Avolumam-se os sintomas de que a nossa sociedade – a portuguesa – está cada vez mais anémica de valores civilizacionais básicos, a começar pela decência. No passado mês de janeiro, por exemplo, imagens amplamente partilhadas nas redes sociais e em espaços informativos mostraram, numa escola da Moita, durante a hora de almoço, um aluno mais velho a agredir um colega mais novo, este diagnosticado com perturbação do espectro do autismo. O bárbaro ato foi captado em vídeo por outros estudantes, que não intervieram para travar o agressor e auxiliar a vítima. Muito pelo contrário: riam-se à gargalhada com o que estavam a ver.
O agressor foi suspenso temporariamente da escola e enfrenta um processo disciplinar – provavelmente, duas medalhas que agora traz com orgulho ao peito. Quanto aos que assistiam e se riam, até se pode trazer aqui à colação que apenas mimetizaram os adultos que, em acidentes de viação ou confrontos entre claques de futebol, por exemplo, sacam logo dos seus telemóveis para filmar, em vez de ajudar ou intervir.
Mas prevalece sempre a perplexidade e a indignação, que o escritor Luís Osório expôs assim num seu Postal do Dia, na Antena 1: “Que mundo é o que vimos no recreio daquela escola na Moita? Quem é aquele miúdo que espanca um colega autista? Que o humilha? Quem são os que gravam as imagens nos seus telemóveis? Os que riem alarvemente enquanto rodeiam o que é agredido numa arena de animais selvagens? O que esperar de todos eles no futuro? O que raio serão dentro de uns anos? Há alguma razão objetiva para esperarmos uma redenção? Um volte-face? O ganho de uma consciência? Uma luz que lhes rebente a negritude?” Como qualquer pessoa decente, Luís Osório perguntou e perguntou-se.
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