O ser humano e o conhecimento têm muita convivialidade. Não se poderá dizer que outros animais ou máquinas não tenham também conhecimento, mas ainda lhes falta o domínio da convivialidade humana. O conhecimento começa por ser baseado e desenvolvido através de um saber narrativo (vide os contadores de histórias que precederam o teatro greco-romano ou a Epopeia de Gilgamesh, tida como o texto mais antigo escrito por seres humanos na longínqua Suméria).
Mas os saberes científicos rapidamente inculcaram o seu contributo no processo de conhecimento. Mistura-se aquilo que se conta com aquilo que se prova. Então começa a discussão: qual dos saberes – o narrativo ou o científico – tem em si próprio um potencial maior de valor-verdade?
É nesta contradição que evolui a filosofia, sendo que esta vai perdendo matéria à medida que a ciência avança, porque esta se vai apropriando daquilo que era apenas filosófico anteriormente.
Mas será o saber científico sempre verdadeiro no sentido de significar um valor-verdade inquestionável? Sabemos que não, porque a relação espaço-tempo contextual está sempre em mudança.
Por outro lado, o saber narrativo vai depender muito da personagem do narrador em situação, qualquer que ela seja. Sendo um saber mais versátil, o facto é que ele se enforma e se mistura com o saber científico no processo do conhecimento. Esta simples interpenetração (narração/ciência) é a base da interdisciplinaridade. Mas, para se enformar, necessita ainda da criação das disciplinas propriamente ditas, fenómeno inevitável porque elas representam a possibilidade de se ir mais além na dedicação do conhecimento, daquele conhecimento.
O ser humano tem limites que tornam difícil o caminho a percorrer na vida para se chegar à ciência global, no sentido de Descartes, que seria a medicina. Por isso, ele fez-se matemático para poder chegar à guerra e obter cadáveres. Nota-se em Descartes a afirmação de um princípio de transdisciplinaridade, ainda que de forma pioneira.
Contra o princípio da finitude das disciplinas cada uma per si, não foi a interdisciplinaridade que resolveu o problema. Quantas disciplinas no campo da ciência já perderam o seu fulgor! E quantas mais irão perdê-lo, uma vez que não haja mais um salto epistemológico de salvação universal – a transdisciplinaridade.
Curiosamente só poderão manter-se disciplinarmente, ainda que com adaptações aos objetos de estudo, por um lado as ciências morfológicas (a anatomia com um olhar sobre os limites do objeto) e as ciências matemáticas (intérpretes mágicas da vida e da falta dela, daquilo que existe e do que parece não existir).
Então, desde que há conhecimento inicia-se o fenómeno da transdisciplinaridade, que deverá ser conhecido a partir do diálogo entre disciplinas diferentes.
Erro inevitável
Se tem sido importante o desenvolvimento das diversas disciplinas e isto terá permitido à pluridisciplinaridade de ir fornecendo coisas úteis à ciência, chegámos a um ponto no qual a reflexão aponta para o inevitável erro quando especialistas de diversos campos trabalham lado a lado sem se encontrarem. É fundamental a transdisciplinaridade, partindo de um conceito democrático à moda antiga do conhecimento, quando é possível concluir que é do encontro de discursos científicos diversos que tudo progride. Este encontro de disciplinas diversas é que produz conhecimento novo, fora das caixas das disciplinas antigas.
Um simples exemplo: especialistas em análise experimental dos comportamentos humanos poderão robustecer os seus conhecimentos se houver diálogo com a etologia.
O paradigma do mundo informático da pluridisciplinaridade tem sido aquilo a que chamamos o digital. Quase certamente esta era desaparecerá (como todas) e será desenvolvida a era quântica como paradigma de transdisciplinaridade porque a rapidez de conexões de informação chegará aos limites do “irrazoável”.
O nosso organismo, sendo complexo como é, suscita, para uma melhor compreensão do seu funcionamento, uma possível teoria dos quatro sistemas, sendo eles os dos:
1 – Pensamentos (cognitivo); 2 – Comportamentos; 3 – Enamoramentos (afetivo); 4 – Batimentos (ciclos de organicidade, ritmos biológicos…)
Todos estes sistemas interagem entre si, mas os fluxos energéticos dessa interação estabelecem-se de modo variável e com consequências diversas. Por exemplo: um acidente de trânsito traumático (fenómeno ocorrido no sistema 4 (orgânico) – este acontecimento irá alterar os comportamentos do sujeito acidentado (poderá ser internado), os seus pensamentos (pois possivelmente teria avaliações académicas programadas) e também a sua vida afetiva. Como se percebe, todos os quatro sistemas exigirão atenção terapêutica em maior ou menor grau. E o doente, apesar de ser um doente da especialidade de ortopedia, não é apenas isso. Porque é uma pessoa com diversos problemas que atingem a saúde no geral.
A psiquiatria, também designada por Pedro Polónio como medicina da pessoa, provavelmente terá sido a especialidade médica que mais notoriamente emergiu a partir da transdisciplinaridade, no seu curso inicial muito ligada à neurologia e agora num eterno retorno a um campo que futuristicamente é apelidado de neurociências.
As TIC (tecnologias de informação e comunicação) vêm ganhando e fazendo ganhar novas intervenções na melhoria do desenvolvimento da pessoa e nos processos de tratamento com a parceria da Inteligência Artificial que não se sabe muito bem o que é, mas certamente é consequência da transdisciplinaridade.
Abordagens múltiplas
O processo e o desenvolvimento do adoecer, sendo fenómenos diferentes em psiquiatria, poderão iniciar-se na desorganização de um dos quatro sistemas já considerados e depois, de forma rápida ou lenta, ir influenciando sucessivamente todos os outros com um grau de gravidade maior ou menor e suscitando aproximações terapêuticas que poderão ser diversas ou não, atendendo às facilidades de contacto com os sistemas.
Habitualmente esta aproximação terapêutica não é efetuada em simultâneo aos diversos sistemas, dependendo de uma análise que poderemos apelidar de “custo-eficácia”.
Nesta conformidade um maior número de saberes será convocado consoante a natureza de patologia, implicando com maior ou menor intensidade um maior ou menor número de sistemas considerados.
O processo do conhecimento não surge só a partir da curiosidade humana, mas sobretudo da necessidade de respostas que amenizem ou façam desaparecer os seus diversos sofrimentos.
Assim, a adictologia surge como um ramo de psiquiatria no qual se procuram respostas aos sofrimentos causados pelas dependências. Para maximizar os seus objetivos, a adictologia terá de chamar a si a convivialidade de outros saberes na tal, hoje em dia, inultrapassável transdisciplinaridade.
Razões de variada natureza, que não poderão ser devidamente abordadas no âmbito deste artigo, têm procurado retirar à adictologia o primado do conhecimento de um fenómeno eminentemente clínico como é o das dependências patológicas. Em Portugal há muito se definiu o carácter da doença ligado a estes processos de sofrimento humano. Ao contrário daquilo que muitos querem entender como sendo um assunto jurídico ou policial ou social – também o é –, a sua essência é clínica, embora a sua abordagem deva ser transdisciplinar.
Com “caridade e metadona” tem-se supostamente criado e desenvolvido um “modelo” que tem sido o possível, mas não o exigível pela ciência clínica da adictologia.
O futuro determinará novas realidades transdisciplinares, cremos. Onde a política deverá ser de saúde e bem-estar, para todos.
Com “caridade e metadona” tem-se supostamente criado e desenvolvido um “modelo” que tem sido o possível, mas não o exigível pela ciência clínica da adictologia