O António tem 68 anos e faz diálise – um tratamento que o obriga a estar ligado a uma máquina durante quatro horas, três vezes por semana, para continuar vivo. Este verão, queria passar uma semana com os netos no Algarve. Ligou para as três clínicas que lá existem, mas nenhuma tinha vaga – não por falta de camas, mas por falta de pessoal. Não se resignou. Acabou por ir sozinho, de carro, fazer diálise em Espanha e a família ficava na praia sem ele.
Todos os anos chegam à APIR – Associação Portuguesa de Insuficientes Renais as mesmas histórias. Com o verão chega a angústia de saber que planear uns dias de férias será uma batalha. Costumávamos conhecer pelo nome cada doente que não conseguia marcar tratamento fora de casa. Agora são tantos que já lhes perdemos a conta, e muitos, cansados de tentar, já nem sequer nos procuram.
Ser doente renal crónico em hemodiálise significa estar ligado a uma máquina três vezes por semana, durante pelo menos quatro horas em cada sessão, em Portugal existem cerca de 13 mil pessoas nesta situação. Não é um tratamento para curar – é um tratamento para sobreviver. Não há pausas, não há feriados, não há férias da diálise. Pode haver férias do sítio onde se vive, uns dias longe de casa, uma praia diferente, um almoço em família noutro cenário – mas nunca, férias do tratamento.
Todos os verões, os doentes tentam deslocar-se para usufruir de umas férias ou um fim de semana alargado no Alentejo ou no Algarve. E a resposta que têm recebido, cada vez com maior frequência, é que não há vaga. E aqui está o absurdo: as camas existem, as máquinas existem. O que falta são enfermeiros, técnicos, os profissionais de saúde indispensáveis para que um posto de diálise vago se transforme num tratamento.
As consequências são tão concretas quanto revoltantes. Há doentes, como o António, que vão de férias para o Algarve e atravessam a fronteira para fazer diálise em Espanha. Outros já desistiram de fazer férias em Portugal e viajam sempre para o estrangeiro – não por capricho, mas porque, paradoxalmente, é mais fácil arranjar vaga numa clínica fora do país do que dentro dele, mesmo pagando centenas de euros por cada sessão. E há ainda quem, para ter meia dúzia de dias de descanso, decida faltar a sessões de diálise. Sabem que estão a arriscar a vida, mas sentem que não lhes resta outra escolha, é o desespero…
Estamos perante um problema estrutural que afeta todo o sistema de saúde – o mesmo que vemos todos os dias nos noticiários, das urgências aos centros de saúde. Na diálise, manifesta-se assim: as clínicas existem, os equipamentos existem, mas os recursos humanos, não…
É tempo de resolver isto. Com planeamento antecipado, com investimento real em meios humanos, com vontade política. Quem vive preso à diálise já deu provas de uma resiliência que poucos imaginam. O mínimo que lhes devemos é não lhes roubar também uns dias de verão com a família.
Apelamos ao Ministério da Saúde e aos Operadores de Diálise para que, em conjunto, encontrem soluções que garantam a todos os doentes renais o direito de gozar férias sem colocar a vida em risco. Não pedimos muito. Pedimos apenas quem nos trate.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.