conhecimento para lá do que Deus permitia conhecer. Ulisses castigado no Inferno! Vê lá tu que apreciação tão diferente da que hoje fazemos de Ulisses, símbolo do viajante destemido e insaciável que tem o louvor de querer ir sempre… mais além.
Como é que te defines como viajante? E como escritor?
Defino-me precisamente como um viajante-escritor [Risos]. Em inglês soa melhor, travel-writer [Risos]. Bom, a verdade é que fui restringindo cada vez mais o propósito das minhas viagens a uma ligação direta ao meu trabalho literário, tal como fui restringindo a minha ambição como escritor ao compromisso de escrever sobre viagens. E estou completamente em paz comigo, como viajante e como autor, com estes limites existenciais.
O mundo está a tornar-se mais pequeno ou mais dividido?
Mais pequeno e mais dividido [Risos]. Isto está bom para os escritores viajantes, porque cada vez mais o planeta está a fechar-se em barreiras e preconceitos e nós somos necessários para propor uma outra maneira de ler o mundo, uma visão com “mais mundo”, menos maniqueísta… Lembro-me daquela frase de um dos Presidentes Bush, talvez o filho, que, a propósito de mais uma dessas guerras insensatas promovidas pelo Pentágono, disse: “Quem não está connosco, está contra nós.” Pois, num mundo cada vez mais assim, em que só um lado da narrativa é que é permitido e qualquer narrativa diferente “está contra nós”, então um bom livro de viagens, tal como eu entendo a literatura de viagens, pode ensinar que há muitos lados possíveis, muitas narrativas válidas.