Por que razão a crise tem mais impacto sobre as mulheres?
Em tempos de crise, é frequente que os impactos mais fortes se abatam sobre os mais fracos. A crise não afeta todos por igual e quem trabalha com vínculos precários, com poucos ou nenhuns direitos, quem está no desemprego, quem depende do apoio do Estado por falta de saúde ou de trabalho é o primeiro alvo. As mulheres são mais nessa situação, são mais entre os que estão no desemprego, logo, são mais afetadas, no conjunto da população. Há, ainda, mais mulheres a viver sozinhas, sobretudo em idades mais avançadas. E, na generalidade das culturas, a maior carga da vida familiar e do cuidar cabe também às mulheres, pelo que os efeitos da crise são a somar.
E sobre as mulheres portuguesas?
As mulheres portuguesas vivem numa sociedade onde, nos últimos anos, as desigualdades aumentaram, ao invés de diminuírem, onde a crise as empurrou para casa mais do que antes. Em Portugal, somam-se ainda níveis de violência persistentes e que a crise teima em reforçar. É a violência doméstica, por exemplo, que continua a atingir muitas mulheres e se vê aumentar em tempos de crise. As ramificações da crise nas formas de violência são muito vastas. Lembro-me sempre das palavras de Aysha, uma mulher palestiniana, há uns anos, em Gaza.
Não tinha o que comer nem o que dar de comer à neta. Disse-me: as mulheres veem demais e mais do que os homens porque veem o que se passa fora e dentro de casa.
E veem partir, morrer. E isso coloca nos ombros das mulheres um fardo adicional.
E que respostas oferecem para resolver crise?
Sendo as mais lesadas, as mulheres estão, necessariamente, na linha da frente no combate à crise. Mas o que é preciso é que mulheres e homens, em conjunto, resgatem as suas vidas, os seus direitos e, porque não, o direito a voltar a ter um futuro mais justo.
A injustiça não faz parte do imaginário da maioria social, pelo contrário, é a luta por um futuro melhor que nos une.
Cem anos depois das primeiras manifestações a favor da igualdade entre géneros, o que falta ainda fazer para a alcançar?
A desigualdade entre homens e mulheres tem uma base milenar. Houve imensas conquistas, nos últimos anos, e vemos, agora, com a crise, alguns recuos. Mas cem anos não são suficientes para eliminar a desigualdade enraizada na esmagadora maioria das culturas. Por exemplo, as leituras dominantes que se fizeram ao longo de séculos das religiões maioritárias conferiram à mulher um papel submisso ou de obediência, o ser que resultou da costela do homem, mesmo tendo em conta que as leituras dos livros são feitas por humanos. O problema é a desigualdade nas sociedades e a sua reprodução, que vai muito para além de explicações deste tipo, as quais, por si só, não justificam a injustiça nem a opressão.
Como é vista a questão a nível europeu?
Hoje, na Europa, o discurso é o da igualdade e da justiça mas a realidade não muda à velocidade dos discursos. A igualdade ganhou estatuto e direito de valor inquestionável, na Europa, mas o problema é que a realidade está atrás. As instituições europeias têm-se batido pelo fim da violência contra as mulheres, que se repete vezes demais por todo o mundo, pela maior participação das mulheres nas esferas de decisão, entre outros progressos. Já no que diz respeito, por exemplo, à desigualdade salarial têm tido uma posição tímida e é inadmissível que não vingue ainda um direito tão básico como o do salário igual para trabalho igual.
B.I.
EURODEPUTADA
Investigadora do Centro de Estudos Sociais e doutorada pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, tem vários trabalhos publicados na área do ambiente e da saúde pública.
Eleita para o Parlamento Europeu em 2009, faz parte do grupo da Esquerda Unitária