Há muito que a historiografia tradicional nos habituou a uma narrativa assente em heróis corajosos e em conquistas com um planeamento infalível, que ajudam a criar mitos e a perpetuar uma visão do mundo em que se glorificam façanhas, sem espírito crítico nem sequer minimamente analítico. Simon Park, professor de Português Medieval e Renascentista na Universidade de Oxford, com uma vasta obra académica sobre autores como Luís de Camões, Florbela Espanca e Mário de Sá-Carneiro, propõe agora, no seu primeiro livro para o grande público, uma mudança radical de perspetiva, bem identificada logo no título: Destroços dos Descobrimentos − Fracassos, Naufrágios e a Resistência que Marcaram a Expansão Europeia (edição Presença). Especialista em literatura e cultura, Park não é um estranho aos arquivos da Torre do Tombo, mas o seu olhar distingue-se por procurar o que muitos ignoram: as fendas no império. De certa maneira, como faz questão de escrever logo num dos primeiros capítulos, este livro tem algum do simbolismo que, em Os Lusíadas, Luís Vaz de Camões fez ecoar na voz do Velho do Restelo, para quem a glória, a fama, a honra, a força e a bravura eram ilusões.
Como afirma o autor, o Velho do Restelo levantava uma questão que inquietava frequentemente os escritores do início do período moderno: “A diferença entre o vício e a virtude era mais uma questão de linguagem do que de moralidade. Um mesmo ato pode ser considerado glorioso para um homem e cobiçoso para outro. A audácia de uma pessoa era a imprudência de outra. A bravura pode, sob um ângulo diferente, assemelhar-se a crueldade. A retórica, por outras palavras, pode revolver e deturpar a avaliação moral. É tudo uma questão de interpretação.”
Ao analisar a assombrosa taxa de naufrágios − entre 12% e 18% na rota da Índia − e documentos visuais que mostram frotas em chamas em vez de glória, Simon Park convida o leitor a um exercício de “desaprendizagem” do imperialismo. O seu livro não é apenas sobre o passado; é uma reflexão sobre como a incerteza de então continua a moldar as possibilidades do nosso futuro comum.
Neste livro propõe reescrever a História dos Descobrimentos, tal como foi estabelecida durante gerações. Trata-se mais de uma obra sobre fracassos do que sobre glórias?

Em Destroços dos Descobrimentos − Fracassos, Naufrágios e a Resistência que Marcaram a Expansão Europeia (edição Presença), Simon Park vira o tabuleiro da História ao contrário. Através de uma narrativa atraente e bem fundamentada, ele retira os heróis nacionais dos seus pedestais para dar palco aos figurantes do fracasso − marinheiros anónimos, mulheres cativas e povos resistentes que desafiaram a hegemonia europeia. E com um rigor académico que consegue prender a atenção do leitor, defende que a expansão marítima foi um processo caótico, improvisado e profundamente dependente do conhecimento dos povos por onde navegavam as naus saídas da Península Ibérica.
A glória reside frequentemente na forma como uma história termina, no destino de uma viagem. Este livro, pelo contrário, mergulha o leitor nas dificuldades dessas jornadas e nas rebeliões, nas rivalidades e nos mal-entendidos que ocorreram em torno delas, tanto em terra como no mar. Não dou o assunto por concluído quando os europeus chegam a locais remotos, mas mostro o que aconteceu a seguir: a conquista não é imediata; uma vez aberta uma rota marítima, os navios continuam a naufragar ao longo do seu percurso. Existe uma rica tradição de debate sobre os Descobrimentos que remonta ao próprio século XVI. Mais recentemente, podemos pensar no trabalho de Sanjay Subrahmanyam, Felipe Fernández-Armesto, Pedro Cardim ou Giuseppe Marcocci. Junto-me a essa conversa para mostrar que, quando olhamos para o fracasso, percebemos que a História não foi um “mar de rosas” e poderia ter tomado um rumo diferente.
Aceita a provocação de que o seu ponto de vista é, de certa forma, o do Velho do Restelo?
Até certo ponto, sim. No livro, questiono até que ponto devemos rever-nos nos contornos específicos do argumento do Velho do Restelo, mas ele é uma excelente recordação de que existiam vozes dissidentes mesmo no século XVI. A crítica aos aspetos mais sombrios da expansão marítima europeia é tão antiga quanto as próprias viagens. Por vezes imaginamos que a dúvida é um produto das nossas preocupações atuais, mas Camões mostra-nos que, naquela época, as pessoas levantavam objeções de vários tipos. Ele é um exemplo de como a História se torna mais rica quando ouvimos mais do que uma voz.
Na sua opinião, quais são as mentiras mais aceites relativamente aos Descobrimentos e à era da expansão marítima europeia?
Como o foco tende a recair sobre os “sucessos”, podemos ignorar o facto de os capitães europeus estarem dependentes dos governantes e dos conhecimentos locais, ficando vulneráveis às condições meteorológicas e à resistência humana. A chegada era apenas o início de relações longas, instáveis e muitas vezes violentas.
Quais foram as consequências de aceitar, durante tantos anos, uma versão da História que, na sua perspetiva, não corresponde à realidade?
A principal consequência é recordarmo-nos de alguns capitães e de algumas datas-chave, perdendo de vista quantos estiveram envolvidos nestas viagens e foram impactados pelas consequências que delas derivaram. Perdemos também a perceção da “confusão” da história à medida que esta se desenrola. O livro tenta restaurar alguma da incerteza vivida no século XVI, quando nem sempre era claro como a história terminaria.
O que espera que um leitor português sinta ao ler no seu livro que o seu império foi um processo “complexo e improvisado”, em vez de um plano divino ou estrategicamente delineado?
Espero que os leitores terminem a leitura com vontade de saber mais. Existe um tesouro de documentos, imagens, peças de teatro e poemas portugueses por explorar: peças sobre cercos, epopeias sobre naufrágios, poemas em que um pai se questiona se o filho deve seguir a vida clerical ou procurar fortuna no Estado da Índia. Estes textos oferecem perspetivas maravilhosamente variadas sobre a época. Tento recuperar a sensação de viver nesse período: um cativo a lutar pela sobrevivência, uma conversa através de barreiras linguísticas, lutas de poder locais, o terror de uma tempestade. A História é feita de inúmeras ações humanas, algumas corajosas, outras terríveis, muitas delas improvisadas e não planeadas com antecedência.
No livro, refere que cerca de 12% a 18% dos navios portugueses na carreira da Índia naufragaram. Como é que isto afetou a mentalidade e a economia de Portugal na altura?
Nos relatos de naufrágios da época, dizia-se frequentemente que a morte e a destruição ali narradas deveriam servir de aviso e exemplo para que outros não fossem gananciosos, sobrecarregando os navios com demasiadas mercadorias ou descurando a manutenção das embarcações. Mas esses avisos foram, demasiadas vezes, ignorados.
Continua a ser possível as pessoas ficarem maravilhadas com viagens marítimas sem precedentes e, ao mesmo tempo, horrorizadas com o que daí adveio, como a escravatura
Porque considera importante dar voz a artistas contemporâneos, como o filipino Kidlat Tahimik, para reinterpretar a morte de Fernão de Magalhães?
Os artistas contemporâneos podem abrir janelas diferentes para o passado. Não substituem diretamente as provas em falta, mas podem sugerir novas formas de ver os acontecimentos históricos. O trabalho de Kidlat Tahimik, por exemplo, traz humor e imaginação a uma história contada frequentemente de um ponto de vista europeu, estabelecendo ligações esclarecedoras entre diferentes períodos temporais. A arte contemporânea recorda-nos que estas histórias continuam vivas e são relevantes para a vida das pessoas de hoje, das Filipinas ao Brasil. Penso também que muitos dos contactos que as pessoas têm com a História não acontecem através de livros de História ou na sala de aula; acontecem em férias, através de nomes de ruas, em exposições; por isso, quis também transmitir a ideia de que a História pode ser interpretada e vivida de muitas formas.
Qual foi o documento ou relato mais surpreendente que encontrou na Torre do Tombo ou noutros arquivos?
Talvez não seja surpreendente, pois já o conhecia, mas o Livro de Lisuarte de Abreu, na Biblioteca Morgan (Nova Iorque), capta exemplarmente a perspetiva do livro. São dois volumes, produzidos em Goa entre 1558 e 1565, que catalogam as armadas enviadas de Lisboa para a Ásia desde a primeira viagem de Vasco da Gama a Calecute em 1497/8. Seria de esperar que estas páginas desenhadas à mão, repletas de caravelas e naus, se focassem no esplendor das frotas. No entanto, ao folhear, percebe-se que muitos dos navios estão em chamas ou a afundar-se no abismo, com tábuas, barris e pessoas espalhadas pela superfície das ondas. Capta visualmente o argumento do livro: o poder marítimo e o desastre marítimo não eram histórias separadas.
De que forma o arquivo histórico − os documentos escritos − é limitado pelo facto de ter sido produzido exclusivamente pelos “vencedores”?
Os documentos são sempre moldados pelas preocupações de quem os escreve. Isso pode significar dar atenção aos capitães em detrimento das pessoas comuns, ou ignorar as experiências de pessoas de diferentes origens ou credos. Esta é uma limitação, mas não significa que os arquivos europeus não possam fornecer revelações surpreendentes. Pelo contrário. Se lermos com atenção, as lacunas, os silêncios e as contradições podem ser reveladores. Recentemente, estive envolvido num projeto sobre o ensino da Geografia nas escolas, partilhando documentos do Arquivo da Torre do Tombo que demonstram a frequência com que os portugueses recorriam a pilotos locais para guiar os seus navios no oceano Índico. Podemos não saber muito sobre cada um desses indivíduos, mas emerge inequivocamente um padrão de uso frequente destes pilotos, alterando a perceção disseminada em alguns livros que foca figuras europeias, como Vasco da Gama, como os únicos a expandir o conhecimento do globo.
Portugal transportou mais escravos através do Atlântico do que qualquer outra nação. Como deve este facto moldar a nossa visão atual dos Descobrimentos?
A dimensão do tráfico de escravos realizada por Portugal deveria tornar impossível qualquer narrativa puramente triunfalista deste período. Mas penso que continua a ser possível as pessoas ficarem maravilhadas com viagens marítimas sem precedentes e, ao mesmo tempo, horrorizadas com o que daí adveio, como a escravatura.
Perante o que descreve no livro, deveríamos reescrever a História oficial dos Descobrimentos?
Preferia que tivéssemos muitas histórias em vez de uma história oficial. Gostaria que contássemos mais histórias: sobre marinheiros comuns, mulheres, os que foram capturados, os que resistiram, famílias formadas e separadas, as consequências para o ambiente… Os alunos sentem-se por vezes desmotivados ao estudar este período ou ao ler a literatura da época porque parece algo muito remoto, mas eu gostaria de mostrar que há muito por descobrir que não é o que se espera.
Refere que “o passado permanece incerto”. Significa isto que a História está sempre em construção?
Sim, e é isso que torna o estudo do passado tão entusiasmante. Há sempre um novo documento à espera de ser encontrado, ou uma nova pergunta que altera a forma como lemos uma fonte familiar. É uma conversa que evolui com o tempo.
O livro menciona que Portugal e Espanha dividiram o mundo com o Tratado de Tordesilhas “às escuras”. Tem noção de que, em Portugal, isto é considerado quase uma heresia?
Olhe para um mapa do início do século XVI, como o planisfério de Cantino, e verá uma linha definida a dividir o mundo além da Europa entre Espanha e Portugal; mas verá também apenas o esboço tosco de secções das Américas e muito espaço em branco. O conhecimento do mundo ainda estava a evoluir na altura.
Aceita que a língua portuguesa, sendo uma das mais faladas no hemisfério sul, é o maior legado − positivo ou negativo − desta era?
O historiador do século XVI João de Barros foi extraordinariamente presciente quando sugeriu que a língua portuguesa sobreviveria ao império e aos seus monumentos. Aprendi português durante a licenciatura e há muito que sou fascinado pela sua riqueza, pelas suas muitas variantes e literaturas. Para mim, a língua transporta uma história, mas também possibilidades extraordinárias para reimaginar o passado e idealizar novos futuros.
Se pudesse entrevistar um dos “naufragados” do seu livro, quem escolheria e o que lhe perguntaria?
Que excelente pergunta! Escolheria Leonor de Sousa de Sepúlveda, mulher do capitão do galeão São João. Ela é destacada como sendo excecionalmente forte e tem um fim terrível (mas não vou dar aqui spoilers). Gostaria de saber como foi para ela a ida para a Índia, o que viveu e o que pensava das pessoas que a rodeavam.